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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A Origem.

Há felizmente muitos tipos de cinema. Aprecio quase todos, desde que o filme, o resultado final, me faça sair da sala escura com um olhar mesmo que apenas um pouco diferente da realidade, como uma dúvida, como uma lucidez súbita. Gosto do cinema da calma e da subtileza das personagens, das suas relações, das suas histórias, mesmo que em contextos de violência extrema como é o caso, por exemplo, de "O Profeta" ou de incerteza moral como todo o cinema de Haneke.

Gosto também do cinema manipulador e labiríntico de Christopher Nolan, de "Following" a "Memento", passando pelo "The Prestige", "The Dark Knight" claro e agora este "Inception". Ou não fosse eu também um fã de Hitchcock, por exemplo.

Quando Peter Jackson conseguiu o que conseguiu com o seu "Lord Of The Rings", deram-lhe dinheiro para ele fazer o seu brinquedo, um desmesurado "King Kong". Quando Bryan Singer fez dos dois primeiros "X-Men" sucessos planetários, ofereceram-lhe um "Superman" de muitos milhões para ele brincar. Em ambos os casos da ambição resultaram filmes falhados, na minha opinião.

"Inception" é um filme diferente, é um filme de autor e esse autor é Christopher Nolan, cujas obsessões são a fundação mesmo do cinema na sua origem. Deram-lhe os milhões que pediu e ele foi mais longe do que nunca. Onde está a realidade e a ilusão? Onde começa e acaba uma história? Como manipular o espaço e o tempo? E nisto tudo, como suspender a crença do espectador e embarcá-lo connosco na nossa viagem. Não vale a pena dizer que está de pé sobre o ombro de gigantes e que cita abundantemente a história do cinema. Tarantino, por exemplo, fá-lo melhor. Não vale a pena dizer que as personagens são talvez esquemáticas porque o que lhe interessa é o jogo, a dinâmica entre elas. Se calhar em "Ocean's Eleven" por exemplo essa dinâmica está construída com mais destreza. Não vale a pena dizer que não é servido pelos mais excepcionais actores, basta lembrar o Joker de Heath Ledger. É tudo verdade, mas nada disso torna este um filme menor.

Podia continuar aqui o resto da noite a fazer apartes, mas a verdade é que "Inception" é um dos motivos por que o cinema foi inventado, tem uma história, um passado e um futuro. É um filme que trabalha a nossa memória e manipula o nosso desejo antagónico de realidade e de fantasia. Mesmo que no fim saiam decepcionados, mesmo que ao quarto passo de aprofundamento da viagem se sintam já cansados, mesmo que o ritmo da montagem perfeita vos enjoe, vão ver. Vale a pena.