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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Discovery

Star Trek: Discovery is an upcoming American television series created by Bryan Fuller and Alex Kurtzman for CBS All Access. It is the first series developed specifically for that service, and the first Star Trek series since Star Trek: Enterprise concluded in 2005. Set roughly a decade before the events of the original Star Trek series, separate from the timeline of the concurrent feature films, Discovery explores a previously mentioned event from the history of Star Trek while following the crew of the USS Discovery. Gretchen J. Berg and Aaron Harberts serve as showrunners on the series, with producing support from Akiva Goldsman.

Beyond.

Watch the new trailer for Star Trek Beyond, featuring "Sledgehammer" by Rihanna.

"Star Trek Beyond," the highly anticipated next installment in the globally popular Star Trek franchise, created by Gene Roddenberry and reintroduced by J.J. Abrams in 2009, returns with director Justin Lin ("The Fast and the Furious" franchise) at the helm of this epic voyage of the U.S.S. Enterprise and her intrepid crew. In "Beyond," the Enterprise crew explores the furthest reaches of uncharted space, where they encounter a mysterious new enemy who puts them and everything the Federation stands for to the test.

Director: Justin Lin
Cast: Idris Elba, Chris Pine, Simon Pegg, Zachary Quinto, Zoe Saldana, John Cho, Anton Yelchin and Karl Urban

A long time ago in a galaxy far far away.

A discussão sobre questões de direito de autor, cópia privada, partilhas na Internet, pirataria e afins está ao rubro e isso incomoda-me. Incomoda-me porque há uma tendência dominante para, quer na imprensa, quer do lado de alguns dos representantes dos autores, da cultura e da indústria de conteúdos, extremar posições e definir um muro em que de um lado fica a tecnologia e do outro ficam os autores, como se, neste momento como noutros antes na história, não vivessem um do outro.

O Guttenberg, ficava do lado da tecnologia? E os irmãos Lumière? O Georges Meliés? É um momento de mudança acelerada, naturalmente confuso e em que paradigmas e modelos a que estávamos habituados parecem servir-nos mal. Uma altura boa para pensar. Um destes dias volto lá.

Desviando-me deste debate como quem se desvia de uma chuva de setas, de uma bala ou de um sabre de luz, nos últimos tempos anda a interessar-me a discussão sobre os chamados 'universos de fantasia' ou de ficção científica que, também recentemente, têm dominado parte importante do nosso entretenimento, nomeadamente no audiovisual: de 'O Senhor dos Anéis' aos super-heróis da Marvel e da DC, de 'Os Jogos da Fome' a 'Star Trek' e 'Star Wars', partes importantes da nossa atenção e do nosso bolso são seduzidas por estas sereias.

A importância do 'Star Wars' em tudo isto é absolutamente central na história do entretenimento. Foi, eu diria, o primeiro filme da história do cinema em que um autor, George Lucas, percebeu que poderia contruir um negócio (e ambicionar um império, entretanto devorado por outro - a Disney - como é próprio dos impérios) em cima de um universo alargado, para além do(s) filme(s) e da história que contam, do universo que apresentam. Leia-se, neste perfil de Lucas, publicado em 1979:

From the start, Lucas was determined to control the selling of the film, and of its by-products. "Normally you just sign a standard contract with a studio," he says, "but we wanted merchandising, sequels, all those things. I didn't ask for another $1 million-just the merchandising rights. And Fox thought that was a fair trade." Lucasfilm Ltd.,. the production company George Lucas set up in July 1971, "already had a merchandising department as big as Twentieth Century-Fox has. And it was better. When I was doing the film deal, I had already hired the guy to handle that stuff."

Aqui ao lado, um poster da época, publicitando merchandising para 'The Empire Strikes Back'.

O Jason Kottke, com este post, despertou-me a atenção, ao citar o Matt Webb, sugerindo que o universo 'Star Wars' podia ser um género, como o western, aberto, em vez de uma franchise proprietária:

Imagine, imagine if Disney had said: Star Wars isn't a franchise, it's a genre.

The legendary galaxy, a long time ago, far far away, is well understood: What's true is what's in the Holocron continuity database.

Open the Holocron. Show everyone what's in it. Let it become history.

Then let anyone make movies and books that share the Star Wars world. Not like all those other franchises that argue about what's canon and what's not... rise above it, become a new shared set of conventions, formulas, history and myth, just like the western but for the 21st century.

Afinal de contas, períodos históricos específicos como a Inglaterra de Henrique VIII, a conquista do Oeste ou os Anos 70 e 80 são isso mesmo, um conjunto de princípios e regras mais ou menos abertas a que qualquer autor pode aceder, construindo as suas próprias histórias, mundos, invenções - maneiras de falar, roupas, lugares, referências contextuais, acontecimentos documentados, tecnologias específicas. Quer isto dizer que a história é open source e a fantasia é proprietária?

Aqui a coisa torna-se mais confusa. É óbvio que os mundos de fantasia foram criados por um autor ou por um conjunto de autores ao longo do tempo e, nesse sentido, esse(s) autor(es) têm direitos sobre eles. O que se passa é que os mais populares de entre estes mundos tornam-se rapidamente propriedade também dos consumidores, leitores, espetadores. E estes são bastante mais raivosos do que o próprio autor na sua suposta defesa.

É aí também que surge por exemplo o universo apócrifo da 'fan fiction', ela sim, sem limites, mas normalmente não caucionada ou validada pelos detentores da franchise e do canône que sobre ela existe.

O que acontece, contudo, quando a indústria do entretenimento quer 'renovar' um canône, obter novas receitas sobre um mundo que parece completamente cristalizado pela devoção dos seus fãs?

Aqui entra este artigo do The Telegraph com o sugestivo título 'The Hobbit: How the 'clomping foot of nerdism' destroyed Tolkien's dream - and the fantasy genre'. Uma citação:

What nerds are chasing when they get passionate about canon is a fantasy of purity – the idea that a fictional world could be solely dictated by its own internal consistency and not by real-world demands. But they are forgetting how the original, Biblical canon was formed. Like some humming simulation, fantasy canons can be quickly snuffed out if their owners in the real world decree. Star Wars is changing because the people who own it want JJ Abrams to make a new movie and make them more money. They believe he can’t do that if he’s bound and encumbered on every side by the intricate designs of its previous stewards. That, in the end, is that.

Não ponho em causa que seja em primeiro lugar uma questão de dinheiro. A Disney quer ganhar mais dinheiro com o 'Star Wars'. O que é interessante é a escolha de JJ Abrams para o fazer, uma escolha inteligente, visto que estamos a falar de um realizador que fez precisamente isso em relação a 'Star Trek'. E aqui, o círculo fecha-se.

As principais qualidades de JJ Abrams não estão diretamente ligadas à sua capacidade para ser um bom realizador, tomando de barato que o é. As suas principais qualidades têm a ver com a forma como consegue contar uma história sem se desviar muito do que as audiências atuais genéricas esperam de uma história (um percurso de herói seguindo o 'monomito'), satisfazendo ao mesmo tempo o conhecimento obscuro do cânone que os fãs mais raivosos têm e construindo um espetáculo sensorial que apele a todos. It's a bingo!

Ainda não tendo visto o último filme da trilogia 'O Hobbit', desconfio que o artigo do The Guardian tem razão, ao dizer que Peter Jackson prefere ceder ao canône (e à vontade de pôr os fãs a render - salvo seja) em deterimento de uma história bem contada.

Mas no fim de tudo isto, mais uma vez, para mim, o debate está no tema do costume: saber que histórias podemos ainda construir num mundo totalmente mobilizado pela tecnologia, omnipresente em formas de necessidade e controlo mas também liberdade e criatividade. Dito isto, mais uma vez, let's look at the trailer.

 

Sagas. Universos e outras maneiras de contar histórias.

Estreia hoje o segundo filme da série Star Trek realizado por J.J. Abrams e aconselho-o vivamente a todos. Porquê? Muitos motivos mas alguns demoram um pouco a explicar. Vamos lá.

Entre outras coisas dou (muito) ocasionalmente umas aulas sobre entretenimento digital, narrativas digitais e a maneira como o panorama criativo e económico do audiovisual tem evoluído sob a influência das tecnologias em rede, móveis e digitais de um modo geral. Nessas aulas, olhando para o panorama do box-office americano dos últimos anos, tem sido aparente a tendência hollywoodesca para a sequela, a prequela, o reboot, o franchise e outros palavrões que denotariam falta de criatividade.

O panorama, contudo, parece-me cada vez mais complexo do que essa análise simplista poderia levar a crer.

Steven Soderbergh, realizador capaz de fazer filmes muito pouco mainstream no estilo e conteúdo mas também de homenagear a tradição popular de Hollywood, fez em Abril um discurso no San Francisco International Film Festival coincidente com a sua decisão de abandonar o mundo do cinema. Queixava-se que a grande indústria americana do entretenimento, nomeadamente do cinema, era cada vez mais apenas uma questão de dinheiro, sendo que a palavra dinheiro aqui serve como eufemismo para um mundo dominado pelo Excel, essa omnipresente aplicação que decide o destino de filmes e de países. Curiosamente, apontava também para alguns dados interessantes.

In 2003, 455 films were released. 275 of those were independent, 180 were studio films. Last year 677 films were released. So you're not imagining things, there are a lot of movies that open every weekend. 549 of those were independent, 128 were studio films. So, a 100% increase in independent films, and a 28% drop in studio films, and yet, ten years ago: Studio market share 69%, last year 76%. You've got fewer studio movies now taking up a bigger piece of the pie and you've got twice as many independent films scrambling for a smaller piece of the pie. That's hard. That's really hard.

Este post, contudo, é mais sobre maneiras de contar histórias e menos sobre dinheiro.

A Writer's Guild of America escolheu recentemente o que considerou os cem programas de televisão mais bem escritos de sempre e é significativo que em primeiro lugar esteja Os Sopranos, considerado amplamente como seminal na nova tendência de grandes séries de televisão escritas com um arco narrativo de dezenas de horas. Essa tendência, aliás, começa a influenciar cada vez mais a distribuição, com o Netflix a investir no binge watching, lançando todos os episódios das suas séries originais ao mesmo tempo. Voltou a acontecer com a nova temporada e Arrested Development.

A força do argumento ou do texto em que ele se baseia é um dos pilares da nova era de ouro da televisão. O outro é perceber que as pessoas procuram 'envolver-se' com uma história para além dos limites tradicionais de 20 ou 40 minutos que costumava (e muitas vezes costuma ainda) durar um episódio. Os espetadores modernos, soterrados por mensagens de 140 carateres e vídeos de três minutos, procuram história de horas, universos para explorar, personagens mais trabalhadas, com quem se consigam identificar longamente. Ou odiar. Ou mudar de opinião a meio.

A chegada ao mundo do cinema destes novos criadores de entretenimento que compreenderam isso parece estar a dar um novo fôlego ao mundo de reciclagem e repetição de ideias que domina Hollywood. O universo Marvel começa a expandir-se de formas mais interessantes e criativas, há esperança para o Homem de Aço que estreia este ano e Star Trek está melhor que nunca (sim, cheguei lá finalmente).

J.J. Abrams consegue, num número de malabarismo notável, fazer filmes que respeitam, exploram, piscam o olho ao universo tradicional das séries de televisão e dos filmes originais, puxando ao mesmo tempo por um ritmo visual e frenético bem mais contemporâneo, satisfazendo o espetador informado e o novato deste universo. O filme consegue variar a sua escala do galático ao íntimo com à vontade e mais que isso, consegue fazer parte de uma narrativa que o antecede e, com toda a certeza, vai suceder. É uma peça de um puzzle que pode ser consumida só por si ou como parte de uma história maior. Todos os pormenores contribuem de forma útil para o conjunto e no fim fizemos mais uma viagem nas fronteiras do entretenimento de massa e do espaço.

Acredito que a capacidade para estabelecer ligações de sentido entre componentes de um mesmo universo, de fazer peças de maior ou menor duração que contribuam para o enriquecer, de dar ao espetador novas formas de se envolver e explorar os seus sentidos, inteligência ou sensibilidade, de lhe dar memória, tudo isto são pistas para o futuro do entretenimento. E é isso que acontece aqui. E não, não estou a falar de inovação ou arte, estou a falar de entretenimento de massas.

Mas que sei eu de crítica de cinema ou televisão? Foi só a minha costela trekkie a falar. Live long and prosper.