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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Micro História - Leite com Chocolate

Era perfeitamente normal, não ter tempo de beber o leite com chocolate em casa. O petiz nunca chegava a perceber de onde vinha esse monstro de pressa, o atraso. Esforçava-se sempre por se vestir a tempo, por ter a mala arrumada, o banho tomado na noite anterior. Nunca havia um momento em que ficasse à espera, nunca havia uns segundos livres.

O torvelinho da mãe não parava até saírem de casa. Já lhe tinha perguntado porque não tomava ela duche na noite anterior, em vez de esperar pela manhã para sair da casa de banho a correr, embrulhada numa toalha, bater com a porta do quarto, para emergir um número incerto de minutos mais tarde, vestida e disparando-lhe um sorriso instantâneo seguido de um "já estamos atrasados" como uma bala.

O leite com chocolate ficava sempre para o elevador. Ele adorava que a palhinha ficasse encaixada exactamente no pequeno buraco prateado. Gostava de sentir o pacote emagrecer, contorcer-se na sua mão à medida que ele sugava o leite cada vez com maior dificuldade. Não tinha, contudo, fôlego, para beber tudo de uma vez.

A mãe, que não bebia leite com chocolate, não compreendia aquele prazer da luta contra o pequeno pacote de cartão e protestava sempre contra o resfolegar no fim, quando o ar entrava e o leite deixava de suster a respiração.

Acabava sempre antes de chegarem ao carro e abandonava aí o pacote como o cadáver de um inimigo derrotado, antes de pôr o cinto no banco de trás e dedicar o seu olhar às pessoas e às fachadas.

O chão do carro era um cemitério de pacotes de leite com chocolate derrotados.