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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Elizabeth Bishop - Little Exercise

                                         for Thomas Edwards Wanning

 

Think of the storm roaming the sky uneasily

like a dog looking for a place to sleep in,

listen to it growling.

 

Think how they must look now, the mangrove keys

lying out there unresponsive to the lightning

in dark, coarse-fibred families,

 

where occasionally a heron may undo his head,

shake up his feathers, make an uncertain comment

when the surrounding water shines.

 

Think of the boulevard and the little palm trees

all stuck in rows, suddenly revealed

as fistfuls of limp fish-skeletons.

 

It is raining there. The boulevard

and its broken sidewalks with weeds in every crack

are relieved to be wet, the sea to be freshened.

 

Now the storm goes away again in a series

of small, badly lit battle-scenes,

each in "Another part of the field."

 

Think of someone sleeping in the bottom of a row-boat

tied to a mangrove root or the pile of a bridge;

think of him as uninjured, barely disturbed.

Elizabeth Bishop - Breakfast Song

My love, my saving grace,
your eyes are awfully blue.
I kiss your funny face,
your coffee-flavored mouth.
Last night I slept with you.
Today I love you so
how can I bear to go
(as soon I must, I know)
to bed with ugly death
in that cold, filthy place,
to sleep there without you,
without the easy breath
and nightlong, limblong warmth
I've grown accustomed to?
—Nobody wants to die;
tell me it is a lie!
But no, I know it's true.
It's just the common case;
there's nothing one can do.
My love, my saving grace,
your eyes are awfully blue
early and instant blue.

Elizabeth Bishop - The Map

Land lies in water; it is shadowed green.
Shadows, or are they shallows, at its edges
showing the line of long sea-weeded ledges
where weeds hang to the simple blue from green.
Or does the land lean down to lift the sea from under,
drawing it unperturbed around itself?
Along the fine tan sandy shelf
is the land tugging at the sea from under?

The shadow of Newfoundland lies flat and still.
Labrador's yellow, where the moony Eskimo
has oiled it. We can stroke these lovely bays,
under a glass as if they were expected to blossom,
or as if to provide a clean cage for invisible fish.
The names of seashore towns run out to sea,
the names of cities cross the neighboring mountains
-the printer here experiencing the same excitement
as when emotion too far exceeds its cause.
These peninsulas take the water between thumb and finger
like women feeling for the smoothness of yard-goods.

Mapped waters are more quiet than the land is,
lending the land their waves' own conformation:
and Norway's hare runs south in agitation,
profiles investigate the sea, where land is.
Are they assigned, or can the countries pick their colors?
-What suits the character or the native waters best.
Topography displays no favorites; North's as near as West.
More delicate than the historians' are the map-makers' colors.

Elizabeth Bishop - The Bight

At low tide like this how sheer the water is.
White, crumbling ribs of marl protrude and glare
and the boats are dry, the pilings dry as matches.
Absorbing, rather than being absorbed,
the water in the bight doesn't wet anything,
the color of the gas flame turned as low as possible.
One can smell it turning to gas; if one were Baudelaire
one could probably hear it turning to marimba music.
The little ocher dredge at work off the end of the dock
already plays the dry perfectly off-beat claves.
The birds are outsize. Pelicans crash
into this peculiar gas unnecessarily hard,
it seems to me, like pickaxes,
rarely coming up with anything to show for it,
and going off with humorous elbowings.
Black-and-white man-of-war birds soar
on impalpable drafts
and open their tails like scissors on the curves
or tense them like wishbones, till they tremble.
The frowsy sponge boats keep coming in
with the obliging air of retrievers,
bristling with jackstraw gaffs and hooks
and decorated with bobbles of sponges.
There is a fence of chicken wire along the dock
where, glinting like little plowshares,
the blue-gray shark tails are hung up to dry
for the Chinese-restaurant trade.
Some of the little white boats are still piled up
against each other, or lie on their sides, stove in,
and not yet salvaged, if they ever will be, from the last bad storm,
like torn-open, unanswered letters.
The bight is littered with old correspondences.
Click. Click. Goes the dredge,
and brings up a dripping jawful of marl.
All the untidy activity continues,
awful but cheerful.

Elizabeth Bishop - I Am In Need Of Music

I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling fingertips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!

There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep.

Elizabeth Bishop - Little Excercise

     for Thomas Edwards Wanning

 

Think of the storm roaming the sky uneasily
like a dog looking for a place to sleep in,
listen to it growling.

 

Think how they must look now, the mangrove keys
lying out there unresponsive to the lightning
in dark, coarse-fibred families,

 

where occasionally a heron may undo his head,
shake up his feathers, make an uncertain comment
when the surrounding water shines.

 

Think of the boulevard and the little palm trees
all stuck in rows, suddenly revealed
as fistfuls of limp fish-skeletons.

 

It is raining there. The boulevard
and its broken sidewalks with weeds in every crack
are relieved to be wet, the sea to be freshened.

 

Now the storm goes away again in a series
of small, badly lit battle-scenes,
each in "Another part of the field."

 

Think of someone sleeping in the bottom of a row-boat
tied to a mangrove root or the pile of a bridge;
think of him as uninjured, barely disturbed.

Regresso a Barcelona.

"Regresso a Barcelona" foi editado em 2009 pela Oficina do Livro e pode ser comprado na wook.pt, clicando aqui, ou na Mediabooks, clicando aqui. Há muitos textos neste blog sobre o livro. Este aqui abaixo escrevi quando fechava a sua edição.

 

De onde veio este livro?

"Regresso a Barcelona" é o título do meu novo romance, já o tinha dito aqui. Quando o saboreio em voz baixa, com o prazer que sempre vem da edição, hesito sobre se este "regresso" é substantivo ou verbo. Regresso também eu a Barcelona, cidade que visitei já muitas vezes e de muitas maneiras, a primeira faz agora uns catorze anos.

Se para os eventuais leitores é o princípio, para mim, contudo, o título é o fim de um longo processo. Neste caso até, mais do que nos anteriores, o título chegou mesmo no final. Onde comecei eu então? Em vários sítios que me ocorrem de forma dispersa.

Há pontos de partida que já existiam noutros livros: a cidade, claro, neste caso duas cidades, Lisboa e Barcelona, palco por excelência de quase tudo o que escrevo; uma certa visão da sexualidade a que se calhar a Raquel Freire chamaria pan-sexual, com todas as questões de liberdade e coragem que tal visão do mundo coloca; a música, sempre a música, que desde as primeiras palavras acompanha a minha escrita - ainda não desisti de um dia ter uma banda sonora para um dos meus livros; por fim, a escrita propriamente dita, os seus processos em particular, os da criação em geral, os seus prazeres e as suas torturas.

Sobre as cidades, gostava de chamar a atenção uma vez mais para o belíssimo poema de Elizabeth Bishop, "One Art" que, na penúltima estrofe, usa a cidade como metáfora de todos os lugares, reais, imaginados, emocionais e de como os podemos perder e neles nos perder. Este poema estava na minha memória quando comecei a desenhar esta Lisboa e esta Barcelona.

Em relação à música, o tema daquilo a que podemos chamar a "diva de palco", a deusa da sociedade do espectáculo, interessava-me desde que lera "In America" da Susan Sontag. Dois albuns consecutivos de Cecilia Bartoli ("Opera Proibita" e "Maria") e um livro de Ann Patchett ("Bel Canto") fizeram-me interessar por essa figura no contexto específico da ópera.

Se "Maria" é um estudo/homenagem a uma das primeiras divas de ópera, Maria Malibran, "Opera Proibita" coloca questões mais complexas, sobre a natureza sensual da música em palco, o que lado quase licencioso que o Vaticano, precisamente, decidiu proibir no início do século que havia de ser o do iluminismo.

A epígrafe do livro é precisamente uma ária italiana de Handel, cujo texto foi escrito por um cardeal e o tema é o amor. Só o primeiro verso sugere um mundo - "por ti deixei a luz". Nada de mais apropriado para um livro em que um dos personagens principais é um escritor-fantasma, um escritor das sombras.

Acrescente-se que a ópera que tem presença dominante no livro, "La Traviata" é atravessada pelos temas da coragem e da liberdade, da fidelidade, do sacríficio.

A cereja no topo do bolo surgiu tarde, este verão, quando na praia de Água d'Alto em São Miguel, lia as "Viagens com Heródoto" do Ryszard Kapuscinski. Todo o livro é sobre viagens, todas as viagens de todos os tipos que passamos a vida a fazer, quer queiramos que não.

De tudo isto e de duas cidades, cidades onde me perco e onde me vou perdendo, não por me sentir desorientado, mas pelo prazer de nelas me encontrar, foi surgindo este livro.

Sim, há temas repetidos, retrabalhados, re-escritos, preocupações, obsessões se calhar até, biografia onde ninguem a vai encontrar. Não sei se a eles volto na consciência da imperfeição da minha escrita ou apenas porque tem de ser.

Faltou-me falar do Pedro Almodovar e no momento em que tive consciência da minha paixão por Barcelona, ao ver o "Todo Sobre Mi Madre". Da minha paixão pelo cinema, sabia desde pequenino. E como tudo está ligado, hoje tenho um amigo em Barcelona que tem a profissão da personagem de Cecilia Roth no princípio do filme.

Perdoem-me por fim, as ligações hipertextuais de que abusei neste post, mas por algum motivo este é o meu primeiro livro com agradecimentos no fim. Todas as palavras que escrevo, escrevo sozinho, mas sozinho é coisa que sei que nunca estou.

One Art

(Elizabeth Bishop)

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

A Poesia de "Em Silêncio, Amor"

Vozes variadas atormentam Tom ao longo de "Em Silêncio, Amor" e se bem que em português, no livro, são no original em inglês e vale a pena creditá-las.

Comecemos pela música. A primeira voz, na Livraria Branquinho, é a de Tom Waits, que canta "Alice", do seu álbum do mesmo nome.

…I'll disappear in your name, but you must wait for me
somewhere across the sea, there’s the wreck of a ship… (pág. 42)

… And so a secret kiss brings madness with the bliss
and I will think of this when I’m dead in my grave… (pág. 44)

… And I must be insane, to go skating on your name
and by tracing it twice, I fell through the ice… (pág. 45)

"Hallelujah", de Leonard Cohen, dá nome a todo um capítulo. Poema extenso de que o autor e outros cantam apenas alguns versos seleccionados, é citado directamente.

I've seen this room and I’ve walked this floor,
you know, I used to live alone before I knew you (pág. 88)

O resto são "apenas" poemas e que eu saiba nunca serviram de letra a nenhuma canção, mas tal como na voz de Elisa e outras, envolvem Tom na dança do seu som.
A sua leitura acompanhou-me durante a escrita do livro e, de uma maneira ou de outra, as suas palavras acabaram por surgir no texto.
Uma breve nota para assumir a sua "tradução", capaz de ressoar entre Tom e Elisa e mais preocupada com isso do que com qualquer ideia de fidelidade.

So sad, so strange, the days that are no more. (pág. 60) do poema Tears, Idle Tears, de Alfred, Lord Tennyson

Do poema somewhere I have never travelled, gladly beyond de E. E. Cummings (o poema que Elisa queria ouvir no seu funeral), aparecem vários versos:

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence: (pág. 64)

rendering death and forever with each breathing (pág. 65)

the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands (pág. 66)

your slightest look will easily unclose me (pág. 68)

De Out of the Craddle Endlessly Rocking de Walt Whitman, surge na página 69 o verso From under that yellow half moon, late risen, and swollen as if with tears

Do belíssimo poema de Dylan Thomas Do Not Go Gentle Into That Good Night ouvimos na página 176 o princípio, na voz gravada de Tom e na página 73, o verso Rage, rage against the dying of the light.

O poema mais famoso da poetisa Elizabeth Bishop, One Art aparece na página 89

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.

Na mesma página, And that has made all the difference, do poema The Road Not Taken, o clássico de Robert Frost que sempre me lembra o "sei que não vou por aí" de José Régio.

Dylan Thomas volta à página 120 com This Side of Truth

This side of the truth,
You may not see, my son,
King of your blue eyes
In the blinding country of youth,

Do mesmo poema, na página 123:

And all your deeds and words,
Each truth, each lie,
Die in unjudging love.

O poema 22 de Emily Dickinson aparece na página 144:

I gave myself to him,
And took himself for pay.
The solemn contract of a life
Was ratified this way

So let us melt, and make no noise, é do mais antigo dos poetas representados, John Donne, no poema A Valediction: Forbidding Mourning, na página 156. E na página seguinte, a variação de Adrienne Rich:

I could say: those mountains have a meaning
but further than that I could not say

E pronto. Não mais sobre estes poemas, que são assunto para se ler e não de que falar.