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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Estreiam amanhã 'Os Maias' do Botelho.

Li 'Os Maias' de Eça de Queirós no verão de 1987 ou 1988, falha-me a memória em qual e é, com uma mão cheia de outros livros, daqueles cuja leitura recordo com prazer - a leitura propriamente dita, para além do livro em si, uma edição semelhante a esta. A antiga aparelhagem dos meus pais tinha mudado para o meu quarto e ainda aceitava cartuchos, uma das muitas tecnologias que o tempo foi devorando (uma coisa do género desta aqui ao lado na fotografia, daquelas a que podíamos ainda 'amar do amor táctil que votamos aos maços de cigarro' como diz o Caetano).

Li o grande romance ao som de Chopin em tardes longas e embora me faltasse ainda parte importante da experiência deste miserável país que não muda, já me ia nascendo o amor por Lisboa, pela literatura, pelo humor inteligente, pelas personagens a quem hesitamos dedicar devoção ou pena. Além da intriga romanesca, claro.

Ontem tive o privilégio de ver em antestreia a adaptação a cinema que João Botelho fez do livro de Eça. Talvez a minha memória seja difusa mas quis-me parecer que estão lá todos: o Ega alter-ego (alter-Ega?) do Eça com a sua peliça, aquele Carlos da Maia que se acha o máximo, o friso de bestas, do Eusebiozinho ao inefável Dâmaso ao banqueiro Cohen, o romântico Alencar, o Alencar de Alenquer, mais romântico que o os românticos, a fogosa e ruiva Gouvarinho, o avô Afonso a cair de velho como o Ramalhete dez anos depois. Está também Lisboa pintada a traço grosso mas suficiente para crermos no Chiado, nas Janelas Verdes, no Rossio, em Belém, na volta pelo Aterro. Faltou-me Sintra mais a sério, mas talvez esteja na versão para televisão.

Mais que tudo isto, está o texto de Eça. Não todo, claro. Mas está a abertura, está o fecho, está o inimitável estilo e a beleza da língua, estão os pronunciamentos de peito feito ou ombros encolhidos sobre o estado da nação, uma nação tão parecida à que ainda temos mais de cem anos depois que nos resta talvez... encher o peito ou encolher os ombros. Está o humor e ah, meninos, que humor! Eça troça do país e da sua figura, troça de si próprio, do seu amor ao estrangeiro, da sua pequenez da Arcada ao Chiado, enquanto nos vai levando pela gravata por uma história romanceada que, como a do país, a lado nenhum nos leva.

Está por fim João Botelho, filmando em pleno domínio da sua arte de luz e sombras, de salões abafados, de camarotes do São Carlos, de atores bem dirigidos (Aquele Ega! Aquele Alencar! Aquela Gouvarinho! Aquele Salcêde!). E também as piscadelas de olho, alguém que limpa o pó a um Garrett, alguém que falece por cima do 'Candide' de Voltaire, alguém que diz um adeus ao passado junto a um cartaz da Traviata.

Ah, mas que diabo, somos um país de gente que os não merece! Ontem, num sussurro (audível o suficiente) uma fila atrás, alguém comentava sobre o amor ilícito de Carlos e Maria Eduarda, 'o problema é que ela é casada, não é?' Que seja deles também este filme que amanhã estreia, daqueles para quem 'Os Maias' guardam ainda spoilers.

 

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OS MAIAS - TRAILER from Ar de Filmes on Vimeo.