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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

In "Aquariofilia"

Nas trevas do coração de Joana, de João, reside inabalável a dúvida. Num momento ou noutro, uma certeza como um farol. Ali é a costa, ali vamos poder atracar e concluir a nossa viagem. É quase um zumbido, uma luz vem lá ao longe da noite deles, de todos, do que querem, o brilho do pirilampo no escuro, aos poucos mais nítido, como se nascesse da terra, um ruído mais forte e só se sente o vento e o efeito doppler, não dá mais, enquanto o som se afasta e a mota é só um pontinho vermelho e um clarão em frente, a desaparecer entre duas árvores, as grandes esperanças. Ali, por aquela hora, ninguém vivo, só os animais.

 

Do diário de Joana, escrito anteontem.

 

Eu não quero ficar em casa, passar as férias a comer gelados só porque mos oferecem em vez de ternura, não quero uma semana com o meu pai, outra com a minha mãe, não quero nada. Não quero a vida deles. Vem aí o verão, não protestes, faltam só quatro meses. Quero o aconchego do teu corpo. Não quero crescer, não quero ter medo. A nossa vida tem de ser bem mais do que conforto. Estou farta de estar confortável, estou farta da minha mãe e do meu pai, a acharem que podem corrigir alguma coisa, resolver alguma coisa. As coisas estão feitas, tudo está perdido, não quero trepar pelas paredes e dizer-lhes “não faz mal”. Já fez todo o mal. Quero mergulhar de frente no teu corpo debruçado sobre a mota. Gosto do brilho dos teus olhos quando riscas o ar, gosto do calor do teu sopro quando me beijas o ouvido, gosto do cheiro do teu pescoço quando não há mais nada a dizer. Tens um pescoço tão bonito, gosto tanto do sítio onde começam os teus cabelinhos, quase nada, quase só uma penugem. Gosto da maneira como ficas corado quando o vento te bate na cara. Nada a dizer, só sim, quero o que tu quiseres. Devia dizer-to mais vezes, mas leva-me. Não quero ter quarenta anos e ser como eles, quero aqui e agora e és tu quem me leva e é no teu corpo que eu não vou ter medo. Vamos já. Vai ser um dia glorioso! Tenho medo da solidão no teu olhar, de não ser eu quem te leva para onde queres ir. Para onde queres ir? Para onde vamos? Longe daqui, por favor. Já não sei o que escrevo. Já não sei o que pensar. Gosto de ir levada pelo teu vento, sinto as faíscas a zumbir nos meus ouvidos, agarro-me a ti com mais força e cortamos a estrada, as tuas mãos finas, os nós dos dedos brancos, sobre o guiador, puxas-me pelo pescoço e roubas-me um beijo quase com violência, quase com amor. Levanto a cabeça e o vento frio bate-me com mais força no pescoço, as estrelas passam muito devagar lá em cima, por entre as nuvens como lagoas, mares, oceanos, riem-se da nossa pressa, irrequietos, a correr desta maneira, a acelerar contra um muro que é o teu olhar. De vez em quando surpreende-me a firmeza do meu amor.

O vento viaja connosco, quero-te no fundo de mim, tenho-te só a ti, pouso a cabeça nas tuas costas, ouço o teu coração a bater, apressado, irrequieto, incerto, duvidas de tudo, vês só o brilho à tua frente, na estrada, uma curva larga a descer. A lua escapa-se por entre duas nuvens barrocas e brilha num halo de humidade, já vejo menos estrelas, as árvores fogem irregularmente do meu olhar, lembro-me das gémeas que me invejam, incapazes de compreender este desespero de procurar a tua boca para que não fuja, para que não digas nada, se calhar nunca o tiveram, só o ruído da língua a tocar no céu e depois nos dentes e abres os lábios num sorriso e eu já estou a abraçar-te, quero decifrar o medo no teu olhar. Às vezes é tão bom não saber o que vai acontecer amanhã. Como te quero. Hoje fugimos, fugimos. Antes que o inferno se abra.

João parece ouvir, parece sentir, lê os pensamentos beijados nas costas, segredados com as mãos, quer entender tudo, aquele é o momento, os gestos, os enigmas, os beijos, a voracidade que os subjuga, em cada gesto, em cada expirar involuntário de prazer. Nada o oprime, por um instante, sente-se amado, possuído, devorado, olha no fundo dos olhos grandes dela como naquela primeira vez, junto à água asséptica da piscina, quer senti-la de uma vez a penetrar a alma dele, todos os pequenos abismos.

Olha para trás. Não consegue virar-se o suficiente, desacelera um pouco. A mota desliza de lado, no limite do despiste, Joana solta-se, ele vira um pouco o tronco, olhos nos olhos, em desequilíbrio, sente a adrenalina do perigo, a luz por trás da cabeça dela, de repente parece-lhe um anjo, leva um anjo na mota. A luz cresce, ela sorri, João pergunta-se se ainda está vivo, é aquele o momento, está tão feliz que podia morrer. Joana é a única hipótese de salvação. Nunca será gay, nunca gostará do corpo de um homem, da intensidade diferente desse prazer, nunca mais terá dúvidas sobre nada, vai ser igual a toda a gente, vai sentir-se realizado, vai ter a mulher mais bonita do mundo, toda a felicidade, todo o futuro, está nele, naquele momento. Joana fecha os olhos e abraça-o com mais força. Agora somos um, em paz. Hoje fugimos. Agora é sempre.

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