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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

London Is Changing (and Lisbon).

Londres é uma das minhas cidades favoritas e está neste momento numa encruzilhada que lhe parece desenhar um caminho de futuro específico. Já falei sobre este assunto aqui e aqui, depois de ler o último romance do William Gibson.

A encruzilhada neste momento é entre a realidade, o futuro dessa realidade, a representação ficcional dos eventuais caminhos de futuro e o trabalho de ativistas e jornalistas sobre tudo isto. Não tenho a certeza que a realidade seja o que vem primeiro embora, provavelmente, sim. Talvez a imaginação ficcionada sobre a realidade seja um rastilho. Talvez a experiência real das pessoas seja o mais relevante. Mas a verdade é que tudo está a acontecer ao mesmo tempo.

Só mais umas achegas.

este artigo do The Guardian com este título fantástico: "The city that privatised itself to death: 'London is now a set of improbable sex toys poking gormlessly into the air'" e também um olhar sobre as questões levantadas pela privatização dos espaços públicos. A Londres futurista de Gibson está precisamente pontuada por shards, fortalezas de oligarcas e parques temáticos.

Há também este artigo da AdWeek sobre a campanha 'London Is Changing' que pede contributos sobre casos específicos em que a cidade está a mudar e os transforma em billboards, eles próprios excelentes ícones de uma cidade inteiramente comercializada. Um exemplo abaixo.

É um assunto que nunca mais acaba, claro, e Londres não é a única vítima. A dinâmica da 'gentrificação' de Nova Iorque é assunto antigo, para citar o exemplo mais conhecido. Aí, como em Londres, outro problema ainda se levanta. Afinal, quem raio é que é dono da cidade? De quem são todos aqueles apartamentos caríssimos e vazios?

Lisboa não está livre destes perigos variados que vão esvaziando a alma das cidades. Só nesta última semana, duas notícias que nos devem deixar alerta: a questão da concessão de espaços em Monsanto a privados e a notícia de que proximamente será inaugurada uma Pousada de Lisboa no Terreiro do Paço. O local é fantástico e o resultado deverá sê-lo também, contribuindo para mais turismo de qualidade no centro da cidade. Mas não pode ser a única maneira de fazer viver esse centro...

 

10:04

Mesmo no final do ano passado, li um dos meus livros favoritos do ano, '10:04', de Ben Lerner. Tão favorito que uma das poucas mensagens de ano novo que enviei estava ligado ao nome do livro. 10:04 PM é a hora em que um raio atinge a torre do relógio, no filme 'Regresso ao Futuro', momento essencial para permitir a Marty McFly... regressar ao futuro. Já agora, a mensagem era "Que um raio de 1,2 gigawatts alimente o vosso flux capacitor às 10:04 do dia que vos der mais jeito. E bom futuro!"

Nunca me apetece falar muito sobre livros, só de vez em quando, e nem sei se o livro vai ser traduzido. O anterior, 'Leaving the Atocha Station' não foi, que eu saiba. Note-se que por alturas da passagem de ano, andei pela estação de Atocha. Isto anda tudo ligado. Seja como for, gosto da maneira como o texto cruza ficção e autobiografia, histórias dentro da história, narradores narrando outros narradores, Nova Iorque e a nossa difícil relação com o tempo.

Quando escolhi comprá-lo e lê-lo, contudo, não foi por nada disto mas, em primeiro lugar, pela magnífica capa. Tenho, por vez, o mau (?) hábito de julgar um livro pela capa. Mas sim, leio a sinopse antes. Esta capa em particular está assente sobre uma fotografia aérea de Iwan Baan, invertida da esquerda para a direita, de Nova Iorque por alturas do furacão Sandy, quando parte da baixa estava submersa em escuridão. É esta abaixo.

Andava para fazer este post há algum tempo mas decidi-me hoje porque vi entretanto um outro conjunto de fotografias que anda a circular, as que Vincent Laforet fez por cima da mesma cidade a 7.500 pés de altitude. Podem vê-las todas aqui, assim como um pequeno vídeo sobre a sua produção. São, de facto, extraordinárias, no seu horizonte de escuridão, cortado pela luz da tecnologia e da humanidade. E a ideia original de as fazer surgiu de um olhar sobre essa rede como se fossem sinapses a disparar no cérebro. Uma espécie de ciberespaço.

Alguns exemplos abaixo.

William Gibson's London.

Não me canso do William Gibson porque ele diz em entrevistas, coisas destas:

We can attempt to legislate technology after the fact, but it keeps on coming. Its nature is to be completely out of control. Nobody legislates technology into being. They don’t legislate the birth of the Internet or cellphones or anything. They’re called forth into the market, and the people who call them forth often have absolutely no idea how these things they've thought of will most change society. It’s impossible to tell until people have the things, and they’re using them.

Mas o motivo mais imediato para este post é uma polémica londrina. No seu último romance, 'The Peripheral', parte importante da ação situa-se numa Londres futura (mais ou menos um século no futuro) pontuada por shards, nostalgia do passado, tecnologia fora de controlo e uma classe de super ricos.

O que está a acontecer em Londres, por estes dias, aponta com certeza para este caminho. Um anúncio da Redrow London, promotor imobiliário gerou a polémica. Os autores do anúncio achavam, cito a partir deste artigo do The Guardian:

“We tried to do something a bit new and different from the typical property videos out there, but we accept that maybe we didn’t get it quite right with this one!”

O anúncio é este:

Rapidamente a Internet, nomeadamente por via do Twitter, pegou na coisa e revelou-lhe a alma. Também li o 'Kingdom Come', último romance do J.G. Ballard, o ano passado e lembrei-me dele, claro, mas nada como a versão abaixo, que pega nas imagens do anúncio da Redrow e lhes sobrepõe falas de Patrick Bateman, o psicopata ficcional de Brett Easton Ellis.

É como aquelas versões de músicas que revelam a verdade que a música original parecia não ter conseguido.

Reinier Gerritsen - The Last Book

Author and technologist Nicholas Negroponte has declared that printed books are in danger of disappearing; according to his predictions, the last printed book will appear sometime in the spring of 2016. This copy might well make its appearance tucked away in a backpack and taken aboard a subway to read. This is the premise of "The Last Book," the latest body of work by Amsterdam-based photographer Reinier Gerritsen. Gerritsen has taken up the current plethora of books and their readers on New York City's subways as the proverbial canary-in-the-coal-mine, an indicator of the still robust nature of public readership, in the face of its ostensible decline.

The work began for Gerritsen as a series of modest observations, and has turned into a series of unexpected, documentary portraits, set against a visual landscape of bestsellers, classics, romance novels, detective thrillers, Bibles, biographies and other printed books. Gerritsen depicts groups of individuals engrossed in the worlds they hold in their hands. From the subtle interactions of passengers and facial expressions to the sociological clues of book titles, a complexly layered narrative is informed by the choices of readers and the melange of New York City's subway riders as they are transported both literally and figuratively, by the books in their hands.

"The Last Book" also includes an illustrated index and bibliography charting the titles and authors that populate our minds during our daily commutes.

Isto anda tudo ligado.

Na China abrem catorze novas salas de cinema por dia, em Lisboa fecham algumas das que fazem parte da minha história (também abrem outras, é verdade, e algumas prometem) e o Londres vai ser, ironia interessante, uma loja "de chineses". Os "chineses" estão entre aspas por vários motivos, primeiro porque as lojas de produtos baratos não são exclusivas de nenhum povo, depois porque na China há cada vez mais milionários que, se vierem a Lisboa, preferem a Avenida da Liberdade. Mais uma ironia: esta avenida, com este nome, tem cada vez mais lojas a que podem aceder poucos portugueses.

É a vida. Num quarteirão da baixa onde havia pequeno comércio e a Adega dos Lombinhos, parece que vai existir um Hilton. Alterou-se a lei das rendas e não me lembro de uma Lisboa tão frenética no seu abre e fecha. A crise ajuda, claro.

Em Londres, há arranha-céus no centro histórico e atropelam-se uns aos outros. Em Nova Iorque, destrói-se e constrói-se sem parar e ter um mayor milionário não deve ter ajudado. Cidades dinâmicas são assim. Ou não são? Como em tudo, espera-se que haja algum equilíbrio, uma visão sobre o que queremos preservar (e preservar não é deixar como está até cair de podre), qual é a alma que queremos para o lugar onde vivemos. Eu vivo em Telheiras que tem alma de subúrbio mas uso Lisboa toda para trabalhar, divertir-me, passear e preocupam-me estas coisas.

Arquitetura também é cultura, o urbanismo dá forma aos lugares que habitamos. Portugal não tem movimentos cívicos com peso e dimensão suficiente que consigam intervir nestas coisas e mesmo as pessoas que se preocupam (como eu), raramente passam da indignação de café, de facebook ou de post (este). A não ser que morra o Eusébio. Adiante. De cultura, no nosso país, estamos conversados.

Mas o património, senhores! A pedra construída, a obra de arte no museu. Mesmo que a arte contemporânea vos pareça bizarra e desnecessária, certamente quererão preservar a história, não? Não, deixem lá isso, a memória é uma coisa perigosa para quem nos prefere em democracia pop. O tempo longo dá trabalho e nunca se sabe bem onde vai dar. O tempo curto anda em círculos e vai sempre parar aos mesmo sítios, como um cão que persegue a sua cauda. E esses sítios são de preferência ecrãs.

Ecrãs! Chegamos finalmente aos ecrãs e, de vez em quando, até acontecem coisas interessantes nos ecrãs, até na nossa obscena televisão. Uma das coisas que anda a acontecer chama-se "Nada Tenho de Meu" e é uma série de Miguel Gonçalves Mendes, o realizador de "José e Pilar". Eu sei que são pessoas preguiçosas (ou talvez não - se chegaram até aqui neste post, mereciam um chocolate, pelo menos) e carregar no botão 2 do vosso comando é coisa de muito esforço. Mas já que estão na Internet, podem ir ver aqui os três primeiros episódios. Também estão no MEO Kanal, botão verde e 800009. E também há em tecnologias mais primitivas, livros e rodelas de plástico e essas coisas.

A série, ainda por cima, fecha este post em círculo para não sairmos do mesmo lugar, visto que anda pelo extremo oriente, essa terra de chineses, naquele estilo de vídeo impressionista e poético de que muito gosto no Miguel, sem deixar de ir ao fundo, de nos fazer pensar. É um documentário ficcionado ou uma ficção documental até porque ali, mais do que em qualquer outro lugar, a realidade parece que já não existe. E é um diário de viagem, esse sub-género que nos deixa sempre a sonhar com sair daqui.

E pronto, era isto.

Sempre as cidades.

Desde a primeira vez que fui a Londres, talvez com uns doze anos, não me lembro bem, até à mais recente, há menos de um mês, sempre senti a tensão naturalmente resultante de tanta gente concentrada no espaço e no tempo. Dessa primeira vez, lembro-me de sair de um autocarro entre Regent St e Piccadilly Circus e achar que tinha aterrado da aldeia que era (e ainda é?) Lisboa no meio de um planeta estranho sempre no limite de um qualquer apocalipse humano. Claro que na altura era só uma impressão, não tinha estas palavras todas para o dizer.

Não sei se alguma vez conseguiria viver numa metrópole assim e não sei se piorou com o passar do tempo. Às vezes acho que sim, outras parece-me que não. A fotografia ao lado é da Quinta Avenida em Nova Iorque. A data é 1950 e o autor Andreas Feininger. Talvez uma das marcas do século XX seja a explosão de cidades assim. E outras que estas, no começo desse terrível século, já iam bem encaminhadas. Gente mais douta sobre tal assunto poderá responder. 

Nas listas das melhores cidades para viver, Londres ou Nova Iorque nunca aparecem. Não têm 'qualidade de vida', diz-se. Preferem-se cidades nórdicas ou suíças, coisas menos caóticas e mais civilizadas. Eu acho que têm, mas é outra vida, é outra qualidade. E talvez conduza os seus habitantes a males precoces mas a vibração desses centros do mundo é, na minha imaginação e experiência, imbatível.

E para acabar, um belo vídeo das luzes de Los Angeles, a cidade de Blade Runner. Só faltam cinco anos e qualquer coisa.

 

City Lights from Colin Rich on Vimeo.