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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Algumas notas pessoais sobre a Proposta 118.

Curto e grosso. As ideias dos nossos políticos e das supostas sociedades de proteção dos autores enfermam de uma falta de visão e falta de noção da realidade e das tendências de evolução da criação cultural num contexto digital.

O consumo cultural está a migrar para a cloud e a dar-se crescentemente por streaming. Veja-se o exemplo de serviços como o Meo Go, a Zon Online, o Music Box, o Spotify, o Netflix, o Vidzone, o MUBI. Preciso de continuar? Este é o futuro do consumo, estimule-se como negócio e como espaço para a criação portuguesa.

O consumidor cultural que pirateia em vez de comprar não precisa de discos rígidos com cada vez mais espaço e cada vez mais caros. Se o preço sobe, ele apaga o que já viu ou ouviu e "saca" e ouve ou vê coisas novas. Ou então vê e ouve a partir da cloud nos serviços acima mencionados, com preços cada vez mais baixos e uma oferta cada vez mais ampla. O pirata é, por definição, esperto. Vai resolver o assunto, com certeza.

Discos rígidos e outros suportes de armazenamento são hoje ferramentas sobretudo para os criadores, não para os piratas. Quem vai sofrer mais, porque é quem mais precisa de armazenamento, é quem cria, produz, distribui, disponibiliza conteúdos, não quem os consome. Taxar ao megabyte ou ao terabyte é taxar os autores. Perguntem ao Miguel Gonçalves Mendes ou ao noiserv ou ao David Fonseca ou ao João Canijo quantos terabytes ocupam as suas criações e vão perceber do que estou a falar.

Um país pequeno como Portugal, onde o custo dos meios de produção sempre foi um obstáculo ao crescimento de uma indústria cultural audiovisual decide não estimular a classe emergente de criadores digitais e antes taxá-los, bloqueá-los, dificultar-lhes a vida e entregar esse dinheiro a estruturas míopes e calcificadas incapazes de os apoiar. É só mais um prego no caixão.

E o caixão começa a ficar bem fechado. Sem apoios públicos, sem mecenas, com preços mais caros para os públicos, com preços mais caros para os criadores.

Momento para respirar fundo. Alguém aí a dizer "ah e tal, é mais um daqueles piratas da net"? Declaração de interesses abaixo:

 

1. Compro cultura sob todas as suas formas, físicas ou virtuais. A maior parte das vezes pago, algumas, poucas, não pago. Pago como? Pago nas livrarias, lojas de discos e salas de cinema. Pago no Videoclube MEO. Pago nas lojas online como a Amazon, a Play.com ou o Book Depository e mesmo em algumas ocasiões, já na Wook ou na FNAC.pt. Pago nas exposições e concertos da Gulbenkian, nos teatros que frequento menos do que devia e em mais alguns concertos e festivais de música. Pago no iTunes e na Kindle Store. A maior parte das vezes em que não pago é por motivos profissionais. Tenho a sorte de ter alguns descontos, ofertas e acesso a cultura gratuita em contexto profissional.

 

2. Consumo cultura em papel (livros, revistas, banda desenhada, etc.), em suportes físicos variados (CD, DVD, Blu-Ray) e sem suporte em vários dispositivos (iPod, iPhone, Kindle, Mac, PC). Uso headphones e ecrãs, nestes vários casos.

 

3. Uso tecnologia para produzir cultura (no sentido lato do termo) desde os anos 80, quando tive o meu primeiro computador, um ZX Spectrum. Hoje tomo notas e escrevo em todo o lado: papel, claro, mas também no telemóvel, em vários computadores, na verdade, onde calha. Filmo com o telemóvel, com uma máquina fotográfica DSLR, máquinas mais point and shoot, etc.. A maior parte dos resultados vem parar... a este blog.

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