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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A Casa.

Josef escolheu a casa no próprio dia em que voltou à cidade, ou se calhar a casa escolheu-o a ele ou tudo era apenas uma coincidência sem mais nesse dia estranho de regresso, fim de Novembro de 1972, um dia de um vento chuvoso que varria as fachadas dos prédios, abanava os candeeiros, os semáforos e as árvores por igual, as folhas caídas aninhavam-se nas bermas e sarjetas, morriam em tapete debaixo dos carros e dos transeuntes encharcados nas suas penas diárias, trabalho, estudo, o que fosse. Pelo chão, guarda-chuvas de todas as cores, esqueletos abandonados da batalha, os tecidos ainda estremecendo como velas de navios encalhados por entre rochedos.
Trazia com ele o pó vermelho do deserto, nos bolsos, nos sapatos por dentro e por fora, nas orelhas e no cabelo, debaixo das unhas, no nariz, o cheiro fino da pedra, do calor e aterrou ali mal agasalhado no temporal ao fim da tarde, saltou para um táxi preparado para enterrar o pai, falecido alguns dias antes num macabro acidente de viação. Deu ao condutor a sua morada de sempre. Deixara aquele lugar duas semanas depois de a mãe morrer, voltava alguns dias depois de o mesmo suceder ao pai. O telegrama chegara-lhe numa trincheira, talvez num jipe, num trilho sem nome, talvez com uma patrulha atrás de uma colina vigiando um oásis, o cansaço impedia-lhe uma recordação precisa. Agora, ali sentado no mofo do banco de trás de um carro que rangia e protestava contra o temporal, a mão direita estremecendo ligeiramente, foi tomado de um ataque de pânico ao imaginar-se a entrar na casa vazia onde escutaria os fantasmas, não só os dos pais, mas o seu também, de há tanto que a abandonara, quase esquecera.
Pediu para ficar antes numa esquina qualquer, com a sua mala, a sua mochila com a máquina fotográfica e uma dúzia de rolos por revelar, outros tantos ainda por fotografar. Ali estacou, lavado pelo vento e pela chuva, olhando com curiosidade a água avermelhada com o pó, escorrendo-lhe da roupa, dos sapatos, da pele, uma pequena poça de lama, um rio vermelho (não muito) que se juntava ao que corria na sarjeta. Foi apenas o medo de que a persistência da chuva penetrasse o tecido da mochila, lhe estragasse a máquina e o filme, mais habituados por esta altura aos rigores do calor e do pó do que ao tempo do hemisfério norte, apenas isso o fez procurar abrigo. Olhou em volta mas não viu a luz de nenhum bar ou café, nenhum porto, apenas a entrada de um prédio para se abrigar, ficar a olhar a cidade a soçobrar ao anoitecer, os faróis ocasionais dos carros a varrer tudo, sinistros antes dos candeeiros acenderem.
Era a cidade fantasma que o acolhia, as poucas pessoas apenas sombras ao longe curvadas correndo contra a chuva. Pensou em fotografá-las, mas não havia na mochila ou no bolso do colete nenhum rolo com a sensibilidade apropriada. Os rolos que lhe tinham sobrado eram para a luz cruel do deserto, se os usasse ali, sairia apenas um borrão. Na altura não gostava de borrões, gostava de nitidez pura e bem iluminada, uma nitidez que realçasse as imprecisões do mundo, ele próprio por natureza desfocado. O pai oferecera-lhe sem mais conversa ou justificação uma Leica M3, quando Josef decidira ser fotógrafo, há coisa de dez anos e era ainda a única máquina que usava. Colegas sugeriam-lhe a Nikon F, robusta, ideal para ele, mais do que uma máquina, pelo menos, nenhum dos outros usava apenas uma, mas Josef recusava. Três anos depois, a mãe morrera, decidira o seu futuro e pedira ao editor para o enviar como foto-repórter para o estrangeiro. O país enjoava-o. O pai levara-o ao aeroporto. Vira-o pela última vez ainda de luto, num abraço circunstancial e um pouco embaraçado de despedida. Um miúdo de vinte e dois anos e o seu pai à entrada de um aeroporto em 1965.
Era inexacto dizer que tinha sido um telegrama a avisá-lo do acidente. O telegrama existira sim, mas seguira para a embaixada de um país amigo num país vizinho. Daí um encarregado de negócios fizera os necessários quilómetros até à fronteira e contactara um rapaz numa aldeia amiga do grupo que Josef andava a fotografar. Esse miúdo magricela fizera-lhe chegar a notícia. Curiosamente nada se perdera no conteúdo, sucinto e assassino. “Pai morto em acidente. Stop. Pede-se regresso imediato à capital. Stop. Apoio na embaixada e jornal. Stop.”
Esquecia-se com frequência de que trabalhava num jornal, uma morada distante para onde enviava os seus rolos por revelar ou quando tinha raro tempo e condições, algumas fotografias já impressas. Não via um exemplar há meses, muito menos um que contivesse uma fotografia sua. Passara por um quiosque há coisa de um quarteirão, no táxi, mas já estava fechado. Pagou a viagem com notas que guardava há sete anos. Estivera muitas vezes em casas de câmbio, legais e ilegais, trocara dólares, francos, libras e marcos em esquinas, nos lugares mais improváveis, mas aquelas notas eram as mesmas que o pai lhe tinha dado no aeroporto. Não sabia que horas seriam. Não sabia exactamente onde estava, que ruas eram aquelas que se cruzavam naquele ponto onde convergiam com a fúria do tempo. Sentiu-se estrangeiro, ali mal abrigado dos elementos, encharcado olhando.
Viu a mulher atravessar a rua e enfiar os restos do que fora um guarda-chuva num cesto de papéis, antes de se juntar a ele na entrada do prédio, a sua figura escorrendo água, desequilibrada pela chuva diagonal.
– Veio ver a casa?
– A casa?
Olhou para a rua vazia.
– Deve estar um seis ou sete na escala de Beaufort.
– Desculpe?
– É a escala que mede a força do vento. Foi inventada no século XIX por um huguenote irlandês. Bom, descendente de huguenotes. Num sete, torna-se difícil andar contra o vento. Os chapéus de chuva são completamente inúteis.
Josef não soube o que responder. A mulher olhou para ele, sacudiu a gabardine, sorriu um sorriso artificial de vendedor e estendeu-lhe a mão num cumprimento.
– Chamo-me Eleanor (como a Roosevelt) mas Von Der Goltz, no meu caso. Talvez descendente de huguenotes também. Chegou hoje do estrangeiro? – Aponta a mala de Josef com os olhos mas não espera pela resposta. – Adoro viajar. Acho que toda a gente devia poder viajar. Toda a gente devia fazer parte do jet set. Tenho uma ida a Paris agendada para a Primavera, mas tenho de vender mais umas casas antes – e riu-se alto, num tom tresloucado. Os seus brincos chocalharam. – Vamos ver o apartamento?
Josef passou uma mão pela cara e encolheu os ombros sem perceber mas Eleanor tomou o gesto como um sim.
– É um terceiro andar – disse, debruçando-se sobre a fechadura – mas tem serventia do sótão no quarto andar. Não é um sótão pequeno, são umas águas furtadas, com duas janelas, dá para fazer uma sala grande, um loft, um boudoir mais secreto, se preferir ou mesmo um pequeno apartamento, um segundo apartamento. Tem água corrente.
A porta abriu e Josef pegou na mala e na mochila e seguiu-a mecânico para o interior, sempre se estava melhor. A mulher procurou um interruptor, acendeu uma lâmpada tímida no cimo de um tecto alto. Tinha pouco mais de trinta anos e Josef achou-lhe piada, assim de maquilhagem desfeita, de roupa desarranjada pela tempestade, um pouco excessiva, um pouco louca. Ocorreu-lhe que podia fazer uma série de fotografias de pessoas assim, desarrumadas pela chuva.
A entrada do prédio era talvez do século XIX, um elevador antigo, com porta em grade e as paredes apaineladas a madeira com um espelho ao fundo. Viu-se e não se reconheceu, barbudo, cabeludo. A mulher, com certeza, duvidara do seu aspecto de vagabundo, de hippy, mas fizera-se moderna, saia curta, saltos altos, um cliente era um cliente e Josef não desfizera o equívoco. Estava ali para mostrar uma casa e se não aparecia mais ninguém, era a ele que a mostraria. Pensou em virar costas e escolher um hotel para passar a noite, dormir um sono reparador, ignorar tudo aquilo, mas admirou-lhe a tenacidade e decidiu subir, fechou a grade do elevador que com um solavanco se foi içando pachorrento para o terceiro andar.
– Espero que tenhamos luz na casa, para poder ver – e olhando de esguelha para o seu colete encharcado, as calças enlameadas, a sua mala velha, a sua mochila – mas acho que se quiser, pode mudar já hoje. Terá provavelmente de dormir no chão. – E riu-se de novo.
Um refugiado na sua cidade. Um engano, aquela mulher esborratada pela chuva, Eleanor, o cabelo pingando, num vestido demasiado estreito e curto, numa gabardine demasiado larga, à sua frente procurando uma chave num molho de carcereiro e falando e rindo incessantemente, assim se encontraram, a casa e ele, chegado do deserto e da violência para a morte do seu pai, para a ausência dos seus pais.

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