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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Isto anda tudo ligado.

Ontem ao ver as notícias, em particular aquelas sobre a derrocada em Andorra, constatei um facto que me andava a zumbir aos ouvidos há já algum tempo. Em tempos, as reportagens de "interesse humano" eram um complemento das notícias, algo que surgia para as enriquecer e tocar na corda sentimental das audiências. Hoje, parece-me, já não há notícias, apenas uma interminável telenovela de "interesse humano" que enterra os telejornais sucintos e objectivos em episódios dramáticos que oscilam entre a hora e hora e meia. As audiências garantem as receitas publicitárias.

Ontem havia repórteres em directo sob a neve de Andorra (ai, neve, que giro, vem aí o Natal!), havia repórteres na aldeia de um dos falecidos (pobre, pobre, com a emigração como última hipótese e forma de trazer de volta os Mercedes que se viam estacionados junto das casas de granito), havia um hospitalizado que se lamentava de ter ficado sem o telemóvel e de que em Espanha é que havia trabalho (apesar da taxa de desemprego em Espanha ser das mais altas da Europa) e ainda um sindicalista que explicava que o problema era que os espanhóis (os malvados, aqueles que não querem deixar o Cristiano Ronaldo vir) punham os portugueses a fazer os trabalhos que eles próprios não queriam.

Ora este último ponto lembrou-me as brilhantes declarações da Ferreira Leite, quando dizia que as obras públicas criavam emprego era para os imigrantes. Curiosamente, nos acidentes das obras públicas portuguesas, que me lembre, morrem sobretudo portugueses. É o capitalismo e não há nada a fazer, a vida é como é e tal e coisa..

Por falar em capitalismo, parece que faz hoje anos uma festa, a queda de um muro. Jornais, rádios e televisões hesitam entre a festa, a metáfora e a nostalgia, com declarações de pessoas importantes a acompanhar. Fala-se dos muros que subsistem e das pontes que é preciso fazer, da nostalgia dos produtos do Leste e do homenzinho dos semáforos que triunfou. Uma salada.

No meio da salada, fui ler este texto de Slavoj Zizek. Embora não concorde com tudo, nem saiba de tudo para poder concordar ou não, a constatação de que capitalismo e democracia vivem muito bem um sem a outra e vice-versa, é coisa em que eu andava já a pensar cá para com os meus botões. Nunca achei que as empresas fossem instituições democráticas.

Aliás, a pátria ideal do capitalismo seria assim uma espécie de terra perdida, entre a Itália da Camorra e a China da poluição, onde a economia progrediria ad nauseam sem dar cavaco a ninguém. Mas não, não vou falar do Vara.

Fica a dúvida no ar:

 

But what if this strain of authoritarian capitalism proves itself to be more efficient, more profitable, than our liberal capitalism? What if democracy is no longer the necessary and natural accompaniment of economic development, but its impediment?