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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Plaça Sant Felip Neri (rascunho)

Estamos de pé na entrada da igreja barroca da Plaça Sant Felip Neri. A chuva cai continua há já uns quinze minutos sem aliviar e tudo parece cada vez mais cinzento, o céu, as paredes, as marcas nas paredes (da bomba de 1938), os fantasmas das crianças mortas, a pedra do chão, das fachadas. Arrefeceu ao fim da tarde e começou a chover. Estamos mal vestidos para aquele aguaceiro e o vento fustiga-nos com água. Não sempre, só de vez em quando, oblíquo para nos lembrar que existe. A roupa de Clara começa a ficar ensopada. Assim, como estamos, é ela que apanha mais chuva. Não me ocorre não abraçá-la por trás, não usar o meu abraço para a aquecer, não cheirar o perfume do seu cabelo.
Vamos chegar atrasados ao jantar em casa do professor Jaume. Arrepiamo-nos do frio e do silêncio, do som das gotas na pedra, na água da fonte, da madeira da porta fechada nas minhas costas. A chuva, o frio e o silêncio, não, o ruído, a água ruidosa, um muro de água. A igreja é de 1752, uma bomba em 30 de Janeiro de 1938 deixou as paredes violentamente marcadas de estilhaços. Vinte crianças que se abrigavam ali morreram. Gaudi foi atropelado por um eléctrico e morreu também quando vinha a caminho daqui em 1929. Algures na praça fica o Museu do Calçado, mas não o descortino. São coisas que aprendi nos últimos dias num guia de viagens.
Abraço Clara com mais força. Deixa cair um pouco a cabeça sobre o meu braço. Começa a cantar. Baixinho, na cadência do baixo contínuo da chuva, uma daquelas árias de Handel que ensaia obsessivamente naqueles dias da nossa primeira ida a Barcelona. Clara está em todos os momentos inundada de música. Tenho ciúmes da música, não sei quanto espaço sobra para mim.
É só um aguaceiro de Primavera, por um canto do céu estreito da praça consigo já ver uma nesga de azul entre duas nuvens. Noutros tempos seria considerado um augúrio, de tão inesperado e intenso, uma mensagem dos deuses. E a voz de Clara, seria também uma mensagem dos deuses? Podermos ficar sempre ali, tornarmo-nos estátuas da praça e esperar pelo Verão e sorrir para as crianças maltrapilhas jogando à bola.