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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Sim, gostei do Pacific Rim.

Já devo ter dito aqui mais do que uma vez o óbvio, que há muitos tipos de cinema. Pacific Rim, de Guillermo del Toro é do tipo barulhento, cinético, espetacular, apocalíptico, orgulhoso das suas múltiplas filiações.

Os personagens são de papelão sim, com uma dinâmica próxima de digamos... um Top Gun, mas ao menos os comic reliefs de serviço escapam ao primarismo mais frequente neste tipo de cinema, o racista ou sexista. Não me lembro de ver um único decote e é um negro que manda neles todos. Na verdade, os comic reliefs aqui são nerds, geeks e tratados com o carinho de quem sabe pertencer a essa mesma tribo.

Os diálogos não são memoráveis de todo talvez com exceção da meia dúzia de frases em que a personagem de Idris Elba promete cancelar o Apocalipse. Não é por nada que uma e outra vez o fez no trailer (abaixo). Por momentos pensei que ele fosse citar o Henrique V de Shakespeare... We few, we happy few, we band of brothers; For he to-day that sheds his blood with me Shall be my brother.

Depois há todas as filiações óbvias de meio século XX de banda desenhada, animação, jogos, televisão, os Godzillas, os Transformers, os Power Rangers, Evangelion e Star Trek, porque não? Mindmeld, anyone? Não é por nada que a história se centra em torno do oceano que une e separa o Japão do país que nele fez explodir duas bombas atómicas. No coração deste filme está o amor à cultura popular ou, pelo menos, uma das suas dimensões histórica, com tudo o que isso implica de reciclagem do já-feito e de reconhecimento do que já vimos antes. Mas diferente. Não é um cinema de invenção e descoberta no seu âmago, é-o na imagem, no espetáculo com que nos mostra de novo aquilo que já conhecíamos.

E assim chegamos à última filiação, a filiação nos brinquedos, na infância, nas explosões de ruídos feitos com a boca, nos bonecos de plástico ou lata que fazemos voar pelos ares como se tivessem trinta metros de altura, nos monstros que boiavam feitos de borracha na água do banho. No fim, no fim, senti-me uma criança que tinha passado duas horas a brincar com um brinquedo realmente sofisticado. E acho que era isso que o Guillermo del Toro queria.