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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A palavra do ano - Silêncio.

Não me lembro de ano mais ruidoso que este.

Num ano de protestos, de vozes e contra vozes, de diálogos de surdos e manifestos, o ano do 1% e dos 99%, de ocupações, motins, megafones humanos, gritos, gás pimenta, primaveras árabes e terramotos japoneses, repressão e revolta, colapsos monetários, guerras mais visíveis ou invisíveis, mais ruidosas ou discretas, defeitos e excessos, escolho a palavra silêncio.

Parte importante do meu trabalho é a antítese do silêncio: promover e comunicar em áreas como a televisão, a música, o cinema, os jogos, usando o mais caótico e ruidoso dos meios, a Internet. Todos temas que já levaram vizinhos a bater a portas, pedindo para baixar o volume. Todos paixões (minhas também) que levam muitos a vociferar ao ataque ou em defesa, como é próprio das paixões.

A outra parte, contudo, tem muito a ver com o silêncio: ler e escrever. Um silêncio fictício, claro, há sempre vozes na cabeça de quem escreve e outras (as mesmas? Diferentes?) nas de quem lê.

Mais que tudo isto, contudo, sacode-me como espectador e consumidor a cacofonia de mensagens mediáticas, de previsões de Apocalipse futuro (financeiro? Económico? Social?), de análise de Apocalipse presente, o eco permanente da palavra crise que os media tradicionais e os media sociais amplificam à exaustão. Em alguns momentos o ruído é quase insuportável e os espaço para pensar inexistente.

Por isso escolho o silêncio. Não por não me indignar, não por não querer falar, não por não ter coisas para dizer, mas para encontrar esse mínimo espaço de reflexão e quem sabe prazer que as palavras que inventamos e que lemos nos conseguem dar.

Há, é claro, um reverso desta medalha. O silêncio individual a que nos recolhemos pode ser confundido com passividade, com indiferença, com anomia, demissão, abstenção. E é mesmo capaz que os tempos não estejam para ficarmos calados. Permitam-se apenas então o silêncio da reflexão, permitam-se o silêncio privado dos vossos prazeres, descubram o que têm a dizer mas depois façam ouvir a vossa voz. De todas as maneiras que conseguirem.

 

A propósito de silêncio, ainda duas notas. O filme com mais nomeações para os Globos de Ouro é um filme mudo, de nome “The Artist”, que muito me apetece ver. E em jeito de proposta, deixo aqui os famosos quatro minutos e trinta e três segundos de John Cage, dirigidos (?) por um maestro que já tive o prazer de ver ao vivo, Lawrence Foster. Quem não conhecer, que veja e logo vai perceber.

 

A imagem que ilustra este post foi feita no Egito por Goran Tomasevic para a Reuters.