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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Comunicar, Sustentar, Inovar.

Estive na sexta-feira passada em Tomar, como convidado da Direção Geral do Património Cultural, para falar sobre museus e monumentos, sob o tema genérico 'Comunicar, Sustentar, Inovar'. Programa completo aqui. O acolhimento foi caloroso, o encontro foi magnífico, os participantes interessantes. Um dos momentos altos foi uma visita de véspera, de noite, às obras de recuperação da charola do Convento de Cristo. Inesquecível. Aqui ao lado, uma foto de um pormenor de um capitel e arco em talha dourada. A qualidade da fotografia é medíocre e não faz justiça à qualidade do que fotografou e do trabalho dos técnicos responsáveis.

Em relação à minha comunicação, tinha como título 'Conta-me Histórias'. Escrevi um texto que depois acabou por servir mais como cábula para o que fui dizendo. Quando o escrevi não conhecia o formato exato dos painéis e acabou por ser bem mais interessante interagir com o que diziam a Paula Moura Pinheiro e a Teresa Cruz, com a moderação atenta do Manuel Vilas Boas.

Seja como for, fica o texto original completo abaixo.

 

Sou uma espécie de intruso num encontro sobre Monumentos e Museus mas gostava de partilhar convosco algumas ideias.

Não serei completamente um intruso porque trabalhei no Ministério da Cultura quando ainda existia, nos anos 90, e tinha como missão contribuir para uma crescente presença multimédia de tudo o que era do domínio da cultura. Isso incluiu naturalmente museus e monumentos. Estamos a falar de 1996. A Internet comercial era uma recém-nascida em Portugal, saída da lama primordial universitária. Era realmente inovador pensar em sites de museus e monumentos. A maior parte de nós ainda pensava em CD-ROMs e CD-Is. Havia disquetes. Coisas que a história se encarregou de devorar.

Saltemos para o presente e tentemos perceber, quase vinte anos depois, que paisagem mediática é a atual, dominada pela Internet, essa Biblioteca de Babel que gera e devora mundos. E tentemos encontra nessa paisagem pistas que possam servir Museus e Monumentos.

Não vou perder tempo a dizer o óbvio, que devem ter sites bonitos, funcionais e úteis, que devem ter presença nas redes sociais, que podem até ter já o seu próprio canal de televisão. Vão-me perdoar que vá buscar referências dispersas a universos um pouco mais distantes deste para fazer valer alguns pontos de vista.

 

Laurie Anderson, artista, música e performer perguntava numa canção sua se o tempo era comprido ou era largo. Is time long or is it wide? Estando nós a falar de um domínio marcado pela História, a pergunta parece-me de toda a relevância.

Esquecendo por momentos Einstein e a relatividade, tradicionalmente pensamos no tempo como uma continuidade, uma sucessão, uma linha que nos conduz desde o passado, nos intercepta no presente e desaparece difusa no futuro. A mesma Laurie Anderson cita Walter Benjamin noutro disco, outra canção e diz-nos que a História é um anjo voando de costas para o futuro, olhando para os destroços do passado.

Na verdade, o que propõe Laurie Anderson na sua pergunta visionária de 1994 é que com a sobredosagem mediática que nos envolve no dia-a-dia, cada instante da nossa história é cada vez menos um momento numa cronologia para ser uma simultaneidade imensa de momentos possíveis e acessíveis instantaneamente.

Não que a história não tenha sido sempre feita de simultaneidades. A nossa produção sobre ela e a visão que conseguíamos ter sobre essa produção é que eram provavelmente mais estreitas.

Alguns números para ilustrar o que digo.

Em 1930, eram tiradas mil milhões de fotografias por ano. Parece um número grande mas em 2012 foram tiradas mais de 380 mil milhões de fotografias. Mais de mil milhões por dia. E estou só a falar de fotografia. Em cada minuto que passa há cem horas novas de vídeo no YouTube. Em cada dia no Facebook, há 55 milhões updates de estado. No Twitter são mais de 500 milhões de mensagens de 140 caracteres por dia.

Não sei nem consegui descobrir quantas fotos são tiradas a monumentos todos os anos. Calculo que em museus sejam menos, até pelas restrições que muitos impõem.

Em 2011, um supercomputador da Universidade de Cornell nos Estados Unidos analisou mais de 35 milhões fotografias do Flickr, feitas por mais de 300.000 pessoas, e ordenou as cidades mais fotografadas da seguinte forma: em primeiro lugar Nova Iorque, em segundo Londres, depois São Francisco, Paris, Los Angeles, Chicago, Washington, Seattle e Roma. Nota-se bem que é um serviço americano.

Eric Fischer analisou também milhões de fotografias georreferenciadas e chegou uma outra conclusão que nos pode parecer óbvia de que os autóctones seguem percursos e fotografam coisas diferentes dos turistas.

Isto talvez ajude a explicar que no Instagram, os dois sítios mais fotografados em 2012 tenham sido um aeroporto e um centro comercial na Tailândia. Em terceiro... a Disneyland na Califórnia.

Tudo isto para afirmar que a nossa capacidade para produzir aquilo a que chamamos conteúdo há muito superou uma percentagem mínima que fosse da nossa capacidade para o selecionar e consumir.

E isto torna-se confuso não só no eixo da simultaneidade mas na duração mais clássica do que é o tempo.

Só um exemplo: lembro-me de em 5 de Maio de 2012 ter visto aparecer no Facebook lamentos numerosos pela morte de Vasco Granja, acontecida no dia 5 de Maio, sim, mas três anos antes, em 2009. Além de prova de curta memória, demonstrava também o frenesim dos dedos na partilha, que clicam antes de ler, a data que seja. A notícia partilhada tinha dia, mês e ano no cabeçalho. Mas o que é que interessa a memória?

Teremos talvez perdido a noção do tempo e do espaço, da causa e da consequência, da realidade e da ficção, do acontecimento e do seu contexto, da árvore e da floresta.

Don De Lillo, no seu romance de 1985, “Ruído Branco”, leva as suas personagens a visitar um lugar turístico que tem como nome “o celeiro mais fotografado da América”. Não vou ler tudo, por muito que me apetecesse, mas há algumas frases que podem contribuir para iluminar isto de que estou a falar. Diz uma personagem:

Não estamos aqui para captar uma imagem, estamos aqui para a manter. Cada fotografia reforça a aura. Consegues senti-la, Jack? Uma acumulação de energias sem nome.

E mais à frente:

Estar aqui é uma espécie de rendição espiritual. Vemos apenas o que outros veem. Os milhares que aqui estiveram no passado, aqueles que virão no futuro. Concordámos em fazer parte de uma percepção coletiva. Literalmente, tinge a nossa visão. De certa forma uma experiência religiosa, como todo o turismo.

E por fim:

Estão a tirar fotografias de tirar fotografias.

Escrito ainda nos anos 80. Só havia Internet nas universidades e algumas instituições militares.

Não vou entrar muito pelo caminho da relação entre monumentos, museus e turismo. Haverá gente mais habilitada para isso. Mas esta passagem lembra-me as imagens criadas pela artista Corinne Vionnet a partir da sobreposição de centenas de fotografias de monumentos feitas por turistas. Resulta uma espécie de estranho fantasma, a perfeita imagem do tal tempo largo em que num mesmo instante conseguimos ver a simultaneidade sobreposta.

Deixemos por instantes esta overdose e aproximemo-nos aos poucos das histórias que dão título a esta comunicação. Talvez sejam uma estratégia que nos ajude.

 

Para além de ter trabalhado no Ministério da Cultura, trabalho há muitos anos em audiovisual e multimédia. E pegando nessa linha do meu percurso, gostava de vos ler outra citação, esta do ator Kevin Spacey.

Spacey é entre muitas outras coisas, ator principal de uma série americana de sucesso de nome House of Cards que é, de alguma forma, uma revolução na maneira de distribuir e ver televisão. Só como contexto, diga-se que todos os episódios da série foram lançados ao mesmo tempo e não em semanas sucessivas, como era tradicional. E isto não aconteceu num canal de televisão mas num serviço de video on demand americano, o Netflix.

Simultaneidade mais uma vez. E milhões de americanos (e depois todos os outros) consumiram os episódios vorazmente, vários, por vezes todos de seguida. Sem espera. Horas nisto.

Para Spacey, contudo, o verdadeiro motivo do sucesso da série não é a inovação ao nível do formato de distribuição. Diz ele:

O público falou: querem histórias. Morrem por histórias. Estão a torcer para que lhes demos a coisa certa. E vão falar sobre o que lhes dermos, vão devorá-lo, levá-lo no autocarro e para o cabeleireiro, chatear os amigos até verem também, tweetar, blogar, partilhar no facebook, fazer páginas de fãs, GIFs parvos e sabe Deus que mais. Vão envolver-se com uma paixão e uma intimidade com que um ‘blockbuster’ de cinema só pode sonhar. Só temos de lhes dar o que eles querem. O prémio está aí mesmo. Mais brilhante e sumarento do que alguma vez antes.

Vamos descontar ao senhor Spacey o seu entusiasmo em relação à televisão e em relação ao público televisivo. Há obviamente aqui uma certa dose de otimismo. E alguns perigos, claro.

Jonathan Friedland, do Netflix, explica como a série foi para a frente. Não houve episódio piloto, o conceito não foi testado previamente. “Porque temos uma relação direta com os consumidores, sabemos o que as pessoas gostam de ver e isso permite-nos prever o interesse por uma determinada série.”

O Netflix recolhe informação detalhada sobre a maneira como os seus milhões de utilizadores veem, pausam, rebobinam, classificam e comentam cada filme, cada série. Estatisticamente, sabem ao pormenor de que gostam os seus clientes.

Uma espécie de Big Brother.

Pergunta a jornalista Jessica Leber: “Serão algum dia os argumentos escritos para responder aos caprichos estatísticos das empresas mediáticas? Será um algoritmo a produzir conteúdo para agradar aos nichos de audiência do Netflix?” Estou certo que a indústria de conteúdos adoraria se tudo fosse feito por máquinas, sem as imprevisibilidades humanas do talento. E soa-me a Orwell, mais uma vez, uma espécie de Ministério da Verdade.

Tomemos, contudo, como sincera a paixão do senhor Spacey pelas histórias. Dêmos-lhe razão. E a paixão pelas histórias interessa-me realmente.

Parecemos estar de facto a atravessar uma Idade de Ouro em televisão e, sobretudo, na forma de contar histórias em televisão. Estamos a falar de séries como Os Sopranos ou Mad Men, The Wire ou Breaking Bad, só para citar alguns exemplos, que se dão ao trabalho de demorar dezenas de horas a contar a sua história, a situar e a dar densidade aos seus personagens, a construir complexidades e tramas que criem sentido e envolvam os espetadores. A nossa atenção audiovisual pode durar horas seguidas e não apenas a meia hora a que nos tínhamos habituado.

Em tudo o oposto ao dilúvio de instantâneos que nos dá a Internet.

Mesmo no cinema, a aparente praga de sequelas e ‘prequelas’, filmes desdobrados em mais filmes, universos ficcionais que atravessam filmes, jogos e séries de televisão parecem ser uma resposta à nossa necessidade de narrativas longas, mais abrangentes, mais complexas. Além de uma boa maneira de os estúdios fazerem dinheiro, claro.

Chamo-vos a atenção de que não referi as séries que podem ofender a sensibilidade dos historiadores. Os Bórgia, os Spartacus, os Pilares da Terra desta vida.

Temos portanto, de um lado, milhares de milhões de pequenos elementos de conteúdo, atomizados, dispersos, cada um chamando pela nossa atenção, propagando-se na rede como parasitas do nosso interesse, da nossa capacidade de lhes dedicar uns segundos que sejam. Aquilo a que o pessoal do marketing chama a nossa share of eyeballs, o tempo que perdemos a olhar para essas coisas. E naturalmente também a share of wallet, o dinheiro que gastamos com elas.

Do outro lado e em competição por um tempo mais demorado, temos séries, filmes e livros, universos ficcionais cada vez mais complexos, sagas de milhares de páginas, de dezenas de episódios que nos propõem que entreguemos dezenas, centenas de horas da nossa vida a apaixonarmo-nos por pessoas que não existem a viver histórias que não existem em lugares que talvez existam.

Serão irreconciliáveis? Encontraremos sentido em algum dos lados?

Avancemos para outra questão que me preocupa já há anos e nos pode ajudar a ligar estas pontas soltas.

 

Ser autor era, em tempos, uma coisa única: alguém romanticamente pintado com o dom da inspiração e a suficiente disciplina de trabalho e que, por mérito artístico ou comercial, acedia aos complexos processos da edição, da produção e da distribuição e via a sua obra nos escaparates, nas salas, nos ecrãs. Em casos famosos, o reconhecimento vinha depois da morte, na maior parte, esperava-os o anonimato. Os outros, os que viam a luz da ribalta, tornavam-se os heróis da nossa cultura.

Ser autor é hoje mais fácil que nunca: basta aparentemente ter um telemóvel, uma ideia e uma ou duas ferramentas gratuitas de software. Mais, mesmo ser curador, no mundo digital, mais não é do que revelar, distribuir, partilhar os conteúdos certos, mesmo quando a sua autoria é incerta. Uma espécie de democracia sem critério, um afã de ver e ser visto onde todos podemos partir do zero, um panoptycon onde todos somos vistos, vemos, vigiamos e punimos ou recompensamos.

E cada um destes autores encontra o seu público, seja este meia dúzia, milhares, ou milhões. Na Net, a família que nos recompensava pelo nosso desenho infantil, pela nossa redação da escola, pelo nosso teatrinho, pode estar a milhares de quilómetros de distância.

Algumas das maiores estrelas da música pop atual, começaram por partilhar os seus vídeos no YouTube. E esses exemplos alimentam o sonho de milhões, mais do que nunca.

Em tempos acreditei que a democratização do acesso à tecnologia era por si geradora de uma explosão de criatividade que, por via de outra democratização, a do consumo dos media,  naturalmente iria fazer deste um mundo melhor, mais informado e mais culto.

Hoje não acredito que as percentagens se tenham alterado.

As massas continuam as massas, os turistas culturais continuam um número razoável, talvez um pouco maior por efeito do transporte low cost, as elites consumidoras de cultura continuam uma minoria. Alguns criadores novos conseguiram contornar os processos de seleção que o século XX tinha estabelecido – a galeria Saatchi em Londres, por exemplo, faz bom uso do online, nesse aspeto; a edição literária está a braços com esse fenómeno – mas o mundo move-se razoavelmente como sempre se moveu.

A diferença é que tudo é... mais. Há mais conteúdo disponível, há mais pessoas com acesso a esse conteúdo, há mais pessoas a produzir conteúdo e a lutar pela relevância do seu conteúdo.

Já dizia McLuhan, In the electric age, we wear all mankind as our skin, uma espécie de perturbante promiscuidade electrónica.

 

Museus e monumentos, como os biliões de imagens, partilhas e comentários, histórias, livros, filmes e vídeos de todas as durações, neste imenso universo virtual, estão na mesma luta, uma luta pela relevância e atenção de quem consome a infinita paisagem mediática.

Museus e monumentos, em relação à maior parte dos seus concorrentes, têm à partida uma extraordinária vantagem. Trazem consigo histórias, as tais histórias pelo que o público anseia. São histórias. Não precisam de as inventar. Fazem parte da História. Do passado, do presente e, esperemos, do futuro do que somos.

Descontemos desta conversa a questão da presença, da aura de estar no lugar. Isso é, concordo, ainda difícil de reproduzir. Percebamos sim como esta presença no espaço mediado em rede pode contribuir para potenciar esse encanto mas não só do lado de uma empatia irracional. Também de um lado informado, de uma experiência enriquecida.

Acredito que isso é o que as histórias nos podem dar.

Em primeiro lugar falamos obviamente da História com agá grande, aquela que pode ser revelada, interpretada e contada por especialistas, que pode enriquecer de contexto, de tempo, de antes e depois, de personagens reais, cada objeto, cada lugar. Este é o trabalho dos arqueólogos, dos historiadores, dos historiadores de arte, dos curadores.

Nem sempre, contudo, o especialista é o melhor contador de histórias e há que forjar alianças com os que contam histórias em cinema, em televisão, em livro, em multimédia se, para além do espaço do museu e do monumento, quisermos conquistar os olhos daqueles que se movem na paisagem mediática onde a concorrência é feroz, quer de quem produz, quer de quem consome.

E aí entra outra coisa de que vos posso falar: o verdadeiro contador de histórias, com agá pequeno, aquele que não está necessariamente preso à realidade, ao facto, à verdade. Infelizmente não só aquele que assume a sua imaginação, a sua liberdade criativa, mas também aquele que, sob o manto aparente da investigação, da inspiração na realidade – expressão sempre perigosa –, nos vende a mentira da ficção com selo de garantia de verdade.

Note-se bem, não proponho a ninguém que se transforme museus e monumentos em fantasias delirantes de Dan Browns, Rodrigues dos Santos, um sem número de autores e editores que vão povoando o universo da chamada ficção histórica – por muito que esses autores possam contribuir para encher os cofres das bilheteiras de museus e monumentos.

Proponho uma coisa mais simples mas simultaneamente mais difícil. Proponho que os especialistas aprendam a contar histórias – os que ainda não o souberem fazer, claro. E isso quer dizer o quê? Contar histórias é uma mistura de desenrolar os ritmos certos do tempo e do espaço, de alimentar a emoção, de estimular a imaginação.  E aposto – uma aposta fácil – que todos nesta sala já sentiram isto num museu, num monumento.

Num mundo saturado de apelos mediáticos, cabe a todos os que trabalham nesta área não só saber senti-lo mas, muito mais importante, saber transmiti-lo. E se não souberem, trabalharem com quem saiba. Porque creiam, se não o fizeram, o senhor Dan Brown fá-lo-á com grande mestria, lucro e qualidade final duvidosa.

Além de especialistas, sejamos também então contadores de histórias.

Para quem se sentir com energia para tal, para quem tiver tecnologia ou orçamento para tal (que o dinheiro é também uma tecnologia), proponho ainda a coragem de se abalançar a uma tarefa adicional. Trabalhem com os vossos visitantes, espectadores, turistas, curiosos.

Entre todas as fotografias, todos os vídeos, todos os posts sobre monumentos, museus e as obras que albergam, entre todos estes conteúdos produzidos pelo público, alguns são sinceramente bons, alguns ajudarão a contar as histórias que queremos contar e no processo ajudar-nos-ão a criar empatia com os nossos visitantes, os nossos espectadores, e aí então, os nossos participantes.

Projetos como o InStory da Quinta da Regaleira, por exemplo, tentam precisamente isso mas eu diria que mais do que criar ferramentas específicas, se trata de usar aquelas onde todos estão: Facebook, Instagram, Google, YouTube. E estar atento, sempre atento.

O que se pede pode parecer bizarro mas o resultado, gratificante: além de ser curador de coleções, conservador das obras de arte, gestor, guia, divulgador do património, pede-se que desempenhemos exatamente as mesmas funções neste meta-universo constituído por aquilo que todos, nós incluídos, produzimos como conteúdos sobre esses lugares e objetos.

Este era o contributo que me pareceu que podia dar para esta discussão. Limitei-me a deixar pistas e garanto-vos que tenho mais dúvidas do que certezas. Mais do que tudo, parece-me que é essencial que todos nesta sala, todos os que se interessam, pensem a sério sobre o assunto, não encolham os ombros em relação aos media digitais onde vos parece que estão apenas os vídeos de gatinhos a tocar piano.

Nesses lugares, nessas espécies de alucinações colectivas, está também o futuro da nossa cultura.

Obrigado.