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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A Ilha

- Tem de ter a leveza da acácia. - Disse Rafael, fazendo batota. Passara naquele corredor antes, reparara na saladeira e virara-a, para descobrir que madeira era aquela avermelhada. Assim, quando Alex, em passos lentos se dirigiu ao mesmo local, pôde levantá-la e dizer - É isto. Exactamente isto. - E Alex concordou, era leve, a saladeira e tinha um tom avermelhado de algum modo familiar afastado dos vegetais que conteria.

Desde que se lembrava, por ser da ilha da Madeira, Rafael acreditava que devia saber o nome de todas as árvores, saber dos seus frutos e folhas, reconhecê-las olhando o tronco, adivinhar os veios e nós no seu interior. Mas fazia batota. Conseguia identificar oliveiras, com alguma atenção, carvalhos e figueiras, mesmo nogueiras, mas não ao longe e muito menos de relance. Frequentemente confundia pinheiros bravos com pinheiros mansos. Nunca conseguiria distinguir uma acácia de uma bétula.

Alex implicou com o preço. Por baixo da palavra que Rafael lera ("Acácia"), na mesma etiqueta, o preço não era mais que uma meia dúzia de euros. Rafael suspirou, mas conteve-se.

- Eles são assim tão teus amigos? - Perguntou Alex.
- Sim. - Respondeu Rafael com um encolher de ombros.

Eis ali, à sua frente, aquele homem de fato, um fato caro, Boss ou Armani provavelmente, que lhe assentava impecavelmente, realçando o que lhe restava de ex-atleta e disfarçando as preguiças que vinham com a idade. Ele próprio não ganhava mais do que dois salários mínimos que esbanjava em metade do mês, para passar o restante a contar tostões. E no entanto era Alex quem escrutinava sempre os preços, quem controlava os gastos, quem cometia o pecado mortal da Avareza, deixando a ele, Rafael, todos os outros.

- Eu depois pago a minha parte. - Acrescentou conciliador, mas não ouviu a resposta de Alex.

Aquele diálogo sobre pecados mortais que mantivera na sua cabeça, enquanto a boca soltava banalidades conciliadoras, lembrara-lhe uma manhã de páscoa em que o pai o arrastara para a missa pela manga do casaco de fato que odiava. Teria o quê? Nove anos? Não podia ser mais que isso. Depois não havia mais pai na sua vida.

De repente ali, no meio daquele centro comercial cheio de ruídos e dos seus ecos, escutou os seus passos pequenos, seguindo os do pai, enormes, no cascalho pela rua acima, a caminho da igreja. O pai, fugitivo da mãe, fugitivo dele. O pai, mira, emigrante, falando já uma língua um pouco diferente, uma língua que seguindo-o paciente, se aproximava já mais das costas do espanhol do que do português.

- Que foi? - Perguntou Alex, tocando-lhe no braço.

Rafael, desprevenido, mergulhou os seus olhos no do outro, mas não se afogou, não temeu perder-se. Sorriu e disse "nada".

Saíram juntos para a luz demasiada da praça central.