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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O bebé com a água do banho.

Foi tanta hoje a expressão mediática na Internet da morte de Steve Jobs que me chegou a incomodar. Sim, também eu, guilty as charged. A verdade é que o facto de estarmos num meio digital é capaz de ajudar a distorcer a percepção da realidade. E desconfio que nos próximos dias, semanas ou meses, vai haver gente a tentar enterrar a Apple com o seu criador. Aliás, a coisa já começou no dia anterior, com o lançamento do iPhone4S. Chama-se a isso "deitar fora o bebé com a água do banho".

Vamos lá a ver. A Apple é uma das mais ricas empresas do mundo. Conferir aqui. Criou alguns produtos tecnológicos fantásticos, tanto ao nível do hardware como do software. Teve outros tantos falhanços, que os sucessos se encarregaram de eclipsar. Teve um CEO que acompanhou os seus altos e baixos e a geriu com um fervor quase religioso, quase artístico e, com os sucessos, foi gerando formas diversas de cultos. Como todos os cultos, a irracionalidade foi uma componente importante, mas a irracionalidade é das ferramentas mais úteis para o marketing. Acho interessante o facto de parte importante das homenagens ao falecido serem anúncios, logotipos, ícones do culto. Veja-se a imagem que ilustra este post.

Em cima dos seus sucessos tecnológicos, a Apple tomou desde cedo a opção de construir ecossistemas tecnológicos fechados, em que dominasse completamente o hardware e o software. Nunca licenciou os seus produtos, nunca aderiu a formatos abertos, não seguiu o caminho da IBM, da Microsoft, do Google. Sempre preferiu ter menos quota de mercado, mas controlar totalmente a quota de mercado que tem. Não me lembro de outro exemplo assim, na história da tecnologia. Ajudem-me se houver. Em cima deste modelo, a Apple vendeu hardware, sobretudo isso. Mais. Inventou hardware. E com cada bocadinho novo de tecnologia, foi alargando o ecossistema, reforçando o ecossistema, abrindo a todos ou quase a possibilidade de lhe aceder e ganhar com ele, mantendo sempre o controlo. Esta é a história do sucesso do iPod, do iPhone, do iPad.

É verdade que esta capacidade de invenção e obsessão de controlo era personificada pelo senhor Jobs e mesmo com erros pelo caminho, não há dúvida que sabia o que estava a fazer, mas uma empresa não é um homem nem se enterra com ele. Parece-me a mim que o grande desafio da Apple é ser um bocadinho menos uma religião com um marketing assassino, para ser uma empresa um bocadinho mais como as outras. Sem perder o valor da sua diferença, dos seus trunfos. Um foi-se, ficam os outros.

Vai conseguir? A ver vamos...