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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O Barco Vai De Saída

O barco vai de saída
Adeus ao cais de Alfama
Se agora eu vou de partida
Levo-te comigo ó cana verde
Lembra-te de mim ó meu amor
Lembra-te de mim nesta aventura
P'ra lá da loucura
P'ra lá do Equador

Ah mas que ingrata ventura
Bem me posso queixar
da Pátria a pouca fartura
Cheia de mágoas ai quebra-mar
Com tantos perigos ai minha vida
Com tantos medos e sobressaltos
Que eu já vou aos saltos
Que eu vou de fugida

Sem contar essa história escondida
Por servir de criado a essa senhora
Serviu-se ela também tão sedutora
Foi pecado
Foi pecado
E foi pecado sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa

Gingão de roda batida
corsário sem cruzado
ao som do baile mandado
em terra de pimenta e maravilha
com sonhos de prata e fantasia
com sonhos da cor do arco-íris
desvairas se o vires
desvairas magia

Já tenho a vela enfunada
marrano sem vergonha
judeu sem coisa nem fronha
vou de viagem ai que largada
só vejo cores ai que alegria
só vejo piratas e tesouros
são pratas, são ouros,
são noites, são dias

Vou no espantoso trono das águas
vou no tremendo assopro dos ventos
vou por cima dos meus pensamentos
arrepia
arrepia
e arrepia sim senhor
que vida boa era a de Lisboa

O mar das águas ardendo
o delírio dos céus
a fúria do barlavento
arreia a vela e vai marujo ao leme
vira o barco e cai marujo ao mar
vira o barco na curva da morte
e olha a minha sorte
olha o meu azar

e depois do barco virado
grandes urros e gritos
na salvação dos aflitos
estala, mata, agarra, ai quem me ajuda
reza, implora, escapa, ai que pagode
reza, treme, heróis e eunucos
são mouros são turcos
são mouros acode!

Aquilo é uma tempestade medonha
aquilo vai p'ra lá do que é eterno
aquilo era o retrato do inferno
vai ao fundo
vou ao fundo
e vai ao fundo sim senhor
que vida boa era a de Lisboa

Noiserv does Fausto (live)

Direção Antena 3: Nuno Reis, Henrique Amaro e Luís Oliveira
Músicos: David Santos
Autoria: Noiserv
Realização, fotografia e edição: André Tentugal
Produção: Joana Cordeiro e João Brochado
Assistente de Produção: Margarida Sá Coutinho
Operadores de Imagem: André Tentugal, Luís Cardoso e Vasco Mendes
Maquilhagem: Maria Fontes Make up
Grafismo: Tiago Tobias
Gravação áudio: João Brandão, Cláudio Tavares e Miguel Pereira
Assistente de Gravação: Luís Neto
Mistura: Cláudio Tavares
Masterização: Miguel Pinheiro Marques no SDB Mastering Studio
Coordenação Geral: Henrique Amaro
Produtora Delegada RTP: Ana Paula Velez

Gravado nos Estúdios Sá da Bandeira, Porto, 2016

Vicente Palma - Como Um Sonho Acordado (Fausto)

Piano e vozes: Vicente Palma
Coro: Rui Berton, Pedro Martinho e Miguel Fonseca

 

Vídeo e montagem: Rui Berton

 

O Fausto é um dos nossos Grandes, uma lenda viva e uma referência musical fundamental para mim.

A propósito do 40º aniversário do 25 de Abril, fui convidado para participar n' "Os Dias Cantados", iniciativa da Antena 1. Escolhi a "Como Um Sonho Acordado", do Fausto, e entreguei-me por completo. É fácil quando estamos a falar do melhor que a música portuguesa tem para nos dar.

O Fausto tem uma forma muito própria de fazer coros: no caso desta música, pedi à minha banda que viesse cantar comigo este refrão (se é que assim o podemos apelidar) tão negro e tão belo. Hei-de voltar ao "Por Este Rio Acima"...

 

Acompanhem-me também no Facebook: www.facebook.com/VicentePalmaOficial

 

Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por baixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá ao fundo
Tenho medo, ó medo
Leva tudo, é teu
Mas deixa-me ir

 

Arrasta-me à côncava funda
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante

 

Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda

 

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p´lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes

Cultura e Memória.

Tenho andado a ouvir o "Em Busca das Montanhas Azuis" do Fausto Bordalo Dias, um dos grandes discos do ano passado.

De "Por este rio acima" a "Crónicas da terra ardente" foram doze anos e tivemos de esperar mais dezassete pela conclusão da trilogia que Fausto baseou na "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto. E a música traduz perfeitamente essa aventura, espanto e sedução da descoberta. Não há a limpidez cega dos heróis aqui, mas sim homens comuns, um olhar aberto sobre o mundo, uma voz ainda firme, inteligência e variedade musical. Tudo em Fausto nos devolve o encanto que sempre reconhecemos na sua música, levando-nos ainda um pouco mais longe.

 

 

Sempre gostei de História e sempre achei a História e a memória que implica fundamentais para a definição do que somos e do que seremos. Sempre que ouço o Fausto, fico a pensar em como é triste não termos uma versão em cinema ou televisão desse grande livro de aventuras, cru e moderno, que é a "Peregrinação".

A isto junta-se a notícia de que o ICA está sem dinheiro para financiar o cinema e a DGArtes não tem dinheiro para financiar a criação artística. É claro que o próprio Secretário de Estado da Cultura não é grande crente no papel do Estado e acha que o património é mais coisa turística. Que memória ficará destes anos? A Casa dos Segredos? Telenovelas? Concursos? Futebol? Os dez programas mais vistos na televisão portuguesa o ano passado foram jogos de futebol.

Até a CIA, que há-de perceber tanto de arte como eu da vida sexual das abelhas, percebeu a importância de apoiar a arte contemporânea, de estimular o seu desenvolvimento e presença. Nós continuamos a contar trocos e a não perceber em que estamos afinal a investir.

Parece que estamos condenados a um futuro sem memória, logo sem história, sem passado e por consequência, sem presente e sem futuro. Tudo isto me deprime.

Vou só ali ver mais uma vez as magníficas fotografias de Tony Gleaton sobre a herança africana nas Américas. Está mesmo disponível integralmente um número da revista Contact Sheet dedicado ao seu trabalho. Abaixo, dois exemplos. Primeiro El Amado de Afrodita - El Ciruello, Oaxaca, Mexico, 1990 e de seguida Un Hijo de Yemaya - Hopkins, Belize, 1992.