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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Voi avete un cor fedele

In 1775 Mozart received a commission to write the substitution aria “Voi avete un cor fedele,” K. 217, for an unknown soprano in an Italian comic opera troupe passing through Salzburg. The aria, which was inserted into Baldassare Galuppi’s comic opera Le nozze di Dorina, was undoubtedly better suited to the unknown soprano’s voice than the original one. In this aria we see an early manifestation of the opera buffa style years before Mozart composed his Italian comic opera masterpieces - Le nozze di Figaro, Don Giovanni and Così fan tutte. Cecilia Bartoli sings.

A Missão de Bartoli

Esta semana escrevi para o SAPO Música sobre o novo disco de Cecilia Bartoli. Foi isto:

 

Desde os tempos dos três tenores (Carreras, Domingo e Pavarotti) e acompanhando a globalização mediática do resto da cultura e entretenimento, a música dita erudita ou clássica tornou-se, em alguns casos, um fenómeno de massas, capaz de atrair novos públicos, entrar por concursos de talentos (?) a dentro e dar à luz aberrações como os Il Divo.

Nesta industrialização popularizante, alguns verdadeiros talentos musicais têm ganho protagonismo e relevância planetária, levando música mais antiga a ouvidos mais recentes. Cecilia Bartoli é um dos casos de maior sucesso nesta indústria global pop-clássica-erudita. "Cecilia quem?", pergunta-se o ouvido habituado a Gaga, Bieber, Psy e outros que tais. Não era de pop que estavam a falar? Cecilia Bartoli, vende milhões de CDs, vencedora de grammys, com quase 90 mil fãs no facebook.

Deixemo-nos de introduções e provocações. "Mission", o mais recente projeto da mezzo soprano italiana, é a sua primeira incursão no barroco inicial e mais um passo seguro numa carreira brilhante, preocupada em revelar nova música e o seu contexto histórico sem deixar de lado a qualidade da interpretação e a excelência de todos os envolvidos, voz e instrumentos.

 

 

"Mission" é integralmente preenchido com obras do compositor italiano Agostino Steffani (1654–1728), praticamente desconhecido até agora: árias, duetos, interlúdios instrumentais e coros. Quase todas as faixas são primeiras gravações a nível mundial. Bartoli é acompanhada pela orquestra suíça “I Barocchisti”, dirigida por Diego Fasolis. Relevantes são também os quatro duetos com outra estrela da música barroca, o contratenor Philippe Jaroussky.

Steffani é uma figura interessante da história europeia, padre, agente diplomático, bispo até a certa altura, espião talvez, compositor admirado certamente, numa época de disputas políticas religiosas e de cruzamento musical entre os estilos italiano, francês e alemão que dominavam o nascimento do grande barroco, ainda antes de Vivaldi, Handel e Bach. Bartoli professa o seu interesse na figura, que defende como génio musical esquecido, elo em falta na história da música europeia, e como em projetos anteriores, empenha-se na sua revelação.

Sim, o esforço de promoção à volta do lançamento é notável e devolve-me às palavras do início sobre estratégias pop na música erudita. Houve concertos com fogo-de-artifício, edições normais, especiais, em DVD, um romance histórico (da amiga Donna Leon), trailers, webisódios e está na estrada uma digressão. Bartoli entrega-se a tudo isto com dedicação e sentido de humor. Basta ver as fotografias promocionais.

Mais notável e relevante que tudo isto, é a música. E esse é o grande trunfo de Cecilia Bartoli e de "Mission", música brilhante, brilhantemente interpretada, efervescente, dançante, sonhadora, envolvendo-nos em cada momento no virtuosismo da voz e da orquestra que a acompanha. Deixem-se de coisas e vão ouvir, este era o rock e o jazz da Europa de então e a energia e inventividade seduzem qualquer um que seja um pouco menos duro de ouvido.

La Bartoli ritorna.

Há no YouTube dezenas de vídeos a propósito do lançamento do novo álbum de Cecilia Bartoli, Mission, incluindo uma série de webisódios, trailers, entrevistas, tudo oficial, via Decca e Universal, mas também uma entrevista na ARD e, claro, já faixas carregadas por fãs e até uma filmagem do fogo de artifício que acompanhou o concerto em no castelo Schleißheim em Munique.

Por cá também a imprensa já lhe deu o devido destaque. A web... menos. A televisão? Nem dei por ela. Mais que tudo, vale a pena ouvir a música. Fica um aperitivo (oficial) aqui abaixo, aparentemente um exclusivo Amazon. Sic transit gloria mundi.