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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Three MacArthur writers.

All of them wonderful. The MacArthur Fellows Program awards unrestricted fellowships to talented individuals who have shown extraordinary originality and dedication in their creative pursuits and a marked capacity for self-direction. The MacArthur Fellowship is a $625,000, no-strings-attached grant for individuals who have shown exceptional creativity in their work and the promise to do more. Learn more at www.macfound.org/macfellow

 

Among others, this year: Maggie Nelson, Claudia Rankine and Gene Luen Yang.

Maggie Nelson is a writer forging a new mode of nonfiction that transcends the divide between the personal and the intellectual.

 

Claudia Rankine is a poet illuminating the emotional and psychic tensions that mark the experiences of many living in twenty-first-century America.

 

Gene Luen Yang is a graphic novelist and cartoonist whose work for young adults demonstrates the potential of comics to broaden our understanding of diverse cultures and people.

Philip-Lorca DiCorcia

Philip-Lorca DiCorcia nasceu em 1951, vive em Nova Iorque e tem uma carreira longa e variada. Procurem. As fotos abaixo interessaram-me por terem todas uma certa qualidade Hopperiana, com figuras artificialmente isoladas e inseridas em contextos de transparência e reflexão, com a luz a dramatizar as cores em busca de significado.

Têm também, obviamente, uma qualidade narrativa (sem o surrealismo do Gregory Crewdson) que me dá vontade de lhes contar desde logo uma história. Até porque ando a começar a pensar num Fotógrafo como personagem principal.

Escrever porquê?

Respostas para ler aqui num artigo do Guardian. Gosto de como o Colm Toibin (o mal encarado da foto aqui ao lado), que admiro bastante, declara que escrever lhe dá muito trabalho, pouco prazer e compensa-o "thank god" pelo dinheiro.

Eu costumo queixar-me de que gostava de apenas escrever na minha vida, mas o meu percurso profissional não me levou por aí e acho divertidas estas opiniões.

Depois lembrei-me de uma conversa sobre futebol noutro dia e de como em Portugal, a maior parte dos jogadores é pouco profissional, no sentido em que encara este desporto não como um trabalho que deve fazer com o maior brio e por tal é principescamente remunerado, mas como uma espécie de passatempo de criança que se estendeu à idade adulta. Uns dias apetece fazer melhor, outros nem por isso.

Fiquei mais tarde a pensar se esta questão do brio, do prazer e do dever não se estenderia de um modo geral ao ser português e se este post não podia ser sobre quase todas as profissões, mas o sol começou a abrir lá fora e apeteceu-me ir até uma esplanada...

A Cidade Óbvia.

Há coisa de pouco mais de um ano, o Benjamin Junior desafiou-me a escrever sobre cidades para o Obvious. Embarquei na empresa animado pela companhia e surgiu um delicioso conjunto de textos sobre cidades reais e imaginárias, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Hammershøi, Fava e, no meu caso, a óbvia Lisboa.

Falhei, contudo. De todos, fui o que deixou o projecto a meio, não passando do quinto texto no meu projecto de mostrar a minha cidade a um famoso e fictício marinheiro de nome Corto Maltese. Abandonei a escrita em silêncio e remeti-me à minha toca sem dar explicações. Hoje, contudo, posso explicar sem pudor o que se passou.

A verdade é que, também por essa altura, já passeava pela minha imaginação com pernas para andar, um livro entre Lisboa e Barcelona, sobre um escritor e uma cantora, ópera e arrependimento. Quase sem querer, o que andava a escrever para o Obvious viu-se aos poucos devorado por este projecto e partes do que escrevi na altura acabaram por encontrar o seu lugar nessa outra história.

Quem talvez tenha achado que a história daquele encontro entre desconhecidos na noite de Lisboa ficou por acabar, pode encontrar algum consolo em "Regresso a Barcelona" (capa ao lado) onde, ainda por cima, não me fiquei por Lisboa e acabei, precisamente, em Barcelona.

O princípio do livro está aqui em pré-publicação e deverá aparecer nas livrarias portuguesas por estes dias.

 

Hábitos de escrita.

Não tenho vida para isso e se tivesse, é improvável que tivesse a disciplina necessária para ter uma rotina de escrita definida, como uma espécie de emprego. Acho, contudo, fascinante descobrir os hábitos de pessoas criativas, entre elas escritores como Auster, Bellow, Auden e Self. É disso que trata este blog.

Ira Glass - Sobre as histórias.

Ira Glass é o autor de um programa de rádio e televisão pública de nome "This American Life" que circula num território que acho particularmente interessante, pegando em factos e pessoas reais, experiências humanas, assuntos na agenda noticiosa e os apresenta como narrativas, constrói-os como histórias. É um bocadinho como a "História Devida" se calhar.

A GEL (Good Experience Live) é uma conferência e comunidade explorando sem grandes fronteiras o conceito de "boa experiência" em todas as áreas: negócio, arte, sociedade, tecnologia, vida.

Ira Glass esteve na GEL 2007 e apresentou a conferência que está aqui ao lado em vídeo, tendo como tema geral aquilo que é, para si, "contar uma história". O vídeo dura trinta e dois minutos, mas para quem alguma vez leu, ouviu ou quis contar uma história (mais ou menos toda a gente), vale a pena ver até ao fim.

Ira usa o seu iPod para dar exemplos e ter banda sonora e só por isso já vale a pena observá-lo. Sempre gostei de bandas sonoras. Demonstra também, como em determinado momento uma história nos consegue agarrar, querer saber onde tudo aquilo vai parar, não desligar o rádio.

Na parte final da conferência, usa um dos exemplos máximos desta arte, "As Mil e Uma Noites", para dizer coisas que me deixam a pensar como "uma pessoa pode salvar a sua vida mil vezes, usando o suspense" ou "a narrativa em si é uma entrada para um lugar muito fundo dentro de nós, que nada tem a ver com a razão".

Como ele diz, vivemos num mundo em que tudo é narrativa, do anúncio de trinta segundos às notícias, livros, filmes, websites... mas ele di-lo muito melhor que eu, vejam.

Argumentos.

Interessa-me particularmente a escrita, no que ao cinema diz respeito, por todos os motivos e mais algum.

Dos nomeados para o Oscar de melhor argumento, suscita-me sinceras dúvidas o Wall-E. Sim, o filme é bom, mas a originalidade é quase toda visual e não me parece que seja da escrita que vem o valor da experiência envolvente que proporciona.

O contrário vale a pena dizer de "In Bruges" (na imagem) que, de um quase nada de história, desenha pela palavra um filme no "shithole" que é Bruges, quase uma jóia, com alguns dos melhores diálogos que passaram recentemente por uma sala de cinema. Os actores servem perfeitamente este brilhantismo e se houvesse um Oscar só para o diálogo, este estava garantido.

O "Slumdog Millionaire" é, por outro lado, um primor de construção, fazendo pleno uso do tempo e do espaço da Índia, do micro ao macrocosmos, com um aproveitamento inteligente de todos os mecanismos de envolvimento do espectador à sua disposição. É como se tudo na vida fosse, de facto, um concurso.

Já "O Curioso Caso de Benjamin Button" assume um tom narrativo que, se dispensarmos a originalidade da premissa do conto de F. Scott Fitzgerald, não é particularmente arrojado ou inovador. Está certamente mais bem servido de actores, de realização, de direcção de arte, do que de um argumento que seja particularmente penetrante.

Quanto ao "Milk" e ao "Frozen River", espero ter tempo este fim de semana para os ver e logo opino. Os outros a seu tempo.

Alan Ball sobre True Blood

Agora que parece que vai haver um espaço um bocadinho maior para a criatividade naquilo que faço, descubro-me cada vez mais interessado em (quase) todos os processos criativos. Alan Ball é um belíssimo argumentista/criador para televisão e a sua nova série traz-me viciado.

Vale a pena ler esta entrevista para perceber alguma da mecânica por trás da sua criação: um equilíbrio entre divertimento e seriedade, entre pessoal e universal, entre texto e subtexto. Gosto particularmente deste último, onde acho que ele acerta na mouche ao falar de como os subtextos realmente interessantes são aqueles que nascem de quem vê, da própria textura do objecto criado, sem grandes pretensões ou intenções por parte do criador.

Notas e Rabiscos.

Percebi que tenho ideias, anotações, imagens e princípios do meu próximo livro já em três cadernos diferentes (daqueles de papel, mesmo), um telemóvel (para as emergências) e três programas diferentes no meu MacBook.

 

Há duas cidades, Lisboa e Barcelona. Há um escritor, uma cantora de ópera, um fã de ópera, um médico. Há o tempo, a posse, a perda, a música e o silêncio. Sim, temas recorrentes. Há já umas páginas escritas, mas é ainda tão cedo.

 

É cedo ainda, é aquele momento em que todo o peso do comboio se põe em movimento para sair da estação. As pessoas no cais dizem adeus, aquelas lá dentro sentem a emoção da viagem e um misto de esperança e de medo perante todo aquele monte de aço e motor que se coloca em movimento.

 

Não... não. Vamos manter-me nas minhas obsessões. É um avião. Um lugar à janela, atrás da asa. Os restos da cidade mirando-nos circunspectos. Mesmo no princípio da pista. Antes de acelerar. Antes de levantar voo.

 

Assim é o princípio da escrita. Sobretudo com falta de tempo.