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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Dia da música

Sábado foi Dia Mundial da Música, não sei de quem é a decisão da escolha do dia, mas foi oportunidade para fazer ainda mais em volta do tema. Aqui fizemos imensa coisa. Ficámos a saber da paixão do Sassetti pelos Beatles, além de recordar alguns dos editores convidados do ano que passou, sugestões de agenda, de tudo um pouco.

O que motiva este post é que para mim, hoje também é Dia da Música, todos os dias são. Passei os olhos pela minha estante de CDs. São milhares. Assim, de repente e só porque os olhos pararam lá: tenho 14 discos de Bill Evans, 9 do Sassetti, 10 de Radiohead, 8 de Laurie Anderson, 20 de R.E.M., 10 de Tom Waits, 5 de John Coltrane, 8 de Eels. Nem vou falar da música dita erudita. Ao contrário dos melómanos mais dedicados, não tenho mais de duas ou três versões de coisas de que gosto mesmo, Bach (vários membros da família), Mozart, Haydn, Verdi, Berlioz, Britten, Simeon Ten Holt... Bom, vou parar.

Tenho alguns tiques de colecionador desde os anos 90, mas nada de particularmente grave. Gosto mesmo de música. Lembro-me de comprar os meus primeiros bootlegs no mercado de Camden. Lembro-me de gravar músicas da rádio em cassete e de fazer playlists em CD. Tenho conta no Music Box, Soundcloud e no Last FM e só o mês passado gastei uns setenta euros no iTunes. Sim, também já "saquei" música da Internet, mas acho que a esta altura é claro que nunca nenhum músico terá ido à falência por minha causa. Da colecção de vinis, o mais precioso nem é meu, é da minha mãe e foi o meu pai que lho ofereceu no dia em que casaram, "Bridge Over Troubled Water" de Simon & Garfunkel.

Profissionalmente nunca toquei nada, nunca cantei, nem sei. Já passei música aqui e ali e já escrevi muito sobre música, neste blog mas também antes disso e mais ficção do que qualquer outra coisa. No meu dia a dia profissional, a música está, felizmente, presente em grandes doses.

No tal meu livro que está por publicar, também há música, claro. Fica um exemplo.

 

Setembro de 1979. Passaram quase sete anos desde que voltou.
Um fim de tarde no parque, um concerto na relva.
No coreto toca um trio: piano, contrabaixo, bateria. Vão a meio de um Darn That Dream distraído. Josef pousou a máquina nas pernas, deixou de fotografar as pessoas à sua volta. Já gastou dois rolos na curiosidade dos que o rodeiam. Toda a gente conversa, bebe, come, ri, fuma materiais diversos, namora, aprecia a suavidade do tempo. No entanto, todos ouvem a música também, tem a certeza. A música está em todos os gestos, todos os sorrisos, a música é a brisa que vibra em tudo.
Vem lá uma década e o medo dela, uma nuvem de desilusão e sonhos desfeitos, mas ali sobrevive um refúgio, uma paz momentânea, um espírito que teima em não morrer. Tem a certeza de ter captado o instante em negativo, talvez no azul do céu, talvez nos verdes da erva, dos arbustos, das árvores, nas crianças saltitando por aqui e por ali, uma ou outra nua até, sem medo dos cães e dos puritanos, os seus pais bebendo vinho branco, adolescentes distraídos com beijos, com livros, universitários que também estudam ou fingem que estudam, mesmo os abandonados ao excesso, dias de pedra, dias de ressaca, fome insaciável de sexo nos olhares de perdigueiro. Todos ouvem.
Josef em casa na sua cidade, uma relva na sua cidade.
Vem alguém por entre as pessoas pedindo para passar com uma voz decidida mas infantil, passos laboriosos incomodando uma toalha de piquenique e um cão, os pés descalços e as sandálias de um rapaz de barba e cabelo comprido, outro de madeixas descoloradas e calças brilhantes coladas às pernas magras. Josef olha para trás. É uma rapariga franzina carregando uma caixa de violoncelo do seu tamanho. Pousa-a no chão, na relva, suspira de cansaço. Deixa-a tombar com cuidado, assegurando-se de que não vai cair, rebolar pela suave inclinação da colina. Só depois se senta ao seu lado, uma mão pousada sobre o instrumento, uma saia larga e florida a rodeá-la.

in "Virá a Morte e Terá Os Teus Olhos" (inédito)

 

Já agora fica aqui o tal "Darn That Dream" num dueto entre Bill Evans e Jim Hall, do "Undercurrent" (sim, tenho).

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