Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Micro História - A Rapariguinha do Shopping

Mascava pastilha elástica tentando manter a boca fechada. Usava a língua e a pastilha para limpar os restos do almoço de fast food dos dentes de que se orgulhava, certinhos, brancos e polidos. A roupa tinha sido escolhida com cuidado, mas tudo lhe pesava, hoje: as argolas das orelhas, a fivela grande e dourada na cintura, o rabo demasiado grande, o peito demasiado pequeno.

Detestava dietas. Queria ficar elegante, ser alguém que os homens desejassem na praia, mas sempre que tentava emagrecer, parecia-lhe que era no peito que perdia peso e deixava de se poder orgulhar dos seus decotes exibindo um vale bem definido entre os seios.

Hesitava sempre entre combater a celulite ou encantar com o sorriso, um bater de pestanas devidamente alongadas e encurvadas e, é claro, o decote. Não usava colares, era tudo pele. Maquilhava-se sempre com cuidado e uma sensibilidade que a mãe apelidava de artística. E no fim, uma hora depois de ninguém, absolutamente ninguém entrar na loja, tudo lhe pesava. Não poderia antes ter ficado em casa, enrolada na cama nua, a comer chocolate?

Bateu as pestanas uma vez e entrou um homem, apessoado, alto, ombros largos, mas tremendamente feio. Um arremedo de príncipe encantado? Sorriu-lhe, espreitou-lhe a aliança no dedo e perguntou.

- O que deseja?