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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O triunfo do humano.

Não me lembro exatamente de tudo o que aconteceu hoje à noite no concerto de Philippe Jaroussky e da orquestra barroca Apollo's Fire dirigida por Jeanette Sorrell.

Lembro-me do contratenor a entrar em palco, sem pausa entre o Allegro do Concerto Grosso em Ré maior, RV 511 de Handel e a «Agitato da due tempeste» da Oreste de Vivaldi. Lembro-me que algures durante a «Frà le procelle» do Tito Manlio de Vivaldi, um homem disse atrás de mim "é formidável!", marimbando-se no ritual de silêncio que costuma acompanhar estes concertos para exprimir o seu amor pela música e pela voz de Jaroussky. Lembro-me que em vários momentos quase me deixei levar pela emoção, quase fiquei de boca aberta, quase flutuei no assento. Lembro-me da festa que foi o Concerto Grosso La Follia, com o público a exigir que Sorrell voltasse ao palco por três vezes para agradecer as palmas efusivas.

A voz de Jaroussky é límpida e cristalina, capaz de proezas técnicas brilhantes. Sim, a música que ele canta tem mais de trezentos anos e é de uma época em que apenas os aristocratas lhe acediam e crianças eram castradas para garantir o futuro da sua voz angelical. Não vale a pena esquecer isso, levados pela emoção da «Alto Giove» composta por Porpora para o mais ilustre dos seus alunos, o castrato Farinelli. Foi um dos encores e está aqui.

 

 

Hoje podemos comprar um bilhete e temos felizmente um segundo (?) Ministério da Cultura na Fundação Calouste Gulbenkian que nos permite chegar à música de forma, apesar de tudo, mais democrática. Sim, mesmo com o preço dos bilhetes e com as limitações da carteira portuguesa, é mais democrática. Hoje, Jaroussky com a sua voz de violino e Sorrell com o seu entusiasmo e prazer evidente (também nos seus músicos) emocionam-nos e fazem-nos crer na música como atividade profundamente humana.

A certa altura fiquei a pensar neste vídeo partilhado pelo José Carlos Baldino no Facebook, em que Eduardo Galeano fala do direito ao delírio e de como a utopia nos serve para ir caminhando rumo ao horizonte. Sim, é isso também a música. Nem me importa muito que horizonte escolhemos. Religioso? Pagão? Humano apenas?

Não me lembro quantos encores houve. Três? Quatro? Foram poucos. E acabaram com chave de ouro, como pedia o Barroco (ainda me lembro das minhas aulas de Português do Secundário), com a maravilhosa "Ombra Mai Fu" de Handel. Aqui abaixo fica a versão de Andreas Scholl, só porque também ele vai pisar o palco da Gulbenkian a 7 de Fevereiro para cantar "o velho Bach".

 

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