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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Valério Romão - [O Pequeno Amuleto de São-Qualquer-Coisa-Padroeiro-Dos-Emigrantes]

Eram as viagens a Portugal [vá para dentro lá fora.]
o carro novo lambuzado de brilho metálico. as prendas para a família.
[o queijo de dois quilos com uma cabra estampada. lentes fotográficas dispendiosas. brinquedos a pilha.]

 

o portugal-cauda-da-europa com olhos de infante de sagres
paraíso de bêbedos e ingleses de pele frágil.

 

casinhas espalhadas costa fora a fingirem cidades.

 

e eu habituado à algazarra do primeiro mundo
[os escapes ruidosos a vomitar velocidade. os centros comercias tamanho-aldeia.]

 

perdido num algarve-cantinho-de-sol-e-praia
[era este o portugal que conhecia. 
o portugal das mulheres viúvas até morrer
o portugal das tascas e dos centros de saúde mortais.
o portugal que piscava um olhinho à C.E.E. e acenava tradições com ares de pêga.]

 

este portugal com sabor familiar
que me acolhia com uma brisa amena e figos maduros.

 

o portugal dos montes espalhados pelo interior 
[onde as mulheres nunca tiram o lenço da cabeça. onde se coze o pão em fornos borrados de cal.
os vizinhos eternamente desaguisados por um palmo de terra.
mantanças de porco. vinho novo.]

 

o portugal de são cipriano e de são martinho.
o portugal do mau-olhado e da tuberculose
o legado de salazar e caetano
[dezenas de oficiais gordos. capitães que aceitavam galinhas e contos de reis para livrarem os mocinhos-para-sempre da tropa.]

 

e eu enfiado nuns sapatos cobiçados pela criançada
desabituado do calão e da água salgada.
os olhos postos no sol da tarde a naufragar
nas estrelas do campo cuspidas ao acaso.

 

uma terra de pescadores de bagaço e navegadores de cabeceira. os sonhos transatlânticos feitos de filigrana quebradiça.

 

um portugal fábrica de conservas e cortiça
mordido pelo pesadelo colonial
uma quinta experimental de insucessos comerciais.
um portugal de burocratas-vermelhos e malas-de-cartão
que acolhia os seus como estranhos endinheirados.

 

éramos os dos carros novos com matrículas esquisitas
aqueles que penduravam no retrovisor um pequeno amuleto de são-qualquer-coisa-padroeiro-dos-emigrantes.