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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

In "Aquariofilia"

Nas trevas do coração de Joana, de João, reside inabalável a dúvida. Num momento ou noutro, uma certeza como um farol. Ali é a costa, ali vamos poder atracar e concluir a nossa viagem. É quase um zumbido, uma luz vem lá ao longe da noite deles, de todos, do que querem, o brilho do pirilampo no escuro, aos poucos mais nítido, como se nascesse da terra, um ruído mais forte e só se sente o vento e o efeito doppler, não dá mais, enquanto o som se afasta e a mota é só um pontinho vermelho e um clarão em frente, a desaparecer entre duas árvores, as grandes esperanças. Ali, por aquela hora, ninguém vivo, só os animais.

 

Do diário de Joana, escrito anteontem.

 

Eu não quero ficar em casa, passar as férias a comer gelados só porque mos oferecem em vez de ternura, não quero uma semana com o meu pai, outra com a minha mãe, não quero nada. Não quero a vida deles. Vem aí o verão, não protestes, faltam só quatro meses. Quero o aconchego do teu corpo. Não quero crescer, não quero ter medo. A nossa vida tem de ser bem mais do que conforto. Estou farta de estar confortável, estou farta da minha mãe e do meu pai, a acharem que podem corrigir alguma coisa, resolver alguma coisa. As coisas estão feitas, tudo está perdido, não quero trepar pelas paredes e dizer-lhes “não faz mal”. Já fez todo o mal. Quero mergulhar de frente no teu corpo debruçado sobre a mota. Gosto do brilho dos teus olhos quando riscas o ar, gosto do calor do teu sopro quando me beijas o ouvido, gosto do cheiro do teu pescoço quando não há mais nada a dizer. Tens um pescoço tão bonito, gosto tanto do sítio onde começam os teus cabelinhos, quase nada, quase só uma penugem. Gosto da maneira como ficas corado quando o vento te bate na cara. Nada a dizer, só sim, quero o que tu quiseres. Devia dizer-to mais vezes, mas leva-me. Não quero ter quarenta anos e ser como eles, quero aqui e agora e és tu quem me leva e é no teu corpo que eu não vou ter medo. Vamos já. Vai ser um dia glorioso! Tenho medo da solidão no teu olhar, de não ser eu quem te leva para onde queres ir. Para onde queres ir? Para onde vamos? Longe daqui, por favor. Já não sei o que escrevo. Já não sei o que pensar. Gosto de ir levada pelo teu vento, sinto as faíscas a zumbir nos meus ouvidos, agarro-me a ti com mais força e cortamos a estrada, as tuas mãos finas, os nós dos dedos brancos, sobre o guiador, puxas-me pelo pescoço e roubas-me um beijo quase com violência, quase com amor. Levanto a cabeça e o vento frio bate-me com mais força no pescoço, as estrelas passam muito devagar lá em cima, por entre as nuvens como lagoas, mares, oceanos, riem-se da nossa pressa, irrequietos, a correr desta maneira, a acelerar contra um muro que é o teu olhar. De vez em quando surpreende-me a firmeza do meu amor.

O vento viaja connosco, quero-te no fundo de mim, tenho-te só a ti, pouso a cabeça nas tuas costas, ouço o teu coração a bater, apressado, irrequieto, incerto, duvidas de tudo, vês só o brilho à tua frente, na estrada, uma curva larga a descer. A lua escapa-se por entre duas nuvens barrocas e brilha num halo de humidade, já vejo menos estrelas, as árvores fogem irregularmente do meu olhar, lembro-me das gémeas que me invejam, incapazes de compreender este desespero de procurar a tua boca para que não fuja, para que não digas nada, se calhar nunca o tiveram, só o ruído da língua a tocar no céu e depois nos dentes e abres os lábios num sorriso e eu já estou a abraçar-te, quero decifrar o medo no teu olhar. Às vezes é tão bom não saber o que vai acontecer amanhã. Como te quero. Hoje fugimos, fugimos. Antes que o inferno se abra.

João parece ouvir, parece sentir, lê os pensamentos beijados nas costas, segredados com as mãos, quer entender tudo, aquele é o momento, os gestos, os enigmas, os beijos, a voracidade que os subjuga, em cada gesto, em cada expirar involuntário de prazer. Nada o oprime, por um instante, sente-se amado, possuído, devorado, olha no fundo dos olhos grandes dela como naquela primeira vez, junto à água asséptica da piscina, quer senti-la de uma vez a penetrar a alma dele, todos os pequenos abismos.

Olha para trás. Não consegue virar-se o suficiente, desacelera um pouco. A mota desliza de lado, no limite do despiste, Joana solta-se, ele vira um pouco o tronco, olhos nos olhos, em desequilíbrio, sente a adrenalina do perigo, a luz por trás da cabeça dela, de repente parece-lhe um anjo, leva um anjo na mota. A luz cresce, ela sorri, João pergunta-se se ainda está vivo, é aquele o momento, está tão feliz que podia morrer. Joana é a única hipótese de salvação. Nunca será gay, nunca gostará do corpo de um homem, da intensidade diferente desse prazer, nunca mais terá dúvidas sobre nada, vai ser igual a toda a gente, vai sentir-se realizado, vai ter a mulher mais bonita do mundo, toda a felicidade, todo o futuro, está nele, naquele momento. Joana fecha os olhos e abraça-o com mais força. Agora somos um, em paz. Hoje fugimos. Agora é sempre.

Dia Mundial do Livro

 

Consta que hoje é dia do livro. Para mim é todos os dias, neste momento vai sendo dia da Patti Smith e do Chuck Palahniuk e do Don DeLillo. Mas seja como for é sempre bom dia para aproveitar e dizer que os meus são fáceis de encontrar AQUI. Sim, AQUI. Nas livrarias é mais complicado, mas de vez em quando lá estão eles nas estantes, espremidos a seguir ao Rodrigues dos Santos e ao Saramago, antes do Gonçalo M. Tavares. Mas hoje AQUI ainda por cima não se paga portes de envio, já viram que coisa maravilhosa? E ainda por cima pus aqui ao lado a fotografia de uma gaja boa a ler um livro. Pronto, não é só uma gaja boa, é a Marylin. E não é só um livro, é o "Ulysses" do Joyce. E já repararam como ela está quase no fim? Ah mulher! Se não estivesses morta, dizia-te para ires comprar os meus livros AQUI.

 

Noite Cerrada.

Noite cerrada.
Pela cidade branca mergulhada numa escuridão alaranjada, como marés, como cardumes, as pessoas movem-se, dentro de carros, a pé, alongam-se pela linha da costa, atravessam para a outra banda. Provavelmente nem sabem por que se mantêm acordadas, que paz vai reparar as horas de vigília. Os sítios onde costumam dormir ficam quietos no silêncio dos lençóis por amarrotar. Por ruas estreitas e avenidas largas derramam os seus desejos, aquilo que lhes faz falta. Ao longe há nuvens, ainda, como castelos, de onde os exércitos da chuva observam complacentes a alegria de sábado à noite, mais tarde vão ver-nos como formigas a fugir de um aguaceiro, como loucos a enfrentá-lo. A ânsia do prazer está em todo o lado, mesmo naquele avião a sobrevoar a cidade toda, nos olhares atentos dos seus passageiros, sentados na ponta dos assentos para melhor beberem a cidade e as suas luzes.
Na Kaverna se calhar há gente feliz. A pista da discoteca já abriu, o bar está cheio, as pessoas sorriem, tentam sentir-se bonitas, parecem não ter preocupações. Se as têm, resumem-se a um denominador comum, “como ser ainda mais feliz, como ter ainda mais prazer”. Talvez mais um copo, talvez o olhar fixo daquela mulher ali ao fundo, do homem encostado ao balcão, as pernas da empregada, a música. Se calhar a alegria que destilam é apenas uma nuvem temporária, vai pairar e desfazer-se em breve como fumo de cigarro sobre as suas vidas, vidas com pés assentes na tristeza, infinita, movediça. Mas pode ser que alguma lhes reste agarrada à roupa, quando forem para casa. Pode ser que não se deitem sozinhas e o calor de outro lhes chegue, por entre o amarrotar dos lençóis.

 

in "Aquariofilia"

Watchmen.

Foi nos idos dos anos 90 que o dr Bakali (A.K.A. António Saraiva) me apresentou a banda desenhada de Alan Moore e Dave Gibbons. "O Watchmen", dizia-me ele e ainda me lembro,"não é uma banda desenhada normal, exige tempo como um romance". Li a edição que me emprestou e se bem me lembro fiquei com ela para a oferecer a alguém. Depois disso voltei a comprá-la umas duas ou três vezes e a oferecê-la o mesmo número de vezes. Neste momento possuo a edição Absolute, mais pesada e difícil de oferecer.

Citei o Watchmen no meu primeiro romance, "Aquariofilia". Era qualquer coisa deste género: "No final do sexto capítulo de Watchmen de Alan Moore e David Gibbons, o dr. Malcom Long, psicanalista, apercebe-se finalmente dos horrores profundos da mente do seu criminoso paciente, o tresloucado super-herói Walter Kovacks, também conhecido como Rorschach, por usar uma máscara com um padrão semelhante às famosas manchas. “Mal”, como lhe chama a mulher, senta-se na cama do casal e olha para um cartão com uma mancha de Rorschach. Tenta imaginar uma árvore de copa larga, as sombras espalhando-se por baixo dela, mas só consegue ver um gato morto que encontrou uma vez, mas mesmo isso é evitar o verdadeiro horror: é uma imagem do vazio negro, do nada, estamos sós, não há mais nada. O capítulo acaba com uma citação de Nietzsche: “Não combatas contra monstros, podes tornar-te um, e se olhares para o abismo, o abismo olha de volta para ti”.

Esta cena não consta do filme de Zack Snyder, como muitas outras, mas isso é irrelevante. Como em qualquer adaptação bem feita, do filme consta o espírito e o ambiente visual da banda desenhada, o tom do original (já acontecia em 300). Sim, desconto-lhe algum kitsch e o final mudado.

Como era já na sua versão em papel, o Watchmen em filme é o triunfo de um género em cinema, com um grau de audácia e complexidade que só pode merecer o meu aplauso.

De onde vem um título?

Até agora, apenas duas pessoas me perguntaram, em jeito de confirmação, de onde vinha o título de "Em Silêncio, Amor". Diga-se que mais algumas não perguntaram por eu ter explicado.

Um ponto prévio.

Na versão cinematográfica de "High Fidelity" de Nick Hornby, Rob questiona-se:

What came first, the music or the misery? People worry about kids playing with guns or watching violent videos, like some kind of culture of violence will take them over. Nobody worries about kids listening to thousands, literally thousands of songs about heartbreak, rejection, pain, misery and loss.

Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?

Isto para dizer que sempre achei incrível como a canção de Paulo de Carvalho, "E Depois do Adeus" conseguia ter aquele tom épico e festivaleiro, sendo sobre uma despedida, uma separação. É a magia da pop, é verdade, mas o meu momento favorito dessa música continua a ser aquele em que, em mudança de tom, a voz diz "em silêncio, amor".

É claro que toda a letra da música e o facto simples de ter sido uma das senhas do 25 de Abril de 1974 me encantavam também.

A isto acrescente-se que, como muito bem disse em tempos o José Duarte, a versão jazz do Carlos Martins para este standard, traz-nos uma sensação de reconhecimento do familiar a uma nova luz que é provavelmente o que os americanos ouvem há anos, a cada cover do seu imenso songbook.

Quanto a "Os Adultos", é preciso dizer que teve um título alternativo durante muito tempo que era "Para Adultos", mas acho que teria de ser um romance diferente para ter esse título. "Os Adultos" acabou por ser o título ideal para a incomunicação, encontros e desencontros entre as várias personagens e idades presentes no livro.

Quanto a "Aquariofilia", apesar das dúvidas da editora, nunca teve na minha cabeça um título diferente, nem nunca pôde ter. A natureza equívoca do título, a sua sonoridade familiar e deslocada, a claustrofobia que acaba por invocar no contexto da história, tudo era ideal.

O que muda numa biografia.

Dizia na badana do "Aquariofilia": “Luís Soares nasceu em 1972 em Lisboa, o lugar onde ainda lhe apetece viver. Sempre trabalhou na área de comunicação e media, criando, produzindo, coordenando, gerindo, dando aulas. Gosta furiosamente de pessoas, de olhar, ouvir, livros, música, filmes, boas histórias e sentir--se vivo. Aquariofilia é o seu primeiro romance, mas escreve desde que se lembra de ter uma caneta ou um teclado na mão.”

Diz na badana de "Em Silêncio, Amor": "Luís Soares nasceu em Lisboa, algures nos anos 70. Sempre viveu nesta cidade, embora prefira considerar-se vagabundo, na imaginação e nos passos. Não é por isso que a trai. Escreve desde que se lembra, com lápis, canetas, em cadernos, blocos, guardanapos, nos computadores que lhe aparecem à frente e, quando não há mais nada, toma notas no telemóvel. Trabalha em Internet há doze anos, dá aulas e passa música de vez em quando, mas procura não se levar muito a sério."

Fui eu que escrevi este texto, em ambos os casos, mas achei curioso, quando o li mais tarde, "as coisas de que gosto" terem sido as que desaparecerem. Talvez tenha menos certezas hoje sobre aquilo de que realmente gosto. Talvez prefira afirmar-me menos seguro sobre aquilo que me move, mas talvez isso não seja uma coisa má.

Aquariofilia

Aquariofilia” é a minha primeira obra, publicada pela Oficina do Livro em 2003. É hoje praticamente impossível encontrá-la à venda. A melhor hipótese é tentar comprar online no site wook.pt.

Pode também descobrir-se mais sobre este livro em outros posts neste blog, avançando para o fim deste, clicando na tag aquariofilia.

 

Que livro é este?

Teve um parto demorado, sobrevivendo à tentação enciclopédica e à pulsão autobiográfica, para tomar forma como uma história sobre a liberdade e as suas (im)possibilidades.

É um livro sobre pessoas submersas numa cidade, atiradas de um lado para o outro pelas marés da sua vida, embaladas pela música que as rodeia como água, em busca de respostas e da coragem para as enfrentar.

Quando tudo parece perdido, talvez o acaso as possa salvar, talvez apenas a sua liberdade o faça. Ou será do Diabo, sempre, a última gargalhada? José, João, Joana, Carolina. A noite. Um morto. Ontem, hoje e amanhã. O que os liga? Em que momento decidiram o que ia ser a sua vida? Poderão alguma vez ser outros? Quanto do seu passado os prende ao que são? Como peixes num aquário, estão sempre condenados a navegar em volta de si, dos seus medos, dos seus desejos. Ou não?

É uma história sobre quanto da nossa vida está nas nossas mãos, submetido ao nosso controlo, e quanto nos escapa. Podemos ficar onde estamos, olhando o que nos rodeia. Podemos tentar construir o nosso mundo fechado e perfeito, sem passado nem futuro, apenas um instante eterno de prazer. Podemos fugir para a frente, mesmo que o passo seguinte represente o abismo. Ou podemos apenas, como em Lisboa, navegar e não conduzir, perceber as correntes e os ventos que nos embalam ou sacodem. Aí talvez e apenas talvez, deixemos o aquário.

É também o retrato fragmentado de uma Lisboa de claro e escuro, dia e noite, da marginalidade mais miserável e do céu mais incrivelmente azul.

 


Como nasceu?
Aquariofilia teve dez anos ou mais de rascunhos, a maior parte dos quais não resistiu ao tempo, fosse em papéis perdidos em mudanças de casa e de vida, fosse em bytes desaparecidos em backups por fazer.

Tal como as marés de Lisboa, Aquariofilia nasce do cruzamento de várias histórias que habitavam a minha cabeça há anos já, desde os tempos de faculdade.

A primeira a nascer foi a aventura de João e Joana que desde logo, nessa sua primeira forma, assumiu o nome de "O Som do Mar".

A possibilidade da liberdade, a minha própria experiência do que é escolher um rumo profissional, terminado o curso, a minha interrogação sobre os momentos em que tomamos decisões, na passagem da adolescência para a idade adulta, tudo são temas que foram urdindo uma teia, um enredo.

Os lugares são aqueles que via da janela do meu carro todos os dias ou quase, o mundo da música e da noite, alguns dos meus universos pessoais. Quis contrapor-lhes um subtexto mais sórdido, a prostituição no Parque, a perversão dos ricos, a criminalidade.

A minha esperança sempre foi que essa tensão entre uma vida visível e uma pulsão interior auto-destruidora pudesse ser percebida nas personagens, naquilo que as condiciona, entre a tristeza infinita de um aquário e liberdade possível do som do mar.

O momento mais emocionante da escrita foi aquele em que percebi que as personagens principais começavam a viver por si e os rumos que tomavam eram resultado das suas próprias escolhas, ou dos lugares para onde a maré de acontecimentos as levava.

Com uma escrita menos pensada que em “Os Adultos”, mais urdida na colagem de momentos e experiências, mais arrancada a ferros da emoção, teve contudo pontos de resumo, de organização do caos criativo.

 

As Personagens Principais

 

José

“Chamo-me José, José Lima, sou viciado em música e fiz trinta anos há uma semana. É dos nomes mais versáteis que conheço. Tanto assume a forma curta, simples, vulgar quase de Zé, como tem ressonâncias bíblicas ou aristocráticas. É o nome de um carpinteiro, mas é o nome do carpinteiro que foi pai de Jesus e do rei cuja estátua adorna a minha praça favorita de Lisboa. Houve uma altura em que no meu círculo de amigos havia pelo menos mais dois Zés. É um nome vulgar, por isso o meu nome como DJ é John Doe. Pareceu-me apropriado, sou um Zé Ninguém, afinal, não num sentido pejorativo, mas gosto do anonimato.”

João

“Acha-o lindo. Desde o dia em que se cruzaram pela primeira vez na piscina que o acha lindo. “Também tenho de ir para a natação! Arranjas cada gajo!” diria Beatriz quando o conheceu. Tem a pele morena, mas não é aquele moreno que fica meio amarelado no inverno e disparatadamente escuro no verão, é uma cor confortável, que lhe realça os olhos e os cabelos quase pretos. Os lábios são bem definidos, carnudos os suficiente para os dela se sentirem em casa, mas não demais. Quando ele fala, é para os lábios que ela costuma olhar, tentando entrever os dentes muito ligeiramente desalinhados, o sabor da língua. E olha para os lábios porque se o olhar nos olhos é pior. Os olhos de João são muito escuros, quase não se percebe que são castanhos, parecem pretos, de um preto fundo como um poço e de cada vez que Joana olha lá para dentro perde-se, perde-se como nunca se perdeu com Rogério, deixa de ouvir, deixa de pensar e vai por ali abaixo. Os cabelos muito curtos dão-lhe um ar de puto, mesmo quando lhes põe gel e tenta parecer mais estiloso. Mantém-os curtos porque se os deixar crescer vão ser um mar de caracóis minúsculos e incontroláveis.”

Joana

“Joana é uma rapariga bonita, diz sempre quem a conhece, João poucas vezes, apesar de o achar, claro. Tem ainda a face intocada de uma jovem adolescente, a pele clara, lisa, a cara branca, cora com facilidade, ali ao frio, o cabelo castanho em canudos, espalhado em desordem na areia, com uns tons arruivados, o corpo elegante, mas forte, de nadadora, escondido entre camisolas e calças de flanela, enrolado em posição fetal a defender-se do frio e da areia húmida, dormindo, aparentemente dormindo, serena.”

Carolina

“No filme “Um Chá no Deserto”, de Bernardo Bertolucci (“The Sheltering Sky” no original, a partir do romance de Paul Bowles), quando Port, a personagem de John Malkovich, morre, Kit, interpretada por Debra Winger, deixa-se cair na mais profunda tristeza, deixa-se levar por um qualquer árabe que faz dela sua mulher, mais uma. Carolina acha-se responsável demais, acha que vezes demais caiu sobre os ombros dela o peso da decisão, preferia a leveza da irresponsabilidade. De repente acha que cada palavra que escreve é só uma opção, uma em vez de outras e a maior parte das vezes não consegue justificar a escolha. De repente preferia ser Kit, levada por um árabe misterioso. Ou Katherine Clifton em “O Paciente Inglês”, abandonada na caverna dos nadadores para morrer, apetece-lhe ser uma mulher desligada do mundo, preparada para ficar, para sempre.”

 

Os Lugares da Acção

 

Lisboa

“Ninguém conduz em Lisboa. Em Lisboa navega-se em ritmos incertos nas marés e correntes do trânsito, como se a cidade e os seus carros fossem apenas uma extensão natural do estuário, água do rio escorrendo para cima, água do mar invadindo as praças, cobrindo as colinas como trepadeiras. Serpenteia-se, mergulha-se no limite da gravidade, como um peixe voador, acelera-se inesperadamente e trava-se no limite, para evitar um carro subitamente subestacionado ou conseguir fazer uma curva apertada depois de um semáforo a mudar para vermelho.

Adivinha-se a agitação da cidade, vista de longe, vista do Tejo, vista do ar, uma densidade de ritmo indeciso, casas a cobrir tudo como uma manta de retalhos desordenados. A semana passada ainda, aquele susto de sempre de ir a conduzir na segunda circular e ver passar por cima de mim um avião, enorme, a sua barriga metálica quase a tocar o chão, o som a submergir todos os outros.”

 

Praceta

“Lugares sem a dignidade de praças ou a intimidade de pátios, pracetas, onde dominam os carros e as pessoas que a eles sempre se habituaram. Se calhar é tudo uma ilusão, e é só o primeiro dos subúrbios e não o último dos bairros da cidade. Nesse sentido é igual ao lugar onde ele mora, se calhar com as desvantagens em termos de identidade que estar na fronteira sempre trás.”

(…)

“Os prédios parecem mais bonitos, as árvores ainda nuas, são como grandes navios ali encalhados, paralelos uns aos outros, contemplando com as suas enormes quilhas de janelas o lado para onde o sol nasce. Temo que se comecem a mover a qualquer momento. Alguém devia avisá-los que o rio e o mar ficam para o outro lado.”

 

Parque

“O Parque parece-lhe um cenário de cinema, um lugar irreal, deviam ser só aqueles edifícios solenes, as árvores, o mar de carros estacionados, mas revela-se em camadas sobrepostas de recordações desagradáveis, de caras que passaram depressa demais, homens sem nome, não chegaram a ter mais do que um corpo fugaz sem forma, foram poucos, quatro, cinco, não mais, as memórias são uma espécie de nuvem, ontem à noite, ressaca.”

(…)

“Ao Parque Eduardo VII chega Bruno, tem fome, o almoço escasso já foi há horas demais. Hoje nem foi muito mau, dormiu em casa, lavou-se, a mãe deu-lhe um beijo na testa, o pai não acordou o tempo todo, os irmãos não deram sinal de vida. “Era tão fácil” pensa Bruno “se fosse só eu e ela. Aí eu podia dormir em casa todos os dias. Aí ela ia fazer-me o jantar e eu ia ser feliz”. O dia esteve estranho, é capaz de chover, escolhe uma entrada de uma porta grande, uma porta salazarenta de onde sai uma senhora de casaco de peles. A senhora pára, olha para trás, dá-lhe uma moeda e vai-se embora para o seu carro. Bruno cospe no chão, no sítio onde os sapatos dela pisaram. Encosta-se e espera.”

 

Noite

“Noite cerrada.

Pela cidade branca mergulhada numa escuridão alaranjada, como marés, como cardumes, as pessoas movem-se, dentro de carros, a pé, alongam-se pela linha da costa, atravessam para a outra banda. Provavelmente nem sabem por que se mantêm acordadas, que paz vai reparar as horas de vigília. Os sítios onde costumam dormir ficam quietos no silêncio dos lençóis por amarrotar. Por ruas estreitas e avenidas largas derramam os seus desejos, aquilo que lhes faz falta. Ao longe há nuvens, ainda, como castelos, de onde os exércitos da chuva observam complacentes a alegria de sábado à noite, mais tarde vão ver-nos como formigas a fugir de um aguaceiro, como loucos a enfrentá-lo. A ânsia do prazer está em todo o lado, mesmo naquele avião a sobrevoar a cidade toda, nos olhares atentos dos seus passageiros, sentados na ponta dos assentos para melhor beberem a cidade e as suas luzes.”

 

Kaverna

“A Kaverna fica na esquina da Rua do Diário de Notícias com a Travessa dos Fiéis de Deus. Quando ainda era consultor e durante o dia usava fato e gravata, passava sempre por aquela esquina, olhava para as janelas partidas, para o néon vertical apagado, para os três andares a prolongar-se pelo quarteirão a dentro, as paredes a escamar de velhas, e pensava em como aquele sítio podia renascer, como alguém podia pegar naquele bocadinho de Bairro Alto e devolver-lhe a vida. Não seria o primeiro lugar ali onde isso aconteceria. Nessa altura era só um sonho, hoje, em certas alturas ainda me espanta como o consegui tornar realidade. Estou na cabina do DJ, olho em volta, vejo as pessoas, o seu prazer, e sorrio infantilmente e penso “consegui, consegui mesmo”.”

 

Cabo Espichel

“Olhando muito para longe, as ondas começam a formar-se por altura dos reflexos do nascer do sol, grandes curvas na irrequietude lisa e longínqua daquele mar, como se fosse uma cortina estendida pela brisa. Lá em baixo, no fundo do precipício, quando os pés tocam o ar, já tudo é só a impetuosa espuma branca no olhar esquecido das sombras escarpadas. Aguçando a distância do ouvido, esquece-se a pureza daquele silêncio, nem sequer feito de vento, ainda nem um passo de homem, só muito além os gritos das gaivotas e, quando passou outro minuto, o rumorejar daquela outra onda girando desfeita no ar, como se trespassada, caindo em espuma na solidez da rocha. Lado a lado, como gigantes na paisagem, a igreja e o albergue dos peregrinos na sua pose se esfinge, o farol atento perscrutando o horizonte. É o guardador deste silêncio, das pedras brancas que tolhem o caminhar na imensidão do precipício. O mistério do amanhecer é só aquele edifício alto contra o céu a anunciar o dia, o outro nas suas sombras longas sobre os milhares de passos já ali caminhados, em nome de fés, de vontades, de desejos. Por que peregrinam os peregrinos?”

 

Aeroporto

“É da natureza dos aeroportos, uma pessoa ficar três horas sentada, parada no mesmo sítio, e ninguém vir perguntar o que se passa. Estar a ler ajuda as outras pessoas a ignorar-nos.”

(…)

“Não conhecia este aeroporto, não conhecia esta sala de trânsito, pequena para tantos passageiros, com o seu quadro antiquado de letras e números giratórios e mais longe os seus monitores de brilho verde e preto. Os seus olhos não piscam quando as máquinas fotográficas dos japoneses disparam, à espera do seu voo para Tóquio via Banguecoque.”