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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Rascunho para um amigo imaginário.

Um dia Art veio acordar-nos à sua cama que tomáramos como emprestada. Com um dedo cruzando os lábios pediu-me silêncio, lá fora ainda havia apenas a mais ténue das madrugadas. Saímos sorrateiros, pés descalços, calções. Embrulhámo-nos num par de cobertores velhos que cheiravam a naftalina e subimos as escadas. Art descobrira que a porta para o telhado não tinha fechadura e deitámo-nos a ver o nascer do sol vir do lado do rio.
- Não tinhas amigos antes de vires para Lisboa?
- Nem por isso.
A primeira luz toca-nos ao de leve, dedos pianíssimos, nuvens ainda na sombra.
- Tu também não tens amigos. - Diz ele.
- Tenho-te a ti, a vocês.
- Sim, mas antes.
O ar arrepia-nos, os dois semi-nus debaixo dos cobertores, as telhas marcando-nos as costas, desconfortáveis. E se um de nós escorrega? E se uma telha se solta? Não há mais que um parapeito raso antes da queda. A rua são cinco andares abaixo, uma poça de sangue lenta, esvaindo-se entre os paralelipípedos.
- Eu tinha dois amigos imaginários! O Bradley e a Stacey. Fartava-me de brincar com eles, fazíamos castelos na areia, dávamos passeios de bicicleta, comíamos fatias de bolo de chocolate a meias, de tudo um pouco.
- Que lhes aconteceu?
- Acho que se tornaram amigos um do outro e se foram embora. - Vira-se para mim e pisca-me o olho. - Nunca tenhas amigos imaginários aos pares, senão eles vão-se embora.

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