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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Micro História - O Rapaz do Call Center

Caminhava debaixo da sombra das árvores sem hesitar. Gostava dos troncos sólidos, da sombra das copas, mas tinha pena de não saber o seu nome. Fumava com displicência e sentia a hipótese permanente de os calções largos lhe caírem até aos tornozelos, mas tal nunca iria acontecer.

Orgulhava-se das rastas no seu cabelo, presas em cima atrás. Orgulhava-se da argola no lábio e da outra na narina do mesmo lado. Tinha no tornozelo uma tatuagem que era só uma vela triangular, mas pouca gente a percebia.

Tinha vinte anos mas ninguém lhe dava mais de quinze ao primeiro olhar. Ria-se sem confirmar ou desmentir. Tinha poucos pelos no corpo, o que nem o incomodava particularmente, e uma face imberbe de bebé. A tatuagem, os piercings, as rastas, a roupa, o cigarro, tudo isto ele tinha consciência de serem provocações que a sua cara de bebé dirigia ao olhar dos transeuntes.

Ao entrar no Call Center, o rapaz moreno da barbicha fumava. Quantos cigarros já tinham partilhado? Trocaram apenas um aceno de cabeça. Para alguns, tudo aquilo somado era apenas a semente do desejo.

Sentou-se no seu lugar à hora exacta e teve a certeza de que o dia ia correr bem quando a namorada e colega, dez anos mais velha, lhe deu um beijo de boas vindas.