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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Micro História - O Trabalhador

Sentava-se no seu lugar todos os dias, impecavelmente vestido, impecavelmente penteado, movido por um sentido de dever inabalável. Mentalmente contava os dias do ano e três meses que lhe faltavam para a reforma e cumpria, num ritmo vagaroso mas certo, as poucas tarefas que ainda lhe destinavam.

À sua volta, todos eram vinte, trinta, quarenta anos mais novos que ele. Cercavam-no com  preguiça, desleixo, conversas de que compreendia apenas algumas palavras, entusiasmo desbragado por vezes. Ele respondia com um curto e correcto bom senso, com uma boa educação feita da escolha breve de palavras, ao cruzarem-se nos corredores, ao trocarem impressões que nunca escapavam do domínio do profissional.

Secretamente ambicionava ser um modelo futuro para aquelas pessoas, mas não tinha ilusões e sabia que não passava de um intruso, para eles.

Tinha apenas um capricho. Todos os dias, a seguir ao almoço, pegava no telefone e marcava o mesmo número e tinha o mesmo tipo de conversa, num tom calmo e familiar.

"Olá, mãe. Tudo bem? (...) Almoçaste bem? O quê? (...) Cozida, não? (...) Pois, com legumes. Fizeste bem. Eu não comi nada de especial (...)". Nunca variava muito.

O que os que o rodeavam não sabiam é que a sua mãe tinha já falecido e o número que ele marcava era de uma linha telefónica de sexo que prometia mulatas de grandes rabos.