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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O "2666" merece um post.

Não chego a perceber onde acaba o génio e começa a loucura ou vice-versa, mas consta que é frequente na criação. A estrutura caótica do romance magno do Bolaño - não é tomando caos por desorganização, mas sim no sentido matemático de sistema complexo, dinâmico, instável - deixa-me com a sensação de que ele poderia crescer até ao infinito. Não digo transformar as mais de mil páginas em outras tantas, acrescentando "partes" à história, mas sim num aprofundar de cada momento, de cada situação, de cada lugar e personagem, num infinito de palavras, frases, parágrafos de páginas circulando sem sentido visível entre o texto, o mundo e a imaginação do seu criador.

Não me parece que esteja ao alcance de muitos autores hoje este mergulho sem limites entre vida e escrita, entre existência e história e talvez o único fim possível para esse anel de Moebius seja a morte, ponto final inevitável em todos estes substantivos, em todas as frases por nascer.

O que me fascina mais é que a torrente de criação surge com frequência no texto embrulhada numa perfeição de estilo, ao fascínio da história e da sua progressão demente soma-se um domínio da linguagem e da sua beleza que me parece raro de encontrar. A propósito disto, num autor totalmente diferente, vale a pena este artigo do The Guardian sobre o Don De Lillo, um ourives da prosa.

É improvável que algum dia me consiga comprometer com a escrita da forma que estes, escritores, conseguem, mas fugindo entre as gotas da chuva e o correr do dia, vou tentando o acesso a essa loucura.

Dias no feminino.

Passei uns dias a ouvir Ella Fitzgerald a cantar ao vivo em Hollywood no Crescendo e Jacqueline Du Pré a tocar violoncelo nas suas gravações para a EMI. Foram duas das melhores compras deste princípio de ano.

Ella é Ella e ao vivo, cantando, rindo, swingando, falando com o público, scatando, esquecendo-se das letras, acedendo a pedidos, está no seu absoluto melhor, acompanhada por Lou Levy no piano, Herb Ellis na guitarra, Wilfred Middlebrooks no baixo e Gus Johnson na bateria. A caixa chama-se "Twelve Nights in Hollywood" e está a par do "Sinatra at the Sands" como uma das grandes gravações ao vivo do final de uma era dourada de um determinado tipo de canção, de uma determinada forma de cantar.

A caixa de 17 CDs da senhora Du Pré, que inclui todas as gravações que fez para a EMI custa aqui pouco menos de vinte e quatro euros e os portes de envio são gratuitos, um grande negócio. Do concerto de Elgar às suites de Bach, passando por Beethoven, Haydn, Brahms ou Falla, o repertório é vasto e o acompanhamento luxuoso. A seguir verei o "Hillary and Jackie", já agora.

A tudo isto se somaram os contos de Alice Munro em "Too Much Happiness". O conto é um género que ignoro com maior frequência do que devia. Quando bem escrito, quando genialmente escrito, como é o caso, tem uma dimensão de jóia, de economia narrativa, de prazer de linguagem que escapa muitas vezes aos romances.

Por falar em romances, li dois de seguida mais uma vez de uma mulher, Anne Michaels, uma canadiana que eu arrumaria na estante com Michael Ondaatje. Curioso como alguns dos meus escritores de culto são canadianos, se lhes juntar Douglas Coupland ou William Gibson, por exemplo. A escrita de Michaels radica na poesia e na história, em particular a terrível história do século XX. Diga-se que antes de escrever "Fugitive Pieces" e "The Winter Vault", os que li, foi sobretudo poetisa e deliciei-me também com o seu volume "Skin Divers".

Acho aliás que ela está melhor na poesia, que transparece na sua escrita de emoções, sempre telúrica, mas que muitas vezes parece não carregar a suficiente tensão para aguentar um romance, uma história. Isto reflecte-se aliás na adaptação cinematográfica de "Fugitive Pieces", nunca distribuída cá, que eu saiba. O mal pertence ao passado, à história, a dor é consequência do amor e vice-versa, o Homem vive da sua interacção com a Terra e a nossa capacidade para a poesia sustenta-nos. Se na escrita, Michaels consegue fazer estes elementos brilhar, em cinema é preciso um génio maior.

Bom.

Passados estes dias, mergulhei finalmente no "2666" do Bolaño, que já ia sendo tempo, mas ainda vou no princípio, isto é, na página 250.