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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Hospital del Mar - Rascunho

Sabes do que me lembrei, Aquiles? Do percurso de minha casa à praia.

Não, não é da casa de Santos à Caparica ou a Carcavelos. Íamos de comboio, de cacilheiro, à boleia, de carro quando havia dinheiro para gasolina, íamos de tantas maneiras. Não é esse, é da casa da minha mãe, da casa de Espinho. Ficava mesmo pertinho da praia, sabias? Aí ia a pé, sempre. Uma casa térrea da parte da frente, com um quarto escondido pelo telhado a fazer sótão. Foi o que me fez mais falta nos primeiros tempos em Lisboa, essa praia. Isso e as estrelas, já te tinha dito.

Fazia sempre o mesmo. Descia as escadas a correr, batia a porta com força suficiente para garantir que a minha mãe me ouvia sair, afastava-me a sorrir com o protesto dela. “Raio do miúdo” era o mais comum. Por vezes berrava o meu nome, “Artur!”. Lamentava-se de não me ter dado um segundo nome, Artur Manuel ou Artur Filipe. O segundo nome dá sempre vigor à reprimenda.

Atravessava o jardim em frente à casa. É um jardim quadrado com uma árvore em cada esquina, mais velhas que eu e tu, troncos sólidos, copas frondosas sem flores. Na Primavera, o círculo de arbustos no meio da praça sim, enche-se de flores brancas, mas as árvores não. Bastava-me descer duas ruas e via já ao longe o mar. Azul, muito azul, o mar. Mesmo com nuvens, um cinzento azul. Se tivesse carneirinhos, estava mau para mergulhar, ondas muito altas, baças e verdes de espuma, a sacudir as pessoas, a levar uma de vez em quando. Sabes o que são carneirinhos? Não sei se sabes, é a espuma que o vento faz no mar alto, como rebanhos. Na maré vazia importa menos, é sempre mais calmo.

Cortava a direito por um descampado. Ouvia grilos e gafanhotos a saltar, às vezes distraía-me e as silvas arranhavam-me os braços ou a cara. Muitas vezes, é verdade, qualquer coisa me distraía, música, lembranças. Não é muito, para aí uns quinhentos metros, mas só depois sentia o cheiro do mar no nariz, o ar fresco na pele. Mesmo nos dias mais quentes, há ar fresco do mar, sabias? É assim em Lisboa? Não me lembro, já não me lembro.

Caminhava pela marginal à procura de um sítio onde a areia estivesse mais vazia, primeiro pela estrada, depois por um estrado de madeira. No Verão tinha de ir até mais longe, mas eu começava a ir à praia logo em Março, Abril. Muitas vezes só desistia no princípio de Novembro e mesmo aí, levava uma camisola e ia passear, sozinho, sem cão, sem companhia.

Deixa-me explicar-te a praia, é uma espécie de história (e tu gostas de histórias): primeiro há uma zona com jovens em grupinhos, bares e surfistas, pára-ventos e guarda-sóis; depois a praia principal, protegida por um esporão de pedra que torna as ondas mais mansas, cheia de miúdos e parolos; a praia das barracas, enorme, famílias, grupos grandes, mar assustador de bravo; só para lá do riacho é que não há quase ninguém, só pessoas como eu, à procura de silêncio e privacidade. O sítio ideal chamava por mim, descobria-o facilmente, o sítio onde eu estendia a toalha, tirava a t-shirt, descalçava os chinelos e saía a correr para o mar.
Levanta-se uma brisa que acaricia a cidade e o meu corpo mal agasalhado com ela. Há tantas coisas que não tive oportunidade de te contar, Aquiles.

Amanhã. Não passa de amanhã.