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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Bill Evans - You Must Believe in Spring

Sempre achei as tarefas dos "tops" e das "listas" de "favoritos" e de "melhores" bastante ingratas e normalmente são perguntas a que me recuso responder. Ontem, contudo, apercebi-me de que, quase sem dar por ele, tenho provavelmente um álbum favorito de todos os tempos. Um daqueles que foi ficando ao longo dos anos e que consigo ouvir sempre, haja o que houver.

 

Bill Evans foi um dos mais influentes pianistas de jazz de todos os tempos. Americano de origem, nasceu em 1929 em New Jersey e morreu em 1980. O álbum "You Must Believe In Spring" foi gravado em Agosto de 1977 (faz agora 31 anos) mas só foi editado no princípio de 1981, depois da morte de Evans. Acompanham-no Eddie Gomez no baixo e Eliot Zigmund na bateria.

Cheguei ao jazz como muita gente chega (ainda hoje), pela voz das suas grandes damas. Hoje talvez fosse Diana Krall, na altura foi Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Dinah Washington, Shirley Horn. Depois fui pelos sopros adentro, com Louis Armstrong, Dizzie Gilespie, Charlie Parker, John Coltrane, Miles Davis, Wynton Marsalis. Só quando cheguei ao piano "branco" de Vince Guaraldi, Dave Brubeck, Brad Mehldau e Bill Evans, comecei a sentir-me em casa, comecei a sentir que as várias pontas do meu gosto musical se podiam tocar.

Bill Evans, tal como Brubeck, teve formação clássica no piano, ao mesmo tempo que, desde muito cedo, explorava os caminhos do jazz. Não vou entrar no debate sobre a verdadeira natureza do jazz, muito menos na polémica que Marsalis alimentava, sobre a natureza "negra" do jazz. Estou só a dizer que para alguém que, como eu, sempre ouviu música clássica, Evans e Brubeck foram uma descoberta reconciliadora.

Evans sempre teve um "problema de dependência química", primeiro de heroína, mais tarde de cocaína. Acabaria por o matar prematuramente aos 51 anos de múltiplos problemas de saúde. Mais um debate em que não me apetece entrar, o da relação entre a droga e a música.

Tudo isto, contudo, contribui para que "You Must Believe in Spring" seja o álbum que é.

 

Abre com "B Minor Waltz (For Ellaine)" composta pelo próprio Evans e fecha com "Theme From M*A*S*H (Suicide Is Painless)". A faixa que lhe dá nome é da banda sonora de "Les Demoiselles de Rochefort", filme de 1967 de Jacques Demy e apenas mais um dos temas é da autoria de Evans, "We Will Meet Again (For Harry)" (dedicada ao irmão).

Não sei se o pianista adivinhava já a morte a vir, no Agosto de 1977, depois de um dos invernos mais frios de que há memória na cidade, mas todo o disco, nas suas escassas sete faixas, tem um tom de despedida melancólica, uma última esperança de vida sem grande hipótese de realidade.

A ambiguidade do título, da selecção de faixas, da própria música de Evans contribuem para construir um objecto musical perfeito para tardes de calor ou noites de frio, para manhãs de primavera ou crepúsculos de outono, entre a tristeza, a melancolia e a possibilidade remota de uma felicidade calma.