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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Let me tell you about winds

"There is a whirlwind in southern Morocco, the aajej, against which the fellahin defend themselves with knives. There is the africo, which has at times reached into the city of Rome. The alm, a fall wind out of Yugoslavia. The arifi, also christened aref or rifi, which scorches with numerous tongues. These are permanent winds that live in the present tense.
There are other, less constant winds that change direction, that can knock down horse and rider and realign themselves anticlockwise. The bist roz leaps into Afghanistan for 170 days--burying villages. There is the hot, dry ghibli from Tunis, which rolls and rolls and produces a nervous condition. The haboob--a Sudan dust storm that dresses in bright yellow walls a thousand metres high and is followed by rain. The harmattan, which blows and eventually drowns itself into the Atlantic. Imbat, a sea breeze in North Africa. Some winds that just sigh towards the sky. Night dust storms that come with the cold. The khamsin, a dust in Egypt from March to May, named after the Arabic word for 'fifty,' blooming for fifty days--the ninth plague of Egypt. The datoo out of Gibraltar, which carries fragrance.
There is also the ------, the secret wind of the desert, whose name was erased by a king after his son died within it. And the nafhat--a blast out of Arabia. The mezzar-ifoullousen--a violent and cold southwesterly known to Berbers as 'that which plucks the fowls.' The beshabar, a black and dry northeasterly out of the Caucasus, 'black wind.' The Samiel from Turkey, 'poison and wind,' used often in battle. As well as the other 'poison winds,' the simoom, of North Africa, and the solano, whose dust plucks off rare petals, causing giddiness.
Other, private winds.
Travelling along the ground like a flood. Blasting off paint, throwing down telephone poles, transporting stones and statue heads. The harmattan blows across the Sahara filled with red dust, dust as fire, as flour, entering and coagulating in the locks of rifles. Mariners called this red wind the 'sea of darkness.' Red sand fogs out of the Sahara were deposited as far north as Cornwall and Devon, producing showers of mud so great this was also mistaken for blood. 'Blood rains were widely reported in Portugal and Spain in 1901.'
There are always millions of tons of dust in the air, just as there are millions of cubes of air in the earth and more living flesh in the soil (worms, beetles, underground creatures) than there is grazing and existing on it. Herodotus records the death of various armies engulfed in the simoom who were never seen again. One nation was 'so enraged by this evil wind that they declared war on it and marched out in full battle array, only to be rapidly and completely interred."

 

The English Patient, Michael Ondaatje

Verdade, mentira, ficção.

Este texto não é sobre a situação política atual. Sobre esse assunto, continuo a achar que há outra gente a dizer coisas que vale a pena ler e ouvir. Até a Manuela Ferreira Leite, of all people, que por acaso um amigo em tempos me disse que era uma pessoa de bom senso condicionada pelas circunstâncias. Este texto é sobre coisas ao lado.

Michael Ondaatje sempre foi dos meus escritores favoritos e dos poucos de que li (quase) tudo. É impossível ler tudo o que um escritor escreve, muito fica sempre apenas para ele. Tudo começou com a adaptação ao cinema de "O Paciente Inglês". Depois fui lendo poesia, prosa, até ao mais recente "The Cat's Table".

No que Ondaatje escreve, duas coisas sempre me tocaram mais que tudo o resto: o lirismo da escrita, burilando frases, colhendo palavras, e uma visão política do mundo, no sentido nobre da palavra, paficista, internacionalista. Ondaatje é ele próprio um cruzamento de oriente e ocidente, norte e sul, quer pela sua biografia, quer pela forma como isso transparece nas suas histórias e na forma como as conta.

"O Paciente Inglês", contudo, como outras, é uma história que tem um contexto histórico real e se inspira numa figura real, László Ede Almásy de Zsadány et Törökszentmiklós, um fascista húngaro que colaborou com os serviços secretos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Nada que se recomende. O romancista pega-lhe no nome, em alguns factos e constroi uma história de amor que poderia justificar alguém fazer as coisas que faz. Muito mais haveria a dizer, mas já lá vamos.

Entretanto descobri também a escrita de Anne Michaels, também ela canadiana, em forma e em conteúdo com muitas semelhanças a Ondaatje. Gostei particularmente da sua poesia e de um romance de nome "The Winter Vault" que tem como contexto a mudança de lugar do templo de Abu Simbel (na foto) por causa da construção da barragem de Assuão no Nilo.

Passado algum tempo, descobri uma conversa entre Terry Rigelhof e Gordon Lockheed precisamente sobre estes dois autores e embora a discussão e a agressividade na abordagem do assunto não me tenham feito gostar menos de Ondaatje ou Michaels, fizeram-me, é claro pensar. Só uma citação: "Michaels is a poet and her prose works, Fugitive Pieces (1996) and The Winter Vault (2009), aren't novels. Not in my books. What are they then? I'd say propaganda – misleading publicity, deceptive information, distorted educational tracts." "That's harsh."

Não conheço suficientemente a literatura canadiana, nem tenho conhecimentos e capacidade analítica suficiente para entrar na discussão, mas vale a pena ler toda a conversa e ficar a pensar sobre um assunto bem antigo, o lugar da verdade histórica na ficção.

E agora sim, entro eu.

Quando entrei na faculdade, fi-lo convencido de que o meu futuro era o jornalismo, de que contar histórias sobre a realidade, procurar a verdade do mundo e dos seus momentos eram missões que me recompensariam pessoalmente mais do que qualquer outra. Depois aconteceram duas coisas: uma, li a "Conversa na Catedral" do Mario Vargas Llosa; outra, numa aula, um professor disse que "o jornalismo não era uma atividade para pensar, mas sim para fazer". E eu sempre gostei muito de pensar. Pior do que isso, sempre gostei muito de inventar. Não podia ser jornalista.

É claro que estes meus pruridos morais não impediram muitos outros jornalistas de achar que a fronteira entre a verdade e a sua manipulação inventiva era uma barreira fácil de ultrapassar com frequência.

Saí da faculdade, aliás, um pouco sofista, achando que se podia dizer, argumentar, inventar quase tudo sobre quase tudo. E pus-me a escrever ficção a sério. Resultaram cinco romances.

Hoje, contudo, neste mundo completamente mobilizado pela tecnologia do espetáculo, pela tecnologia da invenção, da representação sem que precise de existir o objeto representado, parece-me cada vez mais importante perceber onde está a verdade, o que é que a realidade confirma, com a sua olímpica indiferença ao que podemos dizer sobre ela.

Vou continuar a escrever ficção, vou continuar à procura de verdades íntimas e universais, de disparates e sentidos, mas queria só pedir, modestamente, aos que têm ou deveriam ter o ofício da verdade (jornalistas, políticos, biógrafos, historiadores, documentaristas) que se preocupem com ela. Até porque o que resta da história, da memória, é aquilo que contámos, que dissemos, e por muito que goste de ficção, preferia que não fosse tudo inventado.

O tempo das viagens.

Logo no princípio da primeira parte (Millennium Approaches) da peça "Angels in America" de Tony Kushner, o rabi Chemelwitz (uma brilhante Meryl Streep na versão televisiva da HBO) tem uma frase que fica connosco durante todo o tempo da ação e ainda depois. É proferida no funeral de uma mulher judia, uma imigrande do princípio do século XX: "You can never make that crossing she made, for such Great Voyages in this world do not any more exist. But every day of your lives the miles of that voyage between that place and this one you cross. Every day. You understand me? In you that journey is."

Muito ensaio já se terá escrito sobre o aumento da velocidade exterior e a interiorização da viagem ao longo do século XX, mas o tema voltou ao meu pensamento pela leitura do mais recente romance de Michael Ondaatje, "The Cat's Table", ele próprio uma viagem (ou várias): a transatlântica so Sri Lanka até Londres, a da jovem personagem principal, também da sua vida, do seu crescimento, das suas emoções. Vale a pena.

Entretanto descobri na net o mapa abaixo, um mapa das rotas usadas pela American Express no tempo dos transatlânticos, cerca de 1900. Cada rota é um sonho, uma hipótese de uma ou muitas histórias. E sim, também pensei no Titanic.