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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Começo

Dois dias antes de morrer, Josef pensou “desta vez é diferente”.

Sentindo o Outono a chegar, o fotógrafo teve de admitir que até gostava do rapaz. Despertava-lhe uma curiosidade pouco habitual, pelo menos. Esfregou os braços num arrepio, procurou em vão o casaco que deixara no jipe, mas não lhe apeteceu ir buscá-lo. Um fim de tarde, um instante específico, logo na sexta-feira, último fim-de-semana de Setembro. Abanou a cabeça, tossicou a suster uma gargalhada no silêncio.

Os modelos profissionais eram-lhe de um modo geral indiferentes, nem o nome perguntava. Os mais destemidos, as mais atrevidas apresentavam-se, insinuavam-se mas esquecia-os em cinco minutos. Sorria cortês sem convicção, dirigia-os, fotografava-os e depois ignorava-os. Não imaginava que tivessem alguma coisa dentro para terem escolhido aquela profissão.

Agora era provável que tivesse de entender-se com outros sentimentos. Um rapaz a começar, com a mesma garra que ele, Josef, em tempos tivera. Suspirou, a hipótese era relevante e um flutuar da pulsação, talvez mesmo originado no peito, confirmou-o em forma de susto.

No céu, a prata, o cinzento, a baunilha, as grandes nuvens carregadas de chuva por entre os pinheiros, a vir do mar. Algures um sol mortiço a desistir do dia. A única cor viva do fim de tarde era a incandescência na ponta do cigarro. A madeira dos troncos e do alpendre, pesada, brilhante de humidade, o branco da cadeira de plástico, as garrafas de cerveja vazias em cima da mesa. A máquina digital abandonada como um maço de tabaco, o maço de tabaco.

Talvez seja da nudez do lugar, os pinheiros, a areia, a pouca mobília. Talvez seja das conversas durante a tarde, ele que nunca foi muito conversador. Talvez tudo contribua para lhe trazer à memória o jovem Josef, de máquina na mão preparado para enfrentar o mundo com insolência. Talvez essa tontura de tempo passado.

 

in "Virá a Morte e Terá Os Teus Olhos" (inédito)