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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A segunda partita.

Como um bom aluno, fiz o mesmo que Alice. Esperei obediente no passeio pela mudança do semáforo. Olhei na mesma para um lado e para o outro e atravessei com o mesmo passo decidido, talvez forçando um pouco o apoio da bengala. Quando cheguei ao outro lado, doía me o pulso do peso que pusera sobre a mão direita.

Descobri as lágrimas apenas quando a primeira caiu sobre essa mão em que me apoiava. Cheguei me à montra. Contemplei o homem artificial que precisava de um abraço. Naquele dia a sua situação era ainda mais humilhante que o costume, nu, todo ele plástico branco e formas vagas, esperando uma muda de roupa que não vinha.

No entanto, conseguia manter se de pé sem a ajuda de uma bengala, não chorava sem dar pelas lágrimas, não havia na sua cabeça a Sarabanda da Partita nº 2 em Dó Menor, não tinha medo do trânsito, para sempre ali, preso ao seu lugar.

Fiquei talvez uns cinco minutos. Dei uns passos de lado, contornei a esquina, olhei para o manequim de outro ângulo. Ignorou me, como era da sua natureza.

Apesar do ruído do trânsito, o piano não saía da minha cabeça e apenas me distraí dele quando, pelo canto do olho, lá ao fundo, na outra esquina, descobri o contorno magro do rapaz vermelho.


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