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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O prazer do cinema.

Termina hoje o Lisbon & Estoril Film Festival '13, dez dias de verdadeira festa com conversas, leituras, masterclasses, concertos e sobretudo filmes, muitos filmes. A exibição de filmes decorreu em pelo menos seis espaços: as quatro salas do Medeia Monumental, o Espaço Nimas e o Centro de Congressos do Estoril (uma sala impecável que eu não conhecia e devia ser mais aproveitada para cinema). Quer isto dizer que em alguns momentos podia haver até seis sessões simultâneas. Um labirinto de cinema.

Vi menos do que devia mas mesmo assim, vi bastante. A saber: La Vénus à la Forrure de Roman Polanski, Inside Llewyn Davies dos irmãos Coen, Harmony Lessons de Emir Baigazin, A Glimpse Inside the Mind of Charles Swan III de Roman Coppola, Only Lovers Left Alive de Jim Jarmusch, The Grandmaster de Wong Kar Wai, Cadences Obstinées de Fanny Ardant e se tudo correr bem, hoje verei The Immigrant de James Gray, um dos meus cineastas americanos favoritos.

Também vi Don DeLillo, um dos meus heróis literários, a ler partes da sua obra, enquanto no público estavam outros dois, Paul Auster e J.M. Coetzee. No ecrã passou uma versão do famoso ou infame filme Zapruder, desacelerada, remontada, trabalhada de 26 segundos para 11 minutos.

Ontem, para além de tudo isto, vi um filme absolutamente excecional, entre tantos filmes bons, muito bons, excelentes, La Vie d'Adèle - Chapitres 1 & 2 de ‎Abdellatif Kechiche, com ‎Adèle Exarchopoulos e ‎Léa Seydoux.

É um melodrama perfeito, entre a adolescência e a idade adulta. É uma história de amor homossexual que não hesita em mostrar o que tem a mostrar (não me interessam as polémicas) para nos dar a intensidade e o voyeurismo que, de outra forma, noutro tempo, o melodrama hollywoodiano também nos tentava dar lutando contra os censores. O elenco é extraordinário, com o inevitável destaque para as duas atrizes principais. Os diálogos demoram o tempo de que precisam para viverem de emoção e realismo, causa e consequência. Os temas políticos, sociais, artísticos estão lá para ajudar na consistência da história sem nunca ocuparem o primeiro plano. São três horas de grande cinema, íntimo, verdadeiro, com uma densidade rara, alternando entre a subtileza e a crueza.

É interessante que filmes como Brokeback Mountain, Weekend e agora este La Vie d'Adèle estejam a recuperar o grande melodrama do cinema com qualidade de argumento e realização, com atores capazes de transmitir essas emoções (por vezes) estranhas para o grande público.

E do princípio ao fim, sentimos aquele amor, a emoção e o prazer do cinema. Que é o que interessa.