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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Quero uma mala Chanel.

Quis o destino que, na antestreia de The Bling Ring de Sofia Coppola, ficasse sentado ao lado de duas criaturas que, informam-me, participaram num reality show de nome A Casa dos Segredos. Daquelas coisas em que se entra para ver se se ganha algum dinheiro mas, mais que tudo, fama suficiente que permita construir uma carreira nas revistas chamadas cor-de-rosa. Parece-me a cor certa, fácil de associar a filmes de terror, como a casa da Paris Hilton.

Sofia Coppola sempre me pareceu uma cineasta da contenção, esperando que no espaço da sala de cinema, entre os seus atores, a sua luz, os seus diálogos e os espetadores no escuro se gerasse um conforto ou desconforto capaz de nos mover como o bom cinema é suposto mover. Não resulta sempre, não resulta com todos os espetadores mas neste filme, essa sua tendência para um cinema do esboço parece adaptar-se bem ao material kitsch do excesso, até por adotar um ponto de vista moral que vacila entre o horror e o riso perante um abismo de onde ninguém pode (nem quer) sair vivo.

A realizadora não é obviamente estranha ao mundo das colinas por cima de Los Angeles, Hollywood, Bel Air, Mulholland Drive, Laurel Canyon, nomes que nos assaltam de um século de cinema e dos seus protagonistas, onde a família Coppola construiu parte importante da sua vida. E filma esses lugares com evidente deleite, os horizontes de luzes brilhando na escuridão, aquele lento zoom sobre a casa de alguém que é assaltada, os saltos altos ecoando no alcatrão enquanto se experimenta em que carro será possível uma joyride.

O elenco e a banda sonora, como é habitual também, servem-na na perfeição. Num caso e noutro vacilamos sempre na linha da dúvida. Kanye West, casado com Kim Kardashian, percebe a ironia de licenciar a sua música para este filme? E isso importa-lhe ou é tudo parte do jogo? E aquelas atrizes (e ator), terão de se esforçar muito para parecerem caras larocas e ocas ou é o seu estado normal? E isso interessa? Ou construir um filme como este é só uma espécie de nó no vazio? Como ter uma atriz a fazer de jornalista que entrevista personagens baseadas em pessoas reais e cujo artigo (da jornalista) serve de base ao argumento do filme. A realidade não interessa nada porque não existe.

Mais do que outros de Coppola, para além da segurança óbvia do seu trabalho, o filme é daqueles que nos deixa a pensar. Que vida é esta em que alguém tem como objetivo de futuro uma mala de marca? Que vida é esta em que estar do lado de lá da lei pode ser um bom caminho para aparecer com frequência na web, na televisão, onde calhar? Ainda ontem vi à venda a Rolling Stone que tem na capa o bombista de Boston. A ordem dos fatores é arbitrária, sem particular crueldade, sem aparente consciência, com uma naturalidade vazia de quem nasceu e se move num mundo feito só de superfície.

Estreia amanhã em Portugal. Vão ver. O trailer está aqui abaixo.

 

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