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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A doença

Ryszard Kapuściński no seu livro "Travels with Herodotus" fala da viagem como uma espécie de doença que, quando nos infecta, connosco fica o resto da vida. Uma nota antes de continuar para destacar o estilo viciante de narrativa e reportagem deste polaco que cobriu o mundo no século XX em mudança radical. Fazem falta mais como ele.

O António Variações queria sempre estar onde não estava. Eu viajei pela primeira vez de avião para os Açores quando tinha dois anos e os meus pais foram "mostrar o bebé aos avós" e talvez tenha sido infectado logo aí. Estamos a falar de 1974, quando viajar ainda era algo que se fazia por necessidade ou por excesso de rendimento disponível.

Os portugueses, desde os fins do século XIV, viajaram por necessidade e situação geográfica: tinham fome estavam virados para o Atlântico. Nos Açores, depois de descobertos, também. Aprendi os Descobrimentos sem qualquer dose de romantismo ou épica, uma empresa de doses iguais de loucura, vontade e desperdício que contribui para os subsequentes séculos de euro-centrismo, a emergência do Novo Mundo e... o resto é história.

Voltando à doença da viagem, discutia este fim-de-semana com um amigo que era ainda uma actividade de privilégio que exigia dinheiro. Claro que sim, mas cada vez menos, com "low costs", "couch surfing" "pousadas de juventude", "intterrail" e "pacotes turísticos", fenómenos de democratização da viagem que só posso aplaudir. O que eu estava a tentar defender é que havia muitas maneiras de encarar a viagem (ou mesmo o turismo) para além do papel habitual de "visitante" ou "espectador".

Senti isto de forma particularmente aguda quando passei uns dias de novo nos Açores este verão, enquanto lia o Kapuściński e me apercebi de que não me interessava particularmente a paisagem e fotografá-la, mas mais que isso, poder experimentar os lugares de forma pessoal.

Quer isto dizer que me soube realmente bem comer coisas que me levam pela memória aos lugares (lapas, pudim de maracujá, almôndegas da minha tia), ler e adormecer numa cama estreita rodeado de edições antigas de clássicos da literatura, mergulhar na água quente de uma praia de areia preta, ter de conduzir a dez à hora por causa de uma manada de vacas, espreitar um Senhor Santo Cristo sofrendo na penumbra lateral da Igreja do Nordeste, coisas a que a maior parte dos turistas não dedicaram provavelmente muita atenção (e mesmo que tivessem dedicado).

Acabei por me lembrar de recordações que guardo de lugares e pouco têm a ver com as paisagens ou os monumentos, Paris quase sem ninguém pelas sete da manhã de fim-de-semana, o Hyde Park gelado com gente a fazer jogging de pernas roxas do frio, o cemitério de Montjuïc em Barcelona, o Staten Island Ferry, correr a fugir da chuva em Bruxelas, coisas deste género, supermercados e transportes públicos e cheiros e olhar para as pessoas. Isto para já não falar de Lisboa... até porque não é preciso ir a lado nenhum para viajar.

Não estou a afirmar-me elitista, nem a dizer que a minha experiência é melhor ou pior do que as outras, mas a maior parte do Turismo, como é desenhado, coloca-nos num de dois lugares formatados, o de espectador ou o de indolente. A mim sabe-me bem ter a liberdade de experimentar esta doença como me apetece.

E essa é uma das coisas sobre que ando a escrever.