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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Sobre a nova XBox.

Ah, as guerras da sala de estar, há tantos anos que ouço falar delas. Computadores versus consolas versus set-top boxes. Operadores de telecomunicações e serviços over the top. Players globais e mercados locais. É uma história interminável. E em muitas destas salas de estar residem consolas de jogos, um mercado dominado por três grandes fabricantes: Sony, Nintendo e Microsoft.

A história conta-se em três simples passos:

  • No final do século passado, as consolas conseguiram entrar em força nas salas de estar do mundo. Eram tempos de prosperidade, de boom da indústria do entretenimento, a Internet de banda larga estava na sua infância e a qualidade audiovisual destas máquinas ia muito à frente de qualquer outra plataforma interativa.
  • Depois a banda larga começou a ganhar cada vez mais espaço e atenção no nosso escasso tempo disponível. Veio o Google, a AmazonYoutube, o Facebook, os jogos casuais, os telemóveis com gráficos decentes, o Netflix, o iTunes e o Spotify. E os operadores de telecomunicações, donos e senhores do acesso ao ciberespaço, abriram as torneiras (continuam a abri-las) mas perceberam também que iam ter de criar serviços de valor acrescentado para manter as suas margens. Em muitos casos, lutando em espaços já ocupados ou em áreas onde o seu conhecimento era escasso como o da indústria de conteúdos. As consolas tinham conteúdos e trataram de se ligar à rede com sucesso difícil e variável. Toda a gente estava a ter de sair da sua zona de conforto para manter os rendimentos.
  • Depois veio a nova idade de ouro da televisão, dos blockbusters de cinema e dos jogos que custam tanto como um grande filme ou série. Os conteúdos estão mais caros do que nunca e são mais vistos do que nunca. E há 'n' serviços de música, de vídeo, além das redes sociais, da explosão do user-generated content. Tirando o caso dos telemóveis (e mesmo aí...) o fetichismo da tecnologia digital está a perder-se um pouco. O objeto que nos dá acesso tornou-se finalmente menos interessante do que aquilo a que nos dá acesso. E aí está o busílis do problema dos fabricantes de consolas. Repararam como a XBox One parece uma set-top box?

Por definição, uma consola é um objeto que um fabricante de eletrónica nos quer vender, para o termos na nossa sala de estar e com ele consumirmos conteúdos produzidos, licenciados ou produzidos em parceria por esse fabricante, sobretudo jogos. E o problema aqui é um problema de perceção, não é um problema de tecnologia.

A perceção dominante continua a ser de que as consolas servem para jogar. Nas mentes de quem tem de pagar por elas (os pais) é até muitas vezes pensado como um brinquedo. Um telemóvel ou smartphone ou um computador são coisas úteis. Uma set-top box é o que nos permite ver televisão e "fazer coisas" com a televisão de maneiras cada vez mais diferentes. Uma consola... serve para brincar.

Já tinha sido visível, embora menos, no anúncio da nova Playstation 4. Ontem, no anúncio da XBox One meteu-se pelos olhos a dentro. A presença dos jogos foi bem mais reduzida que o costume. Falou-se imenso de televisão, de partilha, de dinâmicas de rede social. Algumas coisas não mudaram. As consolas continuam a tentar ser a tecnologia mais avançada que temos ligada a um ecrã na sala de estar. Qual é o problema? A sala de estar já não é o que era. A os serviços de televisão já são on demand e até user generated, as próprias televisões, HD e 3D, estão cada vez mais smart. Que espaço por ocupar resta?

Em mercados pequenos e deprimidos como o português, a população consola-se a ver o Big Brother VIP e o rendimento disponível para substituir tecnologia e comprar entretenimento é cada vez mais reduzido. Não é só um problema das consolas, mas de toda a indústria e tecnologia do entretenimento.

Esperemos os próximos capítulos. Para já vale a pena ver esta montagem rápida do lançamento de ontem. Resume bem do que estou a falar.