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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Micro História - O Ciber Espaço

Quando o telefone tocou e ele viu o número no visor, temeu. Temia pelo pior sempre que aquele número piscava ao ritmo do toque no visor antiquado de LCD baço, mas obedeceu à voz curta e decidida da secretária.

Chamou o elevador para cima, até ao topo, o andar da administração, o décimo terceiro, andar de má sorte. Ao canto do tecto, uma câmara de vigilância, um paralelipípedo de plástico branco, uma objectiva em forma de cilindro, um cabo ligado algures. Plim, fez o elevador ao chegar.

No espelho ajeitou o nó da gravata, passou os dedos pelo cabelo. Ao canto, em cima, reparou numa semi-esfera brilhante, preta, opaca. Escondia outra câmara decerto.

Quando saiu para o átrio apainelado a madeira com obras de arte nas paredes, reparou numa terceira câmara, em tudo semelhante à primeira.

Paralisou.

E se estivessem todas ligadas? Quer dizer, estas estavam, de certeza, alguém olhava para a sua imagem num painel de ecrãs. Mas e aquelas na porta da sua garagem, a apontar para o lugar de estacionamento? Estariam ligadas a estas? Existiria por trás de todos estes olhares um único organismo electrónico a vigiá-lo?

Ontem a mulher puxara-o para cima do capot, sob o efeito do vinho caro, do restaurante elegante, ali mesmo tinha deixado cair as calças, lhe tinha levantado a saia. Só depois reparara no olhar sinistro da câmara. Nada dissera à mulher. Não sabia se ela reparara também.

Quando entrou no gabinete do chefe e ele lhe deu uma pancada nas costas e uns "Parabéns!" sentidos não teve a certeza se era pelo seu bom trabalho na empresa ou pela maneira dedicada como fizera amor com a mulher em cima do carro.

Com tantos olhos, aquele homem controlava com certeza tudo.