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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Pelos bosques.

As fotografias são de Santiago Mostyn (as duas primeiras) e Stefani Pappas (a terceira). O texto é um rascunho meu.

 

Fecha os olhos e lembra-se bem de correr pelos bosques, quantos anos tinha? sem saber onde ia pousar os pés, evitando por pouco a sombra das árvores, arbustos a arranhar-lhe as pernas, correndo, a t-shirt encharcada sobre a pele, de baixo para cima, dos calções para o pescoço, ainda o cheiro a arder-lhe nos olhos, depois de nadar de noite na piscina. Os primos desistiam de esperar por ele e quando voltava, nadava sozinho, a água e o cloro a picar-lhe os arranhões. Os braços afastando o escuro, desengonçados. O medo no peito, o fôlego a fugir-lhe, o peito a arder. Não posso mais, não posso mais. Pára junto a uma árvore. Quanto correu? Pára debruçado sobre o chão, as mãos pousadas nos joelhos. Deixa-se cair e fica a respirar ainda com dificuldade. Deixa-se cair no chão e por entre o vento e as árvores, lá em cima, longe há estrelas e talvez nuvens, sim, já nuvens. Que estranha a sombra mais clara das nuvens no escuro da noite. O que é que eu faço?

 

A Casa.

Josef escolheu a casa no próprio dia em que voltou à cidade, ou se calhar a casa escolheu-o a ele ou tudo era apenas uma coincidência sem mais nesse dia estranho de regresso, fim de Novembro de 1972, um dia de um vento chuvoso que varria as fachadas dos prédios, abanava os candeeiros, os semáforos e as árvores por igual, as folhas caídas aninhavam-se nas bermas e sarjetas, morriam em tapete debaixo dos carros e dos transeuntes encharcados nas suas penas diárias, trabalho, estudo, o que fosse. Pelo chão, guarda-chuvas de todas as cores, esqueletos abandonados da batalha, os tecidos ainda estremecendo como velas de navios encalhados por entre rochedos.
Trazia com ele o pó vermelho do deserto, nos bolsos, nos sapatos por dentro e por fora, nas orelhas e no cabelo, debaixo das unhas, no nariz, o cheiro fino da pedra, do calor e aterrou ali mal agasalhado no temporal ao fim da tarde, saltou para um táxi preparado para enterrar o pai, falecido alguns dias antes num macabro acidente de viação. Deu ao condutor a sua morada de sempre. Deixara aquele lugar duas semanas depois de a mãe morrer, voltava alguns dias depois de o mesmo suceder ao pai. O telegrama chegara-lhe numa trincheira, talvez num jipe, num trilho sem nome, talvez com uma patrulha atrás de uma colina vigiando um oásis, o cansaço impedia-lhe uma recordação precisa. Agora, ali sentado no mofo do banco de trás de um carro que rangia e protestava contra o temporal, a mão direita estremecendo ligeiramente, foi tomado de um ataque de pânico ao imaginar-se a entrar na casa vazia onde escutaria os fantasmas, não só os dos pais, mas o seu também, de há tanto que a abandonara, quase esquecera.
Pediu para ficar antes numa esquina qualquer, com a sua mala, a sua mochila com a máquina fotográfica e uma dúzia de rolos por revelar, outros tantos ainda por fotografar. Ali estacou, lavado pelo vento e pela chuva, olhando com curiosidade a água avermelhada com o pó, escorrendo-lhe da roupa, dos sapatos, da pele, uma pequena poça de lama, um rio vermelho (não muito) que se juntava ao que corria na sarjeta. Foi apenas o medo de que a persistência da chuva penetrasse o tecido da mochila, lhe estragasse a máquina e o filme, mais habituados por esta altura aos rigores do calor e do pó do que ao tempo do hemisfério norte, apenas isso o fez procurar abrigo. Olhou em volta mas não viu a luz de nenhum bar ou café, nenhum porto, apenas a entrada de um prédio para se abrigar, ficar a olhar a cidade a soçobrar ao anoitecer, os faróis ocasionais dos carros a varrer tudo, sinistros antes dos candeeiros acenderem.
Era a cidade fantasma que o acolhia, as poucas pessoas apenas sombras ao longe curvadas correndo contra a chuva. Pensou em fotografá-las, mas não havia na mochila ou no bolso do colete nenhum rolo com a sensibilidade apropriada. Os rolos que lhe tinham sobrado eram para a luz cruel do deserto, se os usasse ali, sairia apenas um borrão. Na altura não gostava de borrões, gostava de nitidez pura e bem iluminada, uma nitidez que realçasse as imprecisões do mundo, ele próprio por natureza desfocado. O pai oferecera-lhe sem mais conversa ou justificação uma Leica M3, quando Josef decidira ser fotógrafo, há coisa de dez anos e era ainda a única máquina que usava. Colegas sugeriam-lhe a Nikon F, robusta, ideal para ele, mais do que uma máquina, pelo menos, nenhum dos outros usava apenas uma, mas Josef recusava. Três anos depois, a mãe morrera, decidira o seu futuro e pedira ao editor para o enviar como foto-repórter para o estrangeiro. O país enjoava-o. O pai levara-o ao aeroporto. Vira-o pela última vez ainda de luto, num abraço circunstancial e um pouco embaraçado de despedida. Um miúdo de vinte e dois anos e o seu pai à entrada de um aeroporto em 1965.
Era inexacto dizer que tinha sido um telegrama a avisá-lo do acidente. O telegrama existira sim, mas seguira para a embaixada de um país amigo num país vizinho. Daí um encarregado de negócios fizera os necessários quilómetros até à fronteira e contactara um rapaz numa aldeia amiga do grupo que Josef andava a fotografar. Esse miúdo magricela fizera-lhe chegar a notícia. Curiosamente nada se perdera no conteúdo, sucinto e assassino. “Pai morto em acidente. Stop. Pede-se regresso imediato à capital. Stop. Apoio na embaixada e jornal. Stop.”
Esquecia-se com frequência de que trabalhava num jornal, uma morada distante para onde enviava os seus rolos por revelar ou quando tinha raro tempo e condições, algumas fotografias já impressas. Não via um exemplar há meses, muito menos um que contivesse uma fotografia sua. Passara por um quiosque há coisa de um quarteirão, no táxi, mas já estava fechado. Pagou a viagem com notas que guardava há sete anos. Estivera muitas vezes em casas de câmbio, legais e ilegais, trocara dólares, francos, libras e marcos em esquinas, nos lugares mais improváveis, mas aquelas notas eram as mesmas que o pai lhe tinha dado no aeroporto. Não sabia que horas seriam. Não sabia exactamente onde estava, que ruas eram aquelas que se cruzavam naquele ponto onde convergiam com a fúria do tempo. Sentiu-se estrangeiro, ali mal abrigado dos elementos, encharcado olhando.
Viu a mulher atravessar a rua e enfiar os restos do que fora um guarda-chuva num cesto de papéis, antes de se juntar a ele na entrada do prédio, a sua figura escorrendo água, desequilibrada pela chuva diagonal.
– Veio ver a casa?
– A casa?
Olhou para a rua vazia.
– Deve estar um seis ou sete na escala de Beaufort.
– Desculpe?
– É a escala que mede a força do vento. Foi inventada no século XIX por um huguenote irlandês. Bom, descendente de huguenotes. Num sete, torna-se difícil andar contra o vento. Os chapéus de chuva são completamente inúteis.
Josef não soube o que responder. A mulher olhou para ele, sacudiu a gabardine, sorriu um sorriso artificial de vendedor e estendeu-lhe a mão num cumprimento.
– Chamo-me Eleanor (como a Roosevelt) mas Von Der Goltz, no meu caso. Talvez descendente de huguenotes também. Chegou hoje do estrangeiro? – Aponta a mala de Josef com os olhos mas não espera pela resposta. – Adoro viajar. Acho que toda a gente devia poder viajar. Toda a gente devia fazer parte do jet set. Tenho uma ida a Paris agendada para a Primavera, mas tenho de vender mais umas casas antes – e riu-se alto, num tom tresloucado. Os seus brincos chocalharam. – Vamos ver o apartamento?
Josef passou uma mão pela cara e encolheu os ombros sem perceber mas Eleanor tomou o gesto como um sim.
– É um terceiro andar – disse, debruçando-se sobre a fechadura – mas tem serventia do sótão no quarto andar. Não é um sótão pequeno, são umas águas furtadas, com duas janelas, dá para fazer uma sala grande, um loft, um boudoir mais secreto, se preferir ou mesmo um pequeno apartamento, um segundo apartamento. Tem água corrente.
A porta abriu e Josef pegou na mala e na mochila e seguiu-a mecânico para o interior, sempre se estava melhor. A mulher procurou um interruptor, acendeu uma lâmpada tímida no cimo de um tecto alto. Tinha pouco mais de trinta anos e Josef achou-lhe piada, assim de maquilhagem desfeita, de roupa desarranjada pela tempestade, um pouco excessiva, um pouco louca. Ocorreu-lhe que podia fazer uma série de fotografias de pessoas assim, desarrumadas pela chuva.
A entrada do prédio era talvez do século XIX, um elevador antigo, com porta em grade e as paredes apaineladas a madeira com um espelho ao fundo. Viu-se e não se reconheceu, barbudo, cabeludo. A mulher, com certeza, duvidara do seu aspecto de vagabundo, de hippy, mas fizera-se moderna, saia curta, saltos altos, um cliente era um cliente e Josef não desfizera o equívoco. Estava ali para mostrar uma casa e se não aparecia mais ninguém, era a ele que a mostraria. Pensou em virar costas e escolher um hotel para passar a noite, dormir um sono reparador, ignorar tudo aquilo, mas admirou-lhe a tenacidade e decidiu subir, fechou a grade do elevador que com um solavanco se foi içando pachorrento para o terceiro andar.
– Espero que tenhamos luz na casa, para poder ver – e olhando de esguelha para o seu colete encharcado, as calças enlameadas, a sua mala velha, a sua mochila – mas acho que se quiser, pode mudar já hoje. Terá provavelmente de dormir no chão. – E riu-se de novo.
Um refugiado na sua cidade. Um engano, aquela mulher esborratada pela chuva, Eleanor, o cabelo pingando, num vestido demasiado estreito e curto, numa gabardine demasiado larga, à sua frente procurando uma chave num molho de carcereiro e falando e rindo incessantemente, assim se encontraram, a casa e ele, chegado do deserto e da violência para a morte do seu pai, para a ausência dos seus pais.

Rascunho.

Pediu para ficar antes numa esquina qualquer, com a sua mala, a sua mochila com a máquina fotográfica e uma dúzia de rolos por revelar, outros tantos ainda por fotografar. Ali estacou, lavado pelo vento e pela chuva, olhando com curiosidade a água avermelhada com o pó, escorrendo-lhe da roupa, dos sapatos, da pele, uma pequena poça de lama, um rio vermelho (não muito) que se juntava ao que corria na sarjeta. Foi apenas o medo de que a persistência da chuva penetrasse o tecido da mochila, lhe estragasse a máquina e o filme, mais habituados por esta altura aos rigores do calor e do pó do que ao tempo do hemisfério norte, apenas isso o fez procurar a entrada de um prédio para se abrigar, ficar a olhar a cidade a soçobrar ao anoitecer, os faróis ocasionais dos carros a varrer tudo, sinistros antes dos candeeiros acenderem.

Família.

Ia eu passando pela rua, conta o meu avô, pela rua ali em Pinelo e vi uma menina muito bonita à janela. Acentuava o muito, reforçava a beleza da que viria a ser a minha avó, muuuuuito bonita. A minha avó sorri e encolhe os ombros. A sua irmã, tia de minha mãe ri-se ronceira como se cansada da história e depois pica o meu avô, mas foi a mim que me viste e não à minha irmã. E o meu avô não desmente. Só que quando bati à porta, persiste ele, quem abriu foi a tua irmã. E foi com ela que acabei por casar.
Não bateu à porta para perguntar pela beleza da mulher da janela, veja-se. Bateu à porta porque era caixeiro viajante e lhe ocorreu como boa desculpa para entrar naquela casa, tentar vender atoalhados, roupa de cama, tecidos para cortinados que trazia em amostras numa mala grande. Era por ser caixeiro viajante, aliás, que se encontrava em Pinelo, por aquela hora de almoço, de mala pela mão, depois de uma extenuante manhã de loja em loja, a pé, à boleia, nas carreiras irregulares dos autocarros, tentando convencer quem precisava de ser convencido da qualidade do produto que trazia.
O meu avô conhecia a pé, de burro, camião, carro, o que calhasse, o lado de cá e de lá da fronteira norte do país, mas nunca lhe ocorrera emigrar. Em boa hora, se o tivesse feito, não teria passado naquela rua, visto aquela menina à janela, a que viria a ser minha avó, conta ele uma vez mais.

 

Estamos todos no quarto do lar onde as enfermeiras, sargentos daqueles corredores, as funcionárias de função incerta, soldados que mantêm os velhotes na ordem, autorizaram que subisse a cadeira de rodas de minha avó para celebrar os seus oitenta e nove anos. Coro por dentro, no peito, na ideia e nas pernas que me fraquejam ao pensar que me sinto velho com ainda não quarenta e o meu avô, de fato e gravata, muito composto, lenço no bolso, da mesma cor da gravata, anima toda a gente com as suas histórias e os seus gestos e os seus noventa e quatro anos de energia.
Toda a gente sou eu, a minha mãe, sua filha, o irmão dela, amuado como é costume, junto a uma janela fumando uma cigarrilha, a tia de ambos que insistiu em estar presentes e o terceiro irmão, ele próprio já velho e cansado, afundado na poltrona do canto. Sou o mais novo, com trinta e oito anos. Dentro de dois, a minha mãe terá setenta. É mais nova cinco anos que o irmão. A tia que tantos anos depois ainda insiste que era ela quem estava à janela vai fazer oitenta e cinco e o seu irmão viúvo, triste na poltrona a recordar a mulher, é o mais novo dos três, uns escassos oitenta e dois.
Tantos anos juntos provocam-me uma tontura, mas talvez seja o ar morno e abafado do quarto, talvez do pequeno-almoço distante e do almoço que não chega. Talvez seja o coro de vozes que irrompe por entre as recordações, desmentindo-se, reforçando, comentando, o meu avô, a sua cunhada, a minha mãe, até o velhote no sofá do canto, mandando as suas bocas certeiras dos lábios finos, mãos manchadas da idade rasgando o ar. Apenas o meu tio e os seus cigarros e a minha avó na sua cadeira de rodas se mantêm calados.
Que vale mais a pena decifrar? Os silêncios ou as vozes?
Sei o resto da história, de como a minha bisavó ofereceu almoço ao meu avô. Rosa, quem está aí? Vende o quê? E vais ficar aí a conversar à porta? Isso não é de menina bem educada, manda entrar. Imagino-a solene como as bisavós são solenes, sentada à cabeceira da mesa, uma irmã de cada lado, o meu avô de frente, tímido de se ver assim arrastado para aquela casa sem pai. O meu bisavô andava no mar. Mas também divertido e de conversa esperta para as meninas e a sua solitária mãe.
Lá fora as árvores valsam no vento, quase lhes conto os compassos e os gestos e o fumo da cigarrilha do meu tio perde-se no mesmo gesto contra o céu azul muito azul e as nuvens de algodão limpo. Talvez as observe, talvez esteja apenas farto de tanta velhice, daquelas histórias que o perseguem desde a infância. Perco-me eu também, nesta teia. Chego-me a ele.
– Quantas vezes já ouviu esta história?
Olha-me sobressaltado, não me esperava cúmplice. Sorri.
– Muitas. Desde sempre. E nem tenho a certeza se é verdadeira. – Procura onde apagar o cigarro. – Mas não interessa muito, é uma história bonita. O meu pai sempre teve jeito para histórias.
Apaga o cigarro no parapeito do lado de fora da janela e deixa-o cair para um canteiro abaixo, junto à parede. Vira-se para mim como se me quisesse ver bem, como se não tivesse a certeza de ser eu ainda, tantos anos depois daquelas tardes em que me levou a comer tostas de queijo numa esplanada para o lado do rio com uma mulher com quem não era casado, apesar de ser casado.
– Como estás tu, Samuel?
– Bem, está tudo bem. Nenhuma novidade. A vida de professor é de uma regularidade aborrecida. Nenhum aluno talentoso para a animar.
– Nenhuma namorada?
Sorrio, penso em Miranda, mas não respondo. É a voz inesperada da minha avó que nos distrai.
– Sempre foste uma invejosa, Antónia, foi para mim que ele olhou. Era a mim que ele queria. – E fica um silêncio de expectativa. Mas por estes dias, a minha avó é assim, apenas uma frase de vez em quando, com uma voz de força e um olhar intenso que não diz nada. Fala apenas quando entende necessário, cada vez menos coisas, à medida que o tempo passa.
– Ai minha Rosinha, minha flor, tão linda. – Diz o meu avô e passa-lhe a mão pela cara. Troca um olhar com a minha tia Antónia que morde o lábio para não responder à irmã. Histórias, verdades, mentiras, traições, amores, a acumulação de coisas de que as famílias são feitas, o cansaço do tempo. A minha mãe ajeita a manta nas pernas da sua mãe.

 

Desculpo-me. Que tenho de ir à casa-de-banho, que volto já, e saio para a penumbra do corredor, onde o ar é marginalmente mais fresco, a luz mais contida. Nas paredes estão quadros sem qualidade, provavelmente pintados pelos inquilinos do lar. Vem ainda a voz do meu avô, contando outra história sobre o nome da minha avó, nome de flor, ou talvez cantando uma canção, não chego a perceber. Suspiro de um alívio temporário.
Sou neste momento, o ponto final de uma destas histórias, filho único dos meus pais, solteiro. O pânico súbito desta solidão aflige-me por um instante, passo ante passo a caminho da casa de banho, roçando os nós dos dedos pela parede rugosa, pelo varão de madeira que serve de apoio aos de pernas frágeis, quase todos ali, na verdade.
Tiro o telemóvel do bolso e ligo a Miranda.

Sobre Barcelona.

No "Regresso a Barcelona" existe um livro dentro do livro, o guia da cidade que Aquiles está encarregue de escrever. Já no "Em Silêncio, Amor", tinha esboçado uma história dentro da história, "As Três Bruxas de Truro". Aqui, contudo, o guia fica-se em fragmentos. Coligi aqui abaixo, aquilo que poderiam ser notas e parágrafos dispersos rascunhados por Aquiles nos seus blocos e cadernos.

 

Inevitável sonhar contigo hoje.
Barcelona amanhece ventosa e tudo nela parece por isso mais nítido. O vento lança em fuga o pó e o lixo disperso que máquinas de diversos tamanhos tentam sugar obsessivamente dia e noite. Motoretas ruidosas que me acordam, pequenos tractores, grandes camiões a horas inconvenientes. Por muito que façam, não dão à cidade a nitidez com que um pouco de vento a varre.
Não me lembro de estar em Barcelona em silêncio, seja qual for a hora. Há sempre um eco distante que percute nas paredes e soçobra nas varandas. É contudo provavelmente verdade de todas as grandes cidades que nunca dormem. Barcelona talvez...
Não me lembro de haver senão tristeza subterrânea na minha vida. Um rio de tristeza, um rio de lágrimas ensurdecedor. Não, um mar. A tristeza vai aquecendo na superfície e começa a evaporar quase sem dares por ela. De repente é uma nuvem negra imensa, chuvas, ventos ciclónicos e tomba sobre ti no teu pequeno barco. Tu perguntas: isto não era só um oceano tropical e a tristeza uma corrente profunda? Acabas a ir pelos ares.
Com todo este ruído, como conseguir sequer conversar?
As Ramblas vibram já de passarada barulhenta e turistas pasmados tagarelando em frente a homens estátua, à espera que lhes roubem a carteira ou tirem uma foto. Há carros, lambretas, motas a sério, todos com buzina, um brado sem tino, um ocasional polícia. Louve-se os homens estátua, parecem ser os únicos que não fazem barulho. Americanos, italianos, holandeses, franceses, espanhóis e portugueses, claro. Há portugueses em todo o lado. Além de grupos acidentais de sul-americanos. Esses talvez sejam imigrantes recém-chegados. Passa-lhes o ímpeto turístico quando tiverem de penar à procura de sustento na cidade dos prodígios. Poucos japoneses, anoto.
Sinto-me cercado. Precisava de ser um homem-bomba para libertar algum espaço. São milhares, gordos de calções, crianças com trela, mulheres de chapéu, bêbedos com camisolas de futebol de todos os clubes do mundo que param em frente aos quiosques para comprar mais uma. Já aqui tinha estado num domingo? Há índios a tocar Beatles em flauta de pã ligada a amplificadores de má qualidade. E pequenos geradores na berma a somar-lhes barulho. Grupos de três ou quatro jovens que dançam acrobaticamente ao som de hip hop vomitado de ghettoblasters enormes.
As Ramblas são um rio lamacento de gente sem destino, sem direcção, tantos os que sobem como os que descem, derivam para as ruas laterais, voltam à grande corrente, enfrentam os escolhos. Pelo meio, aqueles que têm realmente alguma coisa para fazer tentam ser peixes, descobrir atalhos na contra corrente, escorregar entre os diálogos eternamente repetidos em todas as línguas. “Vamos ali?”; “Espera, o (inserir nome) ficou para trás”; “Aquela loja tem um ar giro”; “Que máximo, aquele!”.
Viro à esquerda no Carrer de Bonsuccés apesar de estar a poucos metros do fim da Rambla. Procuro as ruas mais estreitas, a sombra, os ecos mais distantes, uma ou outra loja de música talvez. Em frente a um pequeno largo (não mais que quatro árvores a roçar as fachadas e umas cadeiras com gente), três arcos em pedra distraem-me a curiosidade. Atravesso o do meio e entro numa praça maior.
Do lado nascente é um edifício único com arcadas semelhantes às por onde cheguei, paredes pintadas cor de tijolo e janelas regulares, tudo geometricamente arrumado, apesar das lojas e de um outro sem abrigo. Numa das janelas, um anúncio de uma imobiliária, “Se alquila”.
O lado poente é mais honesto, com edifícios irregulares no desenho das fachadas e número de andares, terminando no que deve ter sido uma fábrica e é agora uma série de lofts de grandes janelas envidraçadas e parede caiada.
Vou entrando na esperança de alguma magia escondida, apesar das motas estacionadas, das portas metálicas de enrolar grafitadas, o mais vulgar que há em Barcelona. Ao meio, um parque infantil e meia dúzia de grandes árvores numa geometria desorganizada e chão de areia. Ouvem-se crianças e pássaros pequenos e só distante o resto das coisas. Em volta, árvores de tronco mais fino, uma guarda de honra à majestade das outras, mais idosas.
Ao fundo continuam as arcadas e um café com mesas na rua aconchega-se na sombra certa. Ao aproximar-me, apercebo-me de que são três estabelecimentos separados.
Barcelona é uma cidade com alguma coisa para toda a gente. Os consumistas têm lojas e mercados para todos os preços; os amantes de música têm todo o tipo de concertos e salas de espectáculos, numerosas lojas de discos; os fãs de desporto têm futebol, motas, carros, ténis, os melhores do mundo; os amantes de arte têm Miró, Picasso, Gaudi e uma cena cultural contemporânea vibrante; os gourmets têm tapas em tascas soturnas ou requintados restaurantes; os que se querem perder têm toda a espécie de labirintos; os engatatões têm mulheres e homens bonitos para os gostos mais audazes ou mais comuns; os carteiristas têm todos estes distraídos com as suas paixões e aquele a quem o coração for partido, tem a Pedrera, o teleférico de Montjuïc ou as eternas obras da Sagrada Família de onde se suicidar.
A diferença primeira entre a Catalunha e Portugal, Barcelona e Lisboa parece ter sido enunciada com clareza por um amigo meu que falava já nos braços de Baco, copo de Martini na mão. Uma vive virada de costas para a outra. Da maneira óbvia, claro, uma sobre o sítio onde Tejo e Atlântico se confundem, a outra sobre o Mediterrâneo. Mas é mais que isso.
Barcelona sempre viveu para o futuro, Lisboa para o passado. Numa e noutra isto não é preto e branco, apenas um espírito que permanece. Nem sequer é necessariamente uma coisa boa ou má. É apenas uma maneira de ser, como as pessoas são nisto também diferentes. O meu amigo aliás, falava de pessoas, fui eu que me lembrei de como isso se podia aplicar às cidades.
Para mim, não é um juízo de valor. Muitas vezes temo tanto o futuro quanto lamento o passado. Pudera eu ser imóvel como um farol, contemplando o tempo todo e tomaria uma decisão. Nessa impossibilidade, declaro o meu amor por ambas as cidades.
É um amor condicional, veja-se, pois tanto lamento as aberrações de uma como da outra. O orgulho catalão causa-me tanta alergia como a saudade portuguesa. Todos os nacionalismos e seus derivados me causam uma irritação cutânea que procuro coçar enfiando os dedos no couro cabeludo.
Estranho, não é? A música sempre foi uma arma de patriotas e revolucionários. Por algum motivo temos hinos oficiais e não romances oficiais e quadros oficiais. E tantos dos compositores que canto lutaram com música pelo seu país.
Apaixonei-me e fui para Barcelona, mas tenho a noção de que o mais normal seria o contrário. Chegar primeiro, apaixonar-me depois. Raras são as pessoas que não se apaixonam por esta cidade entre o perfume antigo do Mediterrâneo e a modernidade pós-industrial. Comigo foi como disse. No dia a seguir a apaixonar-me, viajei para Barcelona e sendo boa portuguesa que sou, trouxe mais alguma saudade na bagagem. E achei que o Mediterrâneo tinha menos perfume que o Atlântico.
Nada disto foi dramático ou permanente. Apenas na Ópera e no grande Teatro, tudo tem de ser final e definitivo, para que depois de terminada a função, possamos voltar a palco e agradecer. Enquanto estamos vivos, viajamos tão facilmente entre lugares como entre pessoas, presentes e passadas, sempre curiosos sobre o que esconderá o próximo passo. Assim é a cidade.

Diálogo.

– Deixe-me apresentar-lhe. Este é o meu amigo... desculpe, não me disse o seu nome.
– É teu amigo e nem sabes o nome dele, Art?
– Pagou-me um pequeno-almoço de rei. Frango e cachupa. Logo, é meu amigo. Mas assim de repente, o nome...
Nenhum de nós conhecia Art há menos de vinte e quatro horas.
– Aquiles.
– Como o herói?
– Como o herói.
– Está tudo bem com o teu calcanhar? – E espreitou nessa direcção.
– Caro Aquiles, deixa-me apresentar-te a menina Athayde. Soprano de imenso potencial, será uma diva um dia! Encontrei-a sozinha no cais deserto.
– Clara.
Demos dois beijos na cara. Dois.
– Athayde com agá e i grego?
– Como adivinhaste?
– O teu tom de voz pressupunha alguma arrogância no nome.
– Estive a cantar, talvez seja disso.
– Cantar?
– O Aquiles aqui gosta de ópera! – Interpôs Art. – Gostas de ópera, não gostas?
Não respondi.
– Se preferires deixo cair o agá e o grego do i.
Comprazi-me com a intenção de insolência que continuava na sua voz.
– A menina Athayde perdeu o seu transporte para deixar Lisboa, por isso a convidei para a festa.
– Não sabia que ainda atracavam navios de passageiros nos cais desertos da cidade, pensei que apenas poesia. Ou era um cacilheiro?
Baixou os olhos, cerrados pelas pestanas pretas. Passou a tonta entre nós. Lembro-me de ela passar como uma nuvem carregada de chuva. Art seguiu-lhe o rabo com o olhar.
– Era um avião. Só depois de o deixar partir decidi que devia contemplar uma última vez o rio.
– Uma última vez?
– Sim, tenho novo voo daqui a – olhou para o relógio – sete horas.
– Posso perguntar para onde?
– Barcelona. – Respondeu Art pousando-lhe a mão no ombro.
– Turismo?
– Estudo e talvez trabalho.
– Ah, uma emigrante.
– São só três meses... – De novo Art a substituiu na resposta.

Hospital del Mar - Rascunho

Sabes do que me lembrei, Aquiles? Do percurso de minha casa à praia.

Não, não é da casa de Santos à Caparica ou a Carcavelos. Íamos de comboio, de cacilheiro, à boleia, de carro quando havia dinheiro para gasolina, íamos de tantas maneiras. Não é esse, é da casa da minha mãe, da casa de Espinho. Ficava mesmo pertinho da praia, sabias? Aí ia a pé, sempre. Uma casa térrea da parte da frente, com um quarto escondido pelo telhado a fazer sótão. Foi o que me fez mais falta nos primeiros tempos em Lisboa, essa praia. Isso e as estrelas, já te tinha dito.

Fazia sempre o mesmo. Descia as escadas a correr, batia a porta com força suficiente para garantir que a minha mãe me ouvia sair, afastava-me a sorrir com o protesto dela. “Raio do miúdo” era o mais comum. Por vezes berrava o meu nome, “Artur!”. Lamentava-se de não me ter dado um segundo nome, Artur Manuel ou Artur Filipe. O segundo nome dá sempre vigor à reprimenda.

Atravessava o jardim em frente à casa. É um jardim quadrado com uma árvore em cada esquina, mais velhas que eu e tu, troncos sólidos, copas frondosas sem flores. Na Primavera, o círculo de arbustos no meio da praça sim, enche-se de flores brancas, mas as árvores não. Bastava-me descer duas ruas e via já ao longe o mar. Azul, muito azul, o mar. Mesmo com nuvens, um cinzento azul. Se tivesse carneirinhos, estava mau para mergulhar, ondas muito altas, baças e verdes de espuma, a sacudir as pessoas, a levar uma de vez em quando. Sabes o que são carneirinhos? Não sei se sabes, é a espuma que o vento faz no mar alto, como rebanhos. Na maré vazia importa menos, é sempre mais calmo.

Cortava a direito por um descampado. Ouvia grilos e gafanhotos a saltar, às vezes distraía-me e as silvas arranhavam-me os braços ou a cara. Muitas vezes, é verdade, qualquer coisa me distraía, música, lembranças. Não é muito, para aí uns quinhentos metros, mas só depois sentia o cheiro do mar no nariz, o ar fresco na pele. Mesmo nos dias mais quentes, há ar fresco do mar, sabias? É assim em Lisboa? Não me lembro, já não me lembro.

Caminhava pela marginal à procura de um sítio onde a areia estivesse mais vazia, primeiro pela estrada, depois por um estrado de madeira. No Verão tinha de ir até mais longe, mas eu começava a ir à praia logo em Março, Abril. Muitas vezes só desistia no princípio de Novembro e mesmo aí, levava uma camisola e ia passear, sozinho, sem cão, sem companhia.

Deixa-me explicar-te a praia, é uma espécie de história (e tu gostas de histórias): primeiro há uma zona com jovens em grupinhos, bares e surfistas, pára-ventos e guarda-sóis; depois a praia principal, protegida por um esporão de pedra que torna as ondas mais mansas, cheia de miúdos e parolos; a praia das barracas, enorme, famílias, grupos grandes, mar assustador de bravo; só para lá do riacho é que não há quase ninguém, só pessoas como eu, à procura de silêncio e privacidade. O sítio ideal chamava por mim, descobria-o facilmente, o sítio onde eu estendia a toalha, tirava a t-shirt, descalçava os chinelos e saía a correr para o mar.
Levanta-se uma brisa que acaricia a cidade e o meu corpo mal agasalhado com ela. Há tantas coisas que não tive oportunidade de te contar, Aquiles.

Amanhã. Não passa de amanhã.