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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O Paraíso são os outros

Para assinalar o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP, a Porto Editora aliou-se ao realizador Miguel Gonçalves Mendes na publicação de "Sotaques", um vídeo que celebra a diversidade da língua portuguesa no mundo através da leitura de "O Paraíso são os outros", de Valter Hugo Mãe.

O vídeo foi concebido pelo cineasta, responsável por projetos como José e Pilar e Autografia, e os registos de áudio e vídeo foram efetuados na volta ao mundo que empreendeu durante o ano de gravação de "O Sentido da Vida", o seu novo filme (com estreia prevista em 2018).

Nesta leitura de "O Paraíso são os outros" encontramos pessoas de Cochim, Goa, Damão, Diu, Macau e outras, a que mais tarde, e já em Lisboa, se juntaram diferentes sotaques de pessoas provenientes de países africanos de língua portuguesa, de Timor-Leste, do Brasil e várias zonas de Portugal.

Numa viagem que reflete a diversidade da nossa língua, os leitores dão voz ao estilo singular de Valter Hugo Mãe e à sua personagem principal, uma menina fascinada pelo amor, que usa a imaginação para antever e descobrir o que é a felicidade.

"Sotaques" será cedido gratuitamente ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, atualmente em obras de reconstrução, após o grande incêndio de 2012. No futuro, e no seguimento deste mesmo projeto, será publicado um minidocumentário sobre a forma como as diferentes culturas vivem, no seu quotidiano, a Língua Portuguesa.

Da língua.

Há um pequeno rectângulo no mosaico de ilustrações da capa da última Monocle que menciona Portugal. Mesmo antes do final da revista, descobre-se uma reportagem em texto e imagem de umas 15 páginas (creio) sobre os Jogos da Lusofonia. É interessante perceber como, vistos de fora, os Jogos da Lusofonia são uma grande festa multicutural, parte de uma opção política de influência global baseada na língua.

Vista daqui, a política portuguesa para a língua respectiva é um caos político de ministérios que adoram embirrar uns com os outros e raramente se entendem: Cultura, Negócios Estrangeiros e Educação, só para mencionar os mais importantes. Perde-se mais tempo nas minudências e implicações com o Acordo Ortográfico (na maior parte dos casos com desconhecimento de causa) do que a discutir o que raio é essa coisa de "uma política da língua". E há sempre a proposta de fazer um museu e arrumar o assunto.

Não tenho nenhuma ideia mirabolante para a política da língua, mas algumas coisas parecem-me evidentes. Portugal, país de origem da dita língua, é cada vez mais o país com menos falantes da dita. Há sempre qualquer coisa de neo-colonial numa política transnacional da língua. A língua portuguesa é rica, vibrante, plena de invenção e mutação, nomeadamente ao nível da escrita, do romance, da poesia, da canção. Os media (os portugueses, os outros não sei) tratam a língua abaixo de cão, nem sequer a sabendo falar, muito menos escrever. É talvez consequência de um sistema educativo que se marimba cada vez mais na dita língua.

Eventos como os Jogos da Lusofonia, políticas abertas e cruzadas de emigração, promoção da cultura e da educação miscigenada, global e admitindo a diferença dentro da língua portuguesa, das múltiplas culturas que tocou, parecem-me ser o mais interessante, divertido e produtivo caminho de futuro. Entendam-se, por favor.