Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Détour

Discover Détour, a film by Michel Gondry shot on iPhone. Follow the adventures of a small tricycle as it sets off along the French roads in search of its young owner.

Original soundtrack: Étienne Charry

HBO, e agora?

hbo.png

É notícia de ontem a entrada da HBO em Portugal no princípio de Setembro. Notícia, diga-se, promovida da melhor maneira possível para quem a provocou, com o nascimento de um site destinado à recolha de dados pessoais de interessados cujo URL se espalhou pelo Facebook como fogo em palha seca. Para quem liga a estas coisas.

É aliás clicando na informação legal associada à recolha dos dados dos interessado, que descobrimos que quem os está a recolher é a NOS Lusomundo TV, S.A.. Uma primeira pista a dizer-nos pela mão de quem chega a dita HBO. Ora, a NOS tem já quatro canais de cinema e um de séries pago (TV Cine e TV Séries) e parte de cinco canais de desporto (Sport TV). O mov, embora exclusivo, tem outros donos. Eu sei que isto dos conteúdos, do entretenimento, das séries são coisas de pouco importância para reguladores e afins mas a verdade é que é muita coisa. Sobretudo se lhe somarmos os direitos sobre cinema em que quase todas as majors e grande parte do conteúdo independente estão nas mãos da NOS Audiovisuais.

Momento para disclaimer - o meu empregador é o MEO e sou responsável pelo MEO Kanal.

O panorama não é simples, até porque os direitos não são simples. Há direitos para exibição em canal de televisão incluido em pacote por subscrição, há direitos para exibição em canal aberto (RTP, SIC ou TVI), há direitos para gravações automáticas ou não, há direitos para outras plataformas (apps, websites, Playstation, Apple TV e afins) e, no caso dos filmes, há as salas de cinema.

Indo aos modelos de negócio de distribuição específicos para conteúdos específicos, a coisa complica-se um pouco mais. Só um exemplo: a 'Guerra dos Tronos', sem dúvida o maior sucesso da HBO dos últimos anos, é distribuída em Portugal pelo SyFy, um canal que é propriedade de uma das divisões da NBC Universal.

A HBO tem a minha idade, não é propriamente coisa de ontem, construiu a pulso o seu sucesso com investimento em conteúdos, alguns deles particularmente inovadores pela qualidade narrativa ou pelo investimento em valores de produção que eram, até aí, do cinema. E também o 'Sexo e a Cidade' (sim, ok, inovador por motivos diferentes).

Os irmãos mais novos da HBO aprenderam muito com o mano mais velho e é vê-los a gastar os rios de dinheiro feitos em negócios digitais (e não só) em novos e bons conteúdos. Estou a falar da Amazon (que continua a ignorar olimpicamente o cantinho luso) e da Netflix que vai entrar no nosso mercado em todas as plataformas lá para Outubro. E a HBO lançou também um primo destes mais novos, o HBO Go (vai existir por cá?) - é o chamado mercado over-the-top, basta juntar Internet.

Com a generalização da televisão de acesso pago, o panorama audiovisual português sofreu uma primeira desnatação: os conteúdos internacionais mais valiosos, susceptíveis de atrair audiências mais interessantes para os anunciantes migraram para os canais disponíveis nos vários pacotes de televisão. Nos canais em aberto ficaram concursos, telenovelas e entretenimento barato.

No mesmo movimento, generalizou-se o consumo ilegal, obrigando a um estreitamento dos períodos decorridos nas janelas de lançamento e a inovações como as gravações automáticas, elas próprias fortemente canibalizadoras de outros modelos como o do Video On Demand. 'Fear The Walking Dead' estreia simultaneamente nos Estados Unidos e no mercado global no mesmo dia, à mesma hora, na noite de 23 para 24 de Agosto, às 2h30 da manhã em Portugal, no AMC.

Netlfix e HBO são pagos por subscrição. Assumindo que vão puxar para si os conteúdos de maior valor em que investem, uma nova desnatação vai acontecer e o mercado da televisão vai ter mais degraus do que nunca. A Amazon, já sabemos, quer é vender sapatos. A nova era de ouro da televisão vai custar-nos mais do que nunca. E a Apple, o que anda a Apple a fazer?

Manufacturing and Design.

Sou um utilizador Apple satisfeito mas isso não vem ao caso. Também não estou a comentar o novo MacPro que me parece ter alguns problemas à partida - é muito bem desenhado, muito poderoso mas, para o público a que se destina, complicado de eventualmente melhorar e personalizar ao nível do hardware.

Este post é só para mostrar mais um vídeo extraordinário sobre como a Apple publicita o cruzamento entre os seus processos de design e de fabrico e os mostra como ninguém. E sim, mesmo sem perceber muito do assunto, tudo me parece muito avançado. Justifica o preço? Not so sure...

 

O bebé com a água do banho.

Foi tanta hoje a expressão mediática na Internet da morte de Steve Jobs que me chegou a incomodar. Sim, também eu, guilty as charged. A verdade é que o facto de estarmos num meio digital é capaz de ajudar a distorcer a percepção da realidade. E desconfio que nos próximos dias, semanas ou meses, vai haver gente a tentar enterrar a Apple com o seu criador. Aliás, a coisa já começou no dia anterior, com o lançamento do iPhone4S. Chama-se a isso "deitar fora o bebé com a água do banho".

Vamos lá a ver. A Apple é uma das mais ricas empresas do mundo. Conferir aqui. Criou alguns produtos tecnológicos fantásticos, tanto ao nível do hardware como do software. Teve outros tantos falhanços, que os sucessos se encarregaram de eclipsar. Teve um CEO que acompanhou os seus altos e baixos e a geriu com um fervor quase religioso, quase artístico e, com os sucessos, foi gerando formas diversas de cultos. Como todos os cultos, a irracionalidade foi uma componente importante, mas a irracionalidade é das ferramentas mais úteis para o marketing. Acho interessante o facto de parte importante das homenagens ao falecido serem anúncios, logotipos, ícones do culto. Veja-se a imagem que ilustra este post.

Em cima dos seus sucessos tecnológicos, a Apple tomou desde cedo a opção de construir ecossistemas tecnológicos fechados, em que dominasse completamente o hardware e o software. Nunca licenciou os seus produtos, nunca aderiu a formatos abertos, não seguiu o caminho da IBM, da Microsoft, do Google. Sempre preferiu ter menos quota de mercado, mas controlar totalmente a quota de mercado que tem. Não me lembro de outro exemplo assim, na história da tecnologia. Ajudem-me se houver. Em cima deste modelo, a Apple vendeu hardware, sobretudo isso. Mais. Inventou hardware. E com cada bocadinho novo de tecnologia, foi alargando o ecossistema, reforçando o ecossistema, abrindo a todos ou quase a possibilidade de lhe aceder e ganhar com ele, mantendo sempre o controlo. Esta é a história do sucesso do iPod, do iPhone, do iPad.

É verdade que esta capacidade de invenção e obsessão de controlo era personificada pelo senhor Jobs e mesmo com erros pelo caminho, não há dúvida que sabia o que estava a fazer, mas uma empresa não é um homem nem se enterra com ele. Parece-me a mim que o grande desafio da Apple é ser um bocadinho menos uma religião com um marketing assassino, para ser uma empresa um bocadinho mais como as outras. Sem perder o valor da sua diferença, dos seus trunfos. Um foi-se, ficam os outros.

Vai conseguir? A ver vamos...

Sobre Steve Jobs

Uso neste momento, o que é, para mim, o melhor computador que alguma vez tive. É um Apple MacBook Air. É leve, rápido, resistente e fácil de usar. Serve-me para tudo o que me apetece fazer. Como por exemplo escrever estas palavras. Não sou um Apple-fanboy nem nunca fui. A Apple é uma empresa elitista que tem como mercado alvo aproximadamente os 20% mais ricos do mundo. Assenta no princípio do consumismo de ecossistemas tecnológicos fechados com um design e uma funcionalidade mais aperfeiçoados do que qualquer concorrente. Além do computador, só tenho um iPod.

A Apple catalisou revoluções em várias indústrias: em primeiro lugar a das tecnologias da informação de uso doméstico, com o seu hardware elegante e o seu software intuitivo e fácil de usar; a da música, com a invenção do iPod que cristalizou o que era um movimento essencialmente ilegal, servido por má tecnologia e maus modelos de negócio; a dos jogos, transformando o casual playing num negócio mobile que gera biliões. Está agora em cima da mesa o mesmo tipo de revolução, complexo e de futuro incerto, para as indústrias da edição de livros e do audiovisual. A Apple está mais uma vez no olho deste furacão.

É verdade que hoje grande parte dos produtos da Apple se destinam ao consumo de entretenimento, mas continuo a acreditar que em parte do ADN da empresa continua a vontade de dar à criatividade das pessoas, ferramentas que lhes permitam expressar-se. Pelo menos aos tais 20% mais ricos. Acrescente-se que as plataformas de distribuição da Apple estão abertas a todos os que as quiserem usar para mostrar a sua criatividade. Sim, há muito hype, mas o princípio continua o mesmo: o utilizador é o conteúdo.

A Apple é o filho de Steve Jobs, é o resultado da sua curiosidade e imaginação sem limites, ele próprio o símbolo máximo de uma geração de inovadores nascidos na riqueza americana dos anos 50 e que lançaram e inspiraram a revolução digital em curso, a própria globalização que, por estes dias, revela o seu lado mais negro e terrível nos mercados financeiros completamente desmaterializados.

Quando não estava na Apple, Steve Jobs criou a Pixar, que até hoje não fez filmes maus, mesmo tendo feito uns melhores, outros menos bons. Mais uma vez, o crescimento e sucesso da Pixar provocou, entre outras coisas, um renascer global do mercado da animação. E se parte significativa da animação 3D que se faz hoje é aborrecida, disneyficada e visualmente uniforme, não acredito que formas de animação mais tradicional como a de Sylvain Chomet ou Nick Park tivessem tido a projecção que têm se a Pixar não tivesse aberto este mercado de maneira tão espectacular.

Sim, a morte de Steve Jobs perturba uma parte ínfima do mundo que temos, mas como com todos os ícones, tem um valor simbólico inegável. A influência das suas ideias, das suas invenções e criações está em todos os concorrentes da Apple. Acho sinceramente que a Microsoft, a Samsung, a HTC, a Sony e tantos outros lhe deviam prestar a homenagem que lhe devem.

Por mim agradeço-lhe este computador em que estou a fazer este post. Stay hungry, stay foolish.

Itunes U

A Apple consegue sempre, numa curva inesperada do caminho, surpreender-me. Agora é o iTunes U, que me parece sinceramente revolucionário em educação à distância.

Conferências, documentários, visitas guiadas, conteúdos educativos em geral, de universidades, museus, outras instituições culturais, um acervo notável em vídeo e audio, do que me apercebi, (quase) integralmente gratuito. E não são só americanos, a Europa está muito bem representada.

Não, de Portugal não encontrei nada... quem se chega à frente?

Agora vou ali ver uma conferência sobre Foucault e a Liberdade Sexual e já volto.