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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Três notas sobre ontem.

Sempre disse que a narrativa era importante e o jogo da final do Euro 2016 de ontem não parece tanto ter acontecido como sido escrito e encenado: a queda do herói diante da muralha, no princípio, com lágrimas, dor e confusão; peripécias até ao fim - a bola no poste mesmo a acabar os 90 minutos, a bola na barra num livre que nem devia ter acontecido; e a entrada do patinho feio para matar o jogo e ser, nem que por um instante, herói. Quem escreve, que aprenda, é assim que se levam as emoções.

 

Nunca tive tantos amigos emigrados como hoje e nunca senti, como hoje, a maneira como estes fenómenos nacionais de grupo os unem de uma nova forma só possível pelo digital. Os emigrantes portugueses sempre celebraram as vitórias no futebol mas nunca isso foi tão visível como ontem no planeta Facebook (e Instagram e Twitter) definindo o que é, de facto, um país global, um Portugal diferente, instantaneamente presente. E note-se que estes são amigos com quem fui a estádios de futebol ver jogos, quando cá estavam, com quem partilhei derrotas e vitórias.

 

Aliás, note-se que ontem se defrontaram duas equipas feitas de filhos de emigrantes e de emigrados, de restos de passados coloniais e provas de que pode existir um futuro aquém e além fronteiras. É interessante, emocionante e não pouco motivo de reflexão que um fenómeno que se define pelas fronteiras (o futebol de seleções) no meio de outro que cada vez menos se define assim (o futebol de clubes) seja lugar de misceginação, alguma confusão e muita emoção. Ainda mais num país sempre ameaçado pela xenofobia como a França e outro onde tendemos a esquecer que ela existe como Portugal.

A cópia privada em sete pontos e uma coda.

Sobre a chamada proposta de lei da cópia privada, partamos do pequeno para o grande.

 

1. Arrumemos o timing veraneante da coisa, o desrespeito pelo país, a ausência de debate público alargado, a falta de consulta de todas as partes a quem o assunto pode dizer respeito. Tudo mau.

 

2. Quanto aos beneficiários, arrumemo-los também. Em 1993 e em 2003 houve inquéritos à SPA perante acusações de má gestão, de desvio de fundos. Está na altura da cena se repetir. Mas presumamos a inocência de todos os beneficiários, as várias associações. Estas acusações surgem em primeiro lugar porque é absolutamente opaco o uso que fazem dos fundos que recebem. O seu trabalho em prol dos artistas, da sua defesa, da promoção da cultura é quase invisível. E no entanto, o Estado, ao fazer aumentar os fundos que elas recebem, não lhes exige compromissos de transparência, planos de atividades de promoção da cultura, formação, trabalho sério no terreno.

 

3. A própria existência destas associações é, se não evoluírem, profundamente anacrónica. O seu nascimento está ligado à primeira vaga de generalização da rádio e da televisão. A sua sobrevivência tem-se revelado inadaptada a um mundo globalizado, digital, desmaterializado. Tanto é assim que cada vez menos artistas, autores, gente da cultura sente a sua necessidade. Falo por mim. Nunca percebi qualquer vantagem em inscrever-me na SPA. Nunca o fiz.

 

4. A outra coisa profundamente anacrónica é o taxar dos suportes físicos. Se isto tivesse sido feito, vá, há três anos que fosse, talvez ainda pudesse haver algum argumento a favor mas neste momento os modelos de financiamento e distribuição cultural estão a desmaterializar-se, a apostar no streaming, na cloud, no freemium, no crowdfunding, no circuito de festivais e eventos, na colocação em sites internacionais e globais, o Facebook, o Vimeo, o Youtube, o Flickr, o Soundcloud. O tempo não espera e continuamos a tentar apanhar comboios que aceleram e nos fogem.

 

5. Tudo isto para dizer que a lei representa uma extensão de um modelo anacrónico, uma fuga para a frente assente sobre muletas, uma transferência do financiamento de associações opacas para os consumidores. Quando não são os consumidores que estão a ganhar dinheiro com os novos modelos, são os operadores de telecomunicações, as grandes multinacionais de serviços digitais e, numa escala evidentemente muito menor, os novos artistas que sabem usar as novas ferramentas. E estes precisam de ser estimulados, trabalhados, comprometidos com um futuro mais risonho do ponto de vista da cultura. Eu apostaria que os maiores financiadores dos produtores e distribuidores de música (e em breve de cinema – de televisão já são), serão estes, as grandes operadoras, as grandes plataformas digitais.

 

6. Mas o problema é mais grave que tudo isto. A lei pressupõe que existe uma diminuição das receitas do lado dos artistas e produtores (ao assumir que os artistas e produtores são as associações que já nem sequer os representam) por efeito da pirataria. Existirá, não a nego. Mas o problema fundamental não é esse. O problema fundamental é o profundo desinteresse da sociedade portuguesa pelo consumo cultural, seja sob que forma for. Esta lei não faz absolutamente nada para o combater. Pelo contrário. Remete mais uma vez a cultura para o gueto dos assuntos esquisitos onde ‘os gajos nos querem sacar mais uns cobres’.

 

7. Last but not least. Desenganem-se aqueles que acham que isto é ‘um problema desses tipos da cultura’. Não é. As mudanças de paradigma provocadas pela tecnologia são neste momento profundas, avassaladoras, incontornáveis. Não considera-las seriamente é um erro grave que nos pode custar o futuro. Achar que é só uma questão de atualizar os modelos que existem é enfiar a cabeça na areia, ganhar uns meses, no máximo um ano ou dois. A mudança é estrutural. Precisamos de novas maneiras de pensar o mundo.

 

Em jeito de coda, deixo um documentário curto (quinze minutos) chamado ‘Humans Need Not Apply’. O esforço dos autores para não tomar posição é notável, talvez para não assustar quem o vê, mas a verdade é que o futuro já chegou e não vale a pena fechar os olhos.

 

Valério Romão - [O Pequeno Amuleto de São-Qualquer-Coisa-Padroeiro-Dos-Emigrantes]

Eram as viagens a Portugal [vá para dentro lá fora.]
o carro novo lambuzado de brilho metálico. as prendas para a família.
[o queijo de dois quilos com uma cabra estampada. lentes fotográficas dispendiosas. brinquedos a pilha.]

 

o portugal-cauda-da-europa com olhos de infante de sagres
paraíso de bêbedos e ingleses de pele frágil.

 

casinhas espalhadas costa fora a fingirem cidades.

 

e eu habituado à algazarra do primeiro mundo
[os escapes ruidosos a vomitar velocidade. os centros comercias tamanho-aldeia.]

 

perdido num algarve-cantinho-de-sol-e-praia
[era este o portugal que conhecia. 
o portugal das mulheres viúvas até morrer
o portugal das tascas e dos centros de saúde mortais.
o portugal que piscava um olhinho à C.E.E. e acenava tradições com ares de pêga.]

 

este portugal com sabor familiar
que me acolhia com uma brisa amena e figos maduros.

 

o portugal dos montes espalhados pelo interior 
[onde as mulheres nunca tiram o lenço da cabeça. onde se coze o pão em fornos borrados de cal.
os vizinhos eternamente desaguisados por um palmo de terra.
mantanças de porco. vinho novo.]

 

o portugal de são cipriano e de são martinho.
o portugal do mau-olhado e da tuberculose
o legado de salazar e caetano
[dezenas de oficiais gordos. capitães que aceitavam galinhas e contos de reis para livrarem os mocinhos-para-sempre da tropa.]

 

e eu enfiado nuns sapatos cobiçados pela criançada
desabituado do calão e da água salgada.
os olhos postos no sol da tarde a naufragar
nas estrelas do campo cuspidas ao acaso.

 

uma terra de pescadores de bagaço e navegadores de cabeceira. os sonhos transatlânticos feitos de filigrana quebradiça.

 

um portugal fábrica de conservas e cortiça
mordido pelo pesadelo colonial
uma quinta experimental de insucessos comerciais.
um portugal de burocratas-vermelhos e malas-de-cartão
que acolhia os seus como estranhos endinheirados.

 

éramos os dos carros novos com matrículas esquisitas
aqueles que penduravam no retrovisor um pequeno amuleto de são-qualquer-coisa-padroeiro-dos-emigrantes.

Somos um país de incultos.

É fresquinho e contém muita informação, o Eurobarómetro 'Cultural Access and Participation' sobre o estado do acesso à cultura na Europa e a comparação com o último estudo do género, em 2007. O relatório completo tem mais de cem páginas mas existe um sumário e uma fact sheet só para Portugal.

Vale a pena dissecar toda a informação, mas sobre Portugal destaco três gráficos que são realmente deprimentes. O primeiro mostra um índice de prática cultural e atrás do nosso país só estão Chipre e a Grécia. 60% da população tem um indíce baixo e só 6% um indíce alto ou muito alto.

No segundo gráfico, estes indíces são dissecados por áreas de interesse. Respondendo à pergunta "Quantas vezes nos últimos doze meses...", Portugal tem as percentagens mais baixas em leitura, ida a concertos, ao teatro, dança ou ópera, a segunda mais baixa em cinema e visita a monumentos, museus ou galerias e a terceira mais baixa em visitas a bibliotecas.

O terceiro gráfico arrasa qualquer esperança que pudéssemos ter de que a crise justificaria isto. Em todas, repito, em TODAS as áreas, o principal motivo para a não-prática da atividade é a falta de interesse. Os portugueses não querem saber, não se interessam, acham que não vale a pena.

Não tenho dados para ir mais longe, nem sei se quero. Intuições tenho algumas. Somos um povo de gente sem educação. Sem formação. Quer em quem manda, quer em obedece. As elites culturais são minúsculas. Os investimentos, públicos ou privados, são risíveis. E o efeito reprodutor e ampliador da cultura na economia, emprego, outros setores é constantemente ignorado.

Não seria tão grave termos as percentagens que o estudo mostra, se fossemos um país maior, se fossemos mais gente. Os números absolutos destas minorias seriam maiores. Mas não, somos um país pequeno e aparentemente cada vez mais pequeno, cada vez com menos dinheiro, cada vez com menos gente licenciada que emigra.

Tenho depressão para algum tempo.

Confissões e vocações.

Como sempre nestas coisas, começo pelo disclaimer, sou funcionário da Portugal Telecom. Dito isto, este post vem a propósito da fusão hoje anunciada entre PT e Oi. A Portugal Telecom assume sem margem para dúvidas (se ainda as houvesse), a sua vocação atlântica, lusófona, o que lhe queiram chamar.Ora isto, como acontece com estas coisas, pôs-me a pensar sobre o país, a sua história, o seu lugar no mundo e, para reduzir um bocadinho a escala, aquilo que a mim me move em particular.

Não é de hoje que Portugal é uma nesga de terra virada para o Atlântico, com o Mediterrâneo ao virar da esquina e a tentação europeia a chamá-lo por cima do ombro. Vivemos com estas três vocações a tentar despedaçar-nos. Antes de sermos país, o Mediterrâneo invadiu-nos, depois de uns séculos de magra tentação europeia virámo-nos para o Atlântico e demo-nos bem. Mas a riqueza deu-nos para o desperdício e as embaixadas com elefantes. Fomos para o mar mas queríamos era ser europeus. À lenta desagregação do projeto atlântico sucedeu a marginalização do projeto europeu por via de um bolorento "orgulhosamente sós". Chegámos tarde à Europa, comemos tudo o que nos deram como criança esfomeada que éramos e apanhámos com a crise na mesma medida em que nos tínhamos entregue. E espantamo-nos que quem tanto nos dava, agora tanto nos peça. Não há almoços grátis.

Perdoem-me o resumo cabotino acima mas o que eu queria dizer é que entre as empresas portuguesas, a Portugal Telecom é das poucas que percebeu que há que ser do mundo para ser inteiro. E há que ser inteligente ao fazê-lo. Ninguém nos leva a sério no norte do mundo? África continua o seu percurso difícil? Vamos então para o Brasil e em força. Seja. Parece-me um dos poucos caminhos que nos resta na globalização. E naquilo que conseguimos fazer, a hipótese de pertencer a algo maior que a nesga de terra.

A minha dúvida é mais pessoal. Cresci com a ambição da Europa e da civilização europeia, uma questão geracional e recorrente no país. Fui educado sobretudo na cultura do hemisfério norte e nunca cheguei a ser cidadão do mundo. Nunca viajei abaixo do equador. Apaixonei-me pela literatura anglófona, pela civilização ocidental e os seus cânones, a sua ambição, triunfo e decadência. Alguns piscares de olhos ao sul sempre dei, sobretudo por via da música. Mas por via da música, a todo o lado dou piscares de olho.

Sou muito português, nesta Lisboa sempre aconselhada a não ser francesa (ou inglesa ou catalã ou seja o que for). Nunca quis emigrar e tenho cada vez mais amigos emigrantes. Trabalho desde hoje numa multinacional com ambições globais. E pelo país, saúdo a lucidez do movimento. Por mim vou continuar a trabalhar, ler, escrever, ver filmes, ouvir música, estar com amigos onde quer que estejam. O resto logo se vê.

Sobre a Gaiola Dourada

Primeiro as referências. Não li o texto do Miguel Esteves Cardoso sobre o filme, muito menos o do Abominável César das Neves (este nunca leio, por questão de higiene mental) mas li o do Daniel Oliveira em resposta ao segundo.

Em segundo lugar, as qualidades cinematográficas, em abstrato, do filme. É uma comédia de costumes, de famílias e vizinhos, bem escrita, bem interpretada, escorreitamente filmada. O cenário é Paris e um pouco do Vale do Douro, fotogénico por excelência. A banda sonora não está mal, o resultado é um entretenimento médio, sólido, umas gargalhadas que descontraem. Um filme do género nem-se-passou-mal-esta-hora-e-meia.

Em terceiro lugar, saí da sala de cinema e disse "eu gostava mais deste filme se não fosse português". Não acho que os portugueses sejam maltratados ou alvo de troça tonta, de alguma forma. Há uma certa ternura. Acho aliás que algum do efeito humorístico é piscadela de olho só para portugueses e maltrata, eventualmente, mais os franceses. O meu problema não era esse.

O meu problema era um retrato dos portugueses "pacatos e trabalhadores, poupados e prudentes", um povo sem grandes ambições, dominado pelo fado e pelo futebol, à espera de ser salvo da sua condição por um qualquer milagre. Um povo condenado a fazer um dia-a-dia o-melhor-que-se-consegue ao serviço de alguém. E, na trama do filme, a salvação desta condição, é "ex machina". Não advém do esforço de ninguém, não é uma recompensa direta por determinada ação, vem de fora: é uma herança, um euromilhões, um salvador, uma padeira de Aljubarrota, um herói, um Ronaldo, uma revolução, um Sebastião. Já estou a rimar, não tarda nada também canto o fado.

Depois pensei mais um pouco. E percebi que o problema não era português. Que aquele não era sequer um filme sobre portugueses. Era um filme sobre pobres que trabalham para ricos. Podia passar-se nos Estados Unidos com mexicanos, na Alemanha com turcos, em Portugal com cabo-verdianos eventualmente. É só trocar a música, trocar os heróis do desporto, corrigir as ementas e os palavrões, apurar os trocadilhos e servir da mesma maneira. Acontece apenas que, no estado do mundo, tirando vá, um ou outro momento da nossa história, Portugal sempre esteve do lado dos pobres.

O problema do filme de Ruben Alves, do ponto de vista político, no sentido nobre da palavra, e visto que aí chegamos agora, é que mistura na sua salada a resignação, a luta diária e a hipótese de algo melhor. Mas essa hipótese, ainda e mais uma vez, é algo que vem de fora, algo que não depende de nós, algo pelo qual temos de esperar ou, para quem é disso, rezar. E se houver oportunidade... fugir. E isso entristeceu-me nesta comédia.

Box-office e outros mistérios.

O filme "Mistérios de Lisboa" de Raul Ruiz, para além do sucesso internacional, está a correr bem também por salas portuguesas. São quatro hora e vinte sete minutos de filme, estreado em apenas sete salas, necessariamente com um número mais reduzido de sessões por sala.

Olhando, contudo, o ranking do box-office nacional fornecido pelo ICA e fazendo algumas contas, chega-se a conclusões interessantes. "Mistérios de Lisboa" tem uma receita bruta por sessão de 193 euros no último fim-de-semana, enquanto "Gru, o Maldisposto", que é o mais visto, tem 287 euros por sessão. Note-se que os bilhetes para a maior parte das sessões deste último são mais caros, 3D oblige. Note-se ainda que o segundo filme mais visto, de nome "É a Vida" gera apenas 180 euros brutos por sessão.

Mostrar cinema em Portugal não é um grande negócio, mostrar filmes de quatro horas e meia é um risco brutal, mas quando a qualidade da obra é inegável, surgem algumas surpresas interessantes. Vale sempre a pena repetir o trailer:

 

Cinema Português e Literatura Portuguesa

Estamos num momento particularmente feliz para a relação entre o Cinema Português e a Literatura Portuguesa.

O "Filme do Desassossego" de João Botelho anda pelo país em exibição. O livro respectivo de Bernardo Soares / Fernando Pessoa exigia uma abordagem corajosa, que lhe garantisse o espírito e a letra e foi exactamente o que aconteceu, em palavra, em imagem, em música. Uma Lisboa encantada filmada como poucas vezes, música de gente como Ricardo Ribeiro, Lula Pena ou Eurico Carrapatoso, visualmente deslumbrante, com Alexandra Lencastre como "Centro de Mesa". E no meio disto tudo, as palavras, sempre as palavras. Não podia pedir mais. Se estiver num cinema perto de vocês, por favor aproveitem.

 

 

Estreia para a semana "Mistérios de Lisboa" de Raul Ruiz, baseado na obra homónima de Camilo Castelo Branco. Tem estado a fazer a ronda dos festivais (Toronto, Nova Iorque, etc.) e tem sido merecidamente coberto de encómios. Nas palavras de Manohla Dargis no New York Times, "one of this year's finest offerings". Tive oportunidade de ver o filme num visionamento há uns tempos, cortesia da distribuidora, e não podia concordar mais.

No filme, como na obra de Camilo Castelo Branco está presente a tradição novelesca portuguesa: filhos bastardos, ricos e pobres, casamentos e des-casamentos, padres, freiras, emigrados no Brasil que regressam, damas francesas misteriosas. É daqui que vêm as telenovelas que hoje pavimentam o panorama audiovisual português e no filme reconhemos delas alguns actores como Ricardo Pereira e Maria João Bastos (nas salas neste momento também na curta "Shoot Me" de André Badalo), mas Raul Ruiz tira deles capacidades de representação que nunca julguei possíveis e encena-as magistralmente com a sua câmara. O resultado está tão longe quanto possível do enlatado televisivo e perto da obra prima.

O filme é longo mas passa a correr. Para quem não quiser ir vê-lo ao cinema, estreará no ano que vem no Arte e na RTP. Mas muito sinceramente, vale a pena ir vê-lo a uma sala escura.

 

 

Por fim, abriu ontem o Doc Lisboa o que é com toda a certeza um dos filmes portugueses do ano, "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes. Contra todas as adversidades que servem de escolho habitual ao cinema português mas ainda mais ao documentário português, o realizador de "Autografia" acompanhou José Saramago e Pilar Del Rio durante quatro anos, filmou cerca de 240 horas e passou um ano e meio a montá-las. O resultado é um retrato íntimo de um amor, de uma vida que se aproxima do final, de um escritor cuja literatura vai permanecer, de um homem e de uma mulher movidos pela vontade de deixar uma marca no mundo com as suas ideias, a sua emoção, a sua obra.

O sentido de humor de Saramago, de Pilar, de Miguel, a perfeição do olhar documental, a música do David Santos (noiserv), tudo contribui para criar um objecto cinematográfico como há poucos.

Nunca fui um Saramaguiano. Li pouco do que ele escreveu, não mais que dois ou três livros, nunca me envolvi na discussão da defesa da sua obra ou do seu confronto com outros, mas o retrato que "José e Pilar" me oferece, universalista, português, lutador, permeado de uma ética inabalável e de um amor de pedra, só me podem fazer recomendar o filme sem reservas. Portugal não é este canto assolado pela tormenta da nossa depressão, Portugal é uma língua no mundo e uma vontade de ficar.


Da língua.

Há um pequeno rectângulo no mosaico de ilustrações da capa da última Monocle que menciona Portugal. Mesmo antes do final da revista, descobre-se uma reportagem em texto e imagem de umas 15 páginas (creio) sobre os Jogos da Lusofonia. É interessante perceber como, vistos de fora, os Jogos da Lusofonia são uma grande festa multicutural, parte de uma opção política de influência global baseada na língua.

Vista daqui, a política portuguesa para a língua respectiva é um caos político de ministérios que adoram embirrar uns com os outros e raramente se entendem: Cultura, Negócios Estrangeiros e Educação, só para mencionar os mais importantes. Perde-se mais tempo nas minudências e implicações com o Acordo Ortográfico (na maior parte dos casos com desconhecimento de causa) do que a discutir o que raio é essa coisa de "uma política da língua". E há sempre a proposta de fazer um museu e arrumar o assunto.

Não tenho nenhuma ideia mirabolante para a política da língua, mas algumas coisas parecem-me evidentes. Portugal, país de origem da dita língua, é cada vez mais o país com menos falantes da dita. Há sempre qualquer coisa de neo-colonial numa política transnacional da língua. A língua portuguesa é rica, vibrante, plena de invenção e mutação, nomeadamente ao nível da escrita, do romance, da poesia, da canção. Os media (os portugueses, os outros não sei) tratam a língua abaixo de cão, nem sequer a sabendo falar, muito menos escrever. É talvez consequência de um sistema educativo que se marimba cada vez mais na dita língua.

Eventos como os Jogos da Lusofonia, políticas abertas e cruzadas de emigração, promoção da cultura e da educação miscigenada, global e admitindo a diferença dentro da língua portuguesa, das múltiplas culturas que tocou, parecem-me ser o mais interessante, divertido e produtivo caminho de futuro. Entendam-se, por favor.