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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Libertinos.

A natureza das relações, daquilo que chamamos amizade e amor, dos compromissos, das infidelidades e também da família, todos estes temas sempre me interessaram e sobre eles escrevi. E o desejo claro, o desejo como motor de parte importante do comportamento humano, nomeadamente o desejo da posse do outro.

Um dos muitos derivados destes temas é o da libertinagem como limite da liberdade. Da leveza? Da irresponsabilidade? Do desprendimento? Do engano? Por algum motivo, o Don Giovanni de Mozart continua a ser provavelmente a minha ópera favorita. De libertinos reais e ficcionais está aliás cheia a história da cultura europeia. Tome-se como exemplo Casanova que ainda por cima também escreveu.

Outros escreveram também por Casanova, como António Mega Ferreira com as suas Cartas de Casanova - Lisboa, 1757. Lerei em breve, se tudo correr bem, mas antes que tal aconteça, chamou-me a atenção a capa. A ideia de usar o L'Escarpolette de Fragonard de 1767 é boa. A ideia de cortar o lado direito do quadro é má.

Um amigo publicou o quadro completo que reproduzo abaixo. Na capa lá está a feliz mulher no seu baloiço, sapato pelos ares e saia esvoaçante, oferecendo um bom ângulo de visão ao amante na moita. Falta o marido cornudo que é quem empurra o baloiço, satisfeito no divertimento da mulher, ignorante das frivolidades em que ocupa o seu tempo.

Interessante, porque a Net tem destas coisas, foi descobrir também a instalação de Yinka Shonibare, The Swing (After Fragonard) de 2001 que cita diretamente e crítica ao provocar estranheza no que seria familiar (o padrão do tecido, a cor da pele, a cabeça ausente, a tridimensionalidade). Despoja a cena dos homens e interroga aquela mulher, num contexto histórico, cultural e geográfico radicalmente diferente.

Hei-de escrever um libertino. Ou mais. E o género poderá até variar. Ou não.