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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

William Gibson's London.

Não me canso do William Gibson porque ele diz em entrevistas, coisas destas:

We can attempt to legislate technology after the fact, but it keeps on coming. Its nature is to be completely out of control. Nobody legislates technology into being. They don’t legislate the birth of the Internet or cellphones or anything. They’re called forth into the market, and the people who call them forth often have absolutely no idea how these things they've thought of will most change society. It’s impossible to tell until people have the things, and they’re using them.

Mas o motivo mais imediato para este post é uma polémica londrina. No seu último romance, 'The Peripheral', parte importante da ação situa-se numa Londres futura (mais ou menos um século no futuro) pontuada por shards, nostalgia do passado, tecnologia fora de controlo e uma classe de super ricos.

O que está a acontecer em Londres, por estes dias, aponta com certeza para este caminho. Um anúncio da Redrow London, promotor imobiliário gerou a polémica. Os autores do anúncio achavam, cito a partir deste artigo do The Guardian:

“We tried to do something a bit new and different from the typical property videos out there, but we accept that maybe we didn’t get it quite right with this one!”

O anúncio é este:

Rapidamente a Internet, nomeadamente por via do Twitter, pegou na coisa e revelou-lhe a alma. Também li o 'Kingdom Come', último romance do J.G. Ballard, o ano passado e lembrei-me dele, claro, mas nada como a versão abaixo, que pega nas imagens do anúncio da Redrow e lhes sobrepõe falas de Patrick Bateman, o psicopata ficcional de Brett Easton Ellis.

É como aquelas versões de músicas que revelam a verdade que a música original parecia não ter conseguido.

Sobre a política da tecnologia.

Peripheral.jpg

Foi nos idos dos anos 90 que me apercebi, pela primeira vez, de que a política permeava tudo, incluindo a tecnologia, e que se a tecnologia ia ter um papel tão absolutamente dominante na nossa sociedade, era importante começar a perceber que praxis era possível nesse domínio, para além do fascínio evangelizador que dominava (e ainda domina em parte).

Para além de alguma ciência e filosofia ditas mais tradicionais (Norbert Wiener, Martin Heidegger, Ernst Junger e outros), foi pela via da ficção científica e, em particular, do movimento chamado ‘cyberpunk’ que comecei a pensar no assunto. Afinal, se foi Wiener que primeiro falou do controlo e da comunicação no animal e na máquina, foi William Gibson que juntou o prefixo ‘ciber’ ao ‘espaço’, criando na nossa imaginação o lugar onde a nova tecnologia digital se desenvolveria.

A boa ficção científica sempre soube olhar o presente e desenhar as suas hipóteses de futuro cruzando as narrativas dos seus heróis com o barroco ou aridez das suas paisagens tecnológicas e fantasiosas. Hoje, muito se cita Orwell ou Huxley a propósito do presente e autores da chamada literatura ‘mais séria’ usam a ficção científica na sua prosa como forma de ir mais fundo na construção das suas histórias. Parece-nos a todos afinal, que vivemos num mundo pré-apocalíptico completamente dominado pela tecnologia e esse movimento acaba por ser natural.

Vale a pena aprofundar estes autores que, pelo tempo que passou, talvez por estarem já mortos, entraram no cânone e cujas ideias permeiam áreas muito diversas do mundo que nos rodeiam – afinal de contas, Orwell, por exemplo, não é apenas a vigilância permanente e opressiva do Big Brother mas também a possibilidade de (tentar) ignorar a realidade e sobre ela construir qualquer discurso pelo simples poder da retórica, seja ela verbal ou visual. A novilíngua que domina o discurso do poder – o FMI impõe a austeridade mas lamenta que a austeridade não resulte; a austeridade faz aumentar a pobreza mas quem se lixa não é o mexilhão; a reality tv mostra o real mas o real é uma narrativa de empatias absolutamente manipuladas. Podia ficar o texto todo a dar exemplos. There is no spoon.

Li em tempos recentes a minha boa dose de apocalipses, de Ben Marcus a Margaret Atwood, de Emily St John Mandel a David Mitchell. O livro que acabei de ler, contudo, é o último de William Gibson, ‘The Peripheral’, e é sobre ele e outro (adiante) que me apetece escrever.

Depois de uma trilogia passada num futuro próximo, num presente sempre a ultrapassá-lo, Gibson voltou a um futuro mais distante, a setenta e mais anos de distância, mas identifica nesse futuro, a presença em forma extrema daquilo que são algumas das tendências do presente: a impressão tridimensional, a big data, o triunfo dos sistemas empresariais e financeiros (legais ou ilegais) sobre os estados, a vigilância absoluta e permanente, a biotecnologia, as alterações climáticas e até mesmo a reality television levada ao extremo.

O que me preocupou, contudo, numa primeira leitura, foi a incapacidade para resolver politicamente esse futuro de dentro para fora. Eu explico.

Henry Dorsett Case, o herói de ‘Neuromancer’, o tal romance seminal de Gibson sobre o ciberespaço, publicado em 1984 – ah, a importância simbólica do ano! – era um anti-herói sobretudo solitário, de recorte romântico, e, mais que tudo isso, um infiltrado no sistema, alguém que lutava de dentro para fora, seguindo o seu percurso com aliados e adversários, num submundo povoado por inteligências artificiais. ‘Neuromancer’ é um film noir em formato de ficção científica, contemporâneo de ‘Blade Runner’, por exemplo.

No livro, o sistema tecnológico que permeia o real usa Case para aceder a um nível superior de consciência artificial, isto é, a tecnologia faz uso dos humanos para se superar, mas aquilo que nos agarra é, precisamente, esse lugar do humano no sistema tecnológico, a hipótese de agir como herói que existe ainda numa sociedade em que a tecnologia domina.

Repare-se que estamos na pré-história da revolução digital, o contexto é o dos anos 80, com Guerra Fria, um Japão tecnologicamente fascinante, um submundo de droga e uma humanidade capaz de exploração espacial sem limites para a sua ambição. O computador pessoal está a nascer, os videojogos vivem em arcadas obscuras, a Net ainda não saiu do laboratório. Case obedece, assim, a modelos tradicionais: o detetive privado, o cowboy, o marginal que descobre a capacidade de se superar, o romântico solitário, repito. Se o terrorismo não tivesse ocupado entretanto o lugar que ocupou na nossa história e imaginário, poderia mesmo dizer-se que Case é um terrorista. Case é, em muito, o modelo de Neo, em ‘The Matrix’. Faz sentido, ‘Matrix’ é também uma palavra que Gibson inventa neste contexto e Keanu Reeves tinha desempenhado o papel de Johnny Mnemonic no cinema, outra personagem de Gibson.

Em ‘The Peripheral’, trinta anos passados, o modelo de intervenção política (no sentido lato do termo) dos personagens mudou e é dominado por valores humanos de outro tipo: a família, a amizade, a comunidade. E a sua ação é dominada por uma visão de um tempo mais longo, um tempo em que o futuro informa literalmente o presente. Nesse sentido, o grupo de heróis de ‘The Peripheral’ entreajuda-se, une-se, defende a sua terra contra um barão da droga e a Homeland Security do seu tempo, trabalha para encontrar hipóteses de sobrevivência mais saudável num mundo claramente destinado a um fim desgraçado – nenhum evento apocalíptico e singular, apenas um deslizar para um ponto limite – um pouco como nos sentimos por estes dias.

Não quero estragar a complexidade da narrativa para quem possa ler-me e, por fatalidade, ler também o Gibson, mas o livro deixou-me com muitas perguntas. A tecnologia é um sistema de necessidades e fatalidades? Que lugar existe para a autonomia? O herói morreu? Ou pode existir uma rede de heróis? Em ‘The Peripheral’ parece que a possibilidade de haver heróis autónomos e atuantes está dependente do acidente, do ‘ex-machina’, da ajuda de um sistema ao qual são completamente exteriores, mesmo espácio-temporalmente. Sem essa intervenção, que hipótese teriam os protagonistas? É a sua curiosidade ou apenas um acidente que os coloca nesse lugar em que podem ser ajudados?

Há, por outro lado, um nível de abstração novo nesta relação causal entre espaço e tempo, entre lugares e momentos diferentes no globo e na história. Ter uma visão sobre o futuro permite-nos atuar sobre o presente? Mas com que armas? A cumplicidade, a família, a amizade, armas não tecnológicas que a tecnologia apenas pode catalisar, ajudar. A não ser que a tecnologia contenha em si também, o embrião da sua derrota. Pode existir um novo paradigma de herói em rede neste ‘cyberpunk’ trinta anos passado? Que narrativa nos pode ainda conceder liberdade?

poder_de_mudar.jpg

Ontem, por coincidência ou talvez não, assisti ao lançamento de ‘O Poder de Mudar – Crise, Autonomia, Escolha’ de Gustavo Cardoso, um dos mais dedicados e interventivos estudiosos da nossa sociedade em rede, nomeadamente do ponto de vista sociológico e político. E as perguntas que me ficaram foram, por coincidência ou talvez não, exatamente as mesmas.

Mais do que nunca, na sociedade contemporânea, a tecnologia que nos domina, é uma tecnológica de comando e controlo, de formas mais diretas, agressivas e burocráticas, por via da omnipresente vigilância e do desaparecimento da privacidade, mas também pelos caminhos mais ‘soft’ do entretenimento televisivo e digital, que nos submerge em ciclos cada vez mais curtos de novidade e espetáculo.

Nos domínios da máquina do estado, as prioridades concedidas ao investimento tecnológico numa ou noutra área, são todo um programa. Dar, por exemplo, prioridade à cobrança de impostos e outras contribuições mas não à educação, cultura e justiça tem efeitos imediatos sobre a liberdade possível dos cidadãos.

A sociedade contemporânea é, contudo, também, a sociedade de Assange e Snowden, dos anti-heróis que inesperadamente nos dão acesso aos mecanismos do poder e nos concedem mesmo que momentaneamente espaço para atuarmos sobre eles, ou para que se reforcem no seu condicionamento do que podemos fazer.

É também a sociedade de artistas interrogando o presente, da Raquel Freire com o seu ‘Dreamocracy’ que em nenhum outro momento da história poderia ter acontecido da maneira que aconteceu – produzido digitalmente, com material barato, emprestado, partilhado, entre lugares diversos da Europa unidos por voos ‘low cost’, com muita comunicação nas redes a ajudar, parte do fenómeno que retrata.

O Gustavo, a partir de uma das instituições onde ainda vai dominando a capacidade de pensar – a universidade – lança pistas de ação política e posiciona-se a ele próprio como ator, até porque as palavras são já ações, claro. A minha dúvida é se estamos já no momento em que a intervenção se generaliza ou se vamos continuar apenas fascinados por narrativas em que o que está a acontecer (política, tecnológica e socialmente) faz parte do necessário, da fatalidade, seja qual for o sentido dessa fatalidade: o da corrupção ou da denúncia da corrupção, o dos abismos sociais, o dos impérios financeiros, o dos grandes ‘players’ tecnológicos dominando o nosso acesso à informação e entretenimento, alheando-nos de alguma hipótese de ética jornalística.

Pode ser que tudo se resuma a uma questão de otimismo ou pessimismo, de inquietação ou paralisia, de humor e revolta. Um dos professores que mais admirei no tempo que passei na universidade, José Bragança de Miranda, dizia-nos que estava a chegar um tempo de muros, apesar do que tinha acabado de cair, um tempo em que, ao contrário do Humpty Dumpty, não íamos poder ficar sentados lá em cima, sem cair, mas sim escolher um lado, de preferência antes que nos empurrassem.

Esse tempo é hoje. E o futuro é daqui a um minuto, um ano, um século.

Groundislava - Girl Behind The Glass (feat. Rare Times)

Groundislava’s new album Frozen Throne is, essentially, about one man’s downfall after he loses the girl he loves in a virtual realm. (It’s also, not surprisingly, an homage to William Gibson’s Neuromancer.) There’s a theme that lends itself to a slam-dunk music video, right? Whip up a concept in the vein of The Matrix or Tron, hit “record,” and ta-da! Instant Vimeo hit. Groundislava—aka Jasper Patterson—took it a little further. He made the video a world you can actually play in.

(...)

Created by “experimental director duo” The Great Nordic Sword Fights, the resulting “video”—actually more like an interactive videogame (download it here)—for “Girl Behind the Glass” feels like getting lost in a hyper-color Max Headroom clip. Users maneuver through the experience lead by a Power Glove-like hand and are free to look around the environment as they look for the eponymous girl. “If the mouse button is pressed the image will distort with colorful noises and effects,” Patterson says, “simulating a lapse in the character’s grasp on reality.”

in Wired

O futuro foi esta semana.

Sempre achei que os Estados Unidos eram um país onde cabia tudo e isso era a sua principal qualidade e o seu principal defeito. Mas talvez  a palavra 'tudo' revele sempre um preocupante parentesco com a sua deriva para o 'total' e daí a 'totalitário' vai só uma sufixação. Além de que 'tudo' é daquelas palavras que invoca o círculo como forma geométrica e se devora em 'nada' na cauda da serpente.

Estes disparates pretensiosos vêm na sequência de uma série de histórias que, por efeito de uma qualquer gravidade mediática, se parecem ter conluiado nos últimos dias para me fazer perguntar em que estado de facto está esse país do outro lado do Atlântico. A resposta não me interessa particularmente ou antes interessa naquele espaço tendendo para o infinito que vai da realidade à ficção.

Li nos últimos meses alguns livros que informam ou deformam a minha visão: "The Year of the Flood" e "The Handmaid's Tale" de Margaret Atwood, "Nineteen Eighty-Four" de George Orwell, "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury, "The Flame Alphabet" de Ben Marcus, "Kingdom Come" de J.G. Ballard, além das histórias de Donald Barthelme e George Saunders e, num registo mais pulp, Guillermo Del Toro com Chuck Hogan e Justin Cronin. Uma boa dose de distopia. Estou certo que se já tivesse lido o "Brave New World" do Huxley, este post seria mais inteligente, mas continua numa pilha à espera de vez.

No princípio da semana vi imagens do que rodeia a Super Bowl, o momento mais visto e mais caro da televisão americana. Não vi nada do desporto mas é mais ou menos como os americanos gostam: disparos de adrenalina alternados com pausas para publicidade - e na publicidade, muita tecnologia, muito entretenimento e até alguma meta-publicidade (ah, somos um anúncio a brincar aos anúncios).

Chamou-me mais a atenção o momento do hino antes do jogo e as suas componentes: uma cantora de ópera, um género claramente no fundo do balde do gosto musical americano mas que fica bem como jóia decorativa (Renée Fleming, que muito aprecio - na foto); uma marching band militar; uma bandeira americana gigante esticada sobre o relvado; dezenas de milhares nas bancadas inchados de patriotismo; fogo de artifício; ecrãs, muitos ecrãs, ecrãs muito grandes; depoimentos de tropas nos ditos ecrãs e na emissão; para fechar, caças e helicópteros de combate sobrevoando o estádio. O estádio tem o nome de uma companhia de seguros, a MetLife, e fica em New Jersey, a 'outra banda' de Nova Iorque, a babilónia americana. New Jersey, estado nativo de Frank Sinatra e Tony Soprano. E o Seinfeld reencontrou o George Constanza no intervalo. Bom, estão a ver a coisa.

 

 

Nem vou sequer entrar na polémica sobre o anúncio da Coca-Cola com o 'outro' hino americano, "America The Beautiful", fala por si.

Hoje, vi uma notícia sobre Jesse Ventura que foi wrestler profissional e depois governador do Minnesota ("Only in America!" como diz Al Pacino no "Angels in America" de Tony Kushner). Jesse Ventura agora vive no México e diz que o faz porque se quer manter fora da rede (da matriz, se quiserem) e garantir que "os drones não o encontram". Nesta era pós-Snowden nada disto nos parece particularmente paranóico, se pensarmos uns segundos. A parte divertida é que o senhor tem um programa de televisão chamado precisamente "Off The Grid". Fora. Mas dentro. Na televisão. E a lógica deu um nó.

A tudo isto apetece-me acrescentar que a Google anda a comprar empresas de inteligência artificial depois de ter comprado empresas de robótica e de automação doméstica. Skynet, anyone? E como é natural, a concorrência não anda a dormir e o Facebook até faz dez anos e devolve-nos a nossa vida em vídeo na melhor veia nostálgica delicodoce.

Acho que se qualquer um dos autores ali acima quisesse descrever uma sociedade vivendo numa espécie de distopia eufórica, totalmente tomada pela tecnologia, devorada pela vontade de não ter memória ou permanentemente modificá-la, dominada pelo desejo absurdo de entretenimento e de consumo, não encontraria melhor que a sociedade americana contemporânea. Acho que o momento merece uma pausa para ouvir Laurie Anderson.

 

 

No fim disto tudo lembrei-me que William Gibson, meu autor de ficção científica de eleição, deixou há uns anos por opção de escrever livros passados no futuro para se dedicar ao presente. Até porque o presente é neste momento claramente uma espécie de futuro bizarro. Haverá outro motivo para termos cientistas a procurar viajantes no tempo na Internet?

Da invenção das palavras...

Das contribuições da Ficção Científica para o vocabulário contemporâneo, aquela a que dediquei até hoje mais atenção, foi a palavra "Cyberspace", pela pena de William Gibson.

"Cyberspace. A consensual hallucination experienced daily by billions of legitimate operators, in every nation, by children being taught mathematical concepts... A graphic representation of data abstracted from banks of every computer in the human system. Unthinkable complexity. Lines of light ranged in the nonspace of the mind, clusters and constellations of data. Like city lights, receding.", tal como aparece no romance Neuromancer (capa da edição que eu tenho aqui ao lado), onde a "Matrix" faz também a sua primeira aparição.

Vem isto a propósito desta pequena lista de termos que hoje nos soam científicos e provavelmente são, mas nasceram nas páginas desse género muitas vezes considerado menor. Entre elas, a engenharia genética, os virus de computador e a gravidade zero.

O Futuro da Ficção Científica

A revista New Scientist perguntou a seis autores sobre o futuro da ficção científica, alguns mais ligados ao género, outros menos. O resultado pode ser lido aqui. São eles Margaret Atwood, Stephen Baxter, William Gibson, Ursula K Le Guin, Kim Stanley Robinson e Nick Sagan.

A questão de base é interessante, nascendo de um sentimento dominante de irrealidade que a mobilização da sociedade pela técnica e a "crise permanente" trazem às sociedades contemporâneas. Esta omnipresença da tecnologia e a questão do "futuro" são traços tradicionais na ficção científica que estão a passar para a chamada literatura tradicional, nomeadamente em alguns dos meus autores favoritos como Michael Cunningham e David Mitchell.

Passe a imodéstia na comparação, também no que escrevo os temas da ficção científica parecem transparecer cada vez mais. Todo um capítulo de "Em Silêncio, Amor" passava-se já no futuro.

Não percam os próximos capítulos! (obrigado Ana)

Acabei de ler o Gibson.

Capa de Spook Country de William GibsonTerminei ontem a leitura do mais recente romance de William Gibson, “Spook Country”. Para quem não sabe, William Gibson é um dos mais premiados escritores de ficção científica, autor de clássicos como “Neuromancer” e criador do termo Ciberespaço.

A escrita de William Gibson nem sempre é brilhante e muitas vezes deixa-nos a tentar descortinar os processos mentais do autor ocultos por frases de construção bizarra. As personagens são geralmente secas e sem grande história ou profundidade emocional, mas não é por acaso. As histórias de Gibson, passadas no futuro ou no presente, são sempre uma tentativa de descortinar ordem e intenção num mundo em que a tecnologia e a cultura se cruzam em matrizes de caos e excesso.

Nos seus dois últimos romances (“Pattern Recognition” e este “Spook Country”), Gibson abandonou o futuro e situa a acção no presente, talvez por a actualidade ser hoje tão complexa e questionável como era no passado, o Ciberespaço que Gibson imaginava. Talvez exactamente por esse motivo, a sua escrita continua ferozmente política, no sentido magno do termo, questionando permanentemente o papel do homem num planeta inteiramente mobilizado pela técnica. Mais sobre isso aqui.

Em tempos idos fiz um esforço para cruzar o ciberespaço de Gibson com a filosofia de Ernst Junger. Quer um quer outro olhariam para mim de lado por sequer tentar, mas como exercício intelectual foi interessante. De um ponto de vista mais puramente literário, Gibson é como Douglas Coupland ou Bret Easton Ellis, um dos autores que para mim melhor desliza na superfície da contemporaneidade, picando-a com o seu olhar, em busca de sangue ou sentido.

Em “Spook Country” cruzam-se arte, tecnologia, publicidade, espiões, mais tecnologia, alguma droga, música e... mais tecnologia, levando-nos de Nova Iorque a Los Angeles a Vancouver, no Canadá, onde Gisbon vive. O resultado é um romance de espionagem pouco convencional que nos devolve uma imagem mordaz do mundo confuso em que vivemos. É interessante, mas muito menos do que os que Gibson adivinhava nos anos 80.