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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Isto anda tudo ligado.

Na China abrem catorze novas salas de cinema por dia, em Lisboa fecham algumas das que fazem parte da minha história (também abrem outras, é verdade, e algumas prometem) e o Londres vai ser, ironia interessante, uma loja "de chineses". Os "chineses" estão entre aspas por vários motivos, primeiro porque as lojas de produtos baratos não são exclusivas de nenhum povo, depois porque na China há cada vez mais milionários que, se vierem a Lisboa, preferem a Avenida da Liberdade. Mais uma ironia: esta avenida, com este nome, tem cada vez mais lojas a que podem aceder poucos portugueses.

É a vida. Num quarteirão da baixa onde havia pequeno comércio e a Adega dos Lombinhos, parece que vai existir um Hilton. Alterou-se a lei das rendas e não me lembro de uma Lisboa tão frenética no seu abre e fecha. A crise ajuda, claro.

Em Londres, há arranha-céus no centro histórico e atropelam-se uns aos outros. Em Nova Iorque, destrói-se e constrói-se sem parar e ter um mayor milionário não deve ter ajudado. Cidades dinâmicas são assim. Ou não são? Como em tudo, espera-se que haja algum equilíbrio, uma visão sobre o que queremos preservar (e preservar não é deixar como está até cair de podre), qual é a alma que queremos para o lugar onde vivemos. Eu vivo em Telheiras que tem alma de subúrbio mas uso Lisboa toda para trabalhar, divertir-me, passear e preocupam-me estas coisas.

Arquitetura também é cultura, o urbanismo dá forma aos lugares que habitamos. Portugal não tem movimentos cívicos com peso e dimensão suficiente que consigam intervir nestas coisas e mesmo as pessoas que se preocupam (como eu), raramente passam da indignação de café, de facebook ou de post (este). A não ser que morra o Eusébio. Adiante. De cultura, no nosso país, estamos conversados.

Mas o património, senhores! A pedra construída, a obra de arte no museu. Mesmo que a arte contemporânea vos pareça bizarra e desnecessária, certamente quererão preservar a história, não? Não, deixem lá isso, a memória é uma coisa perigosa para quem nos prefere em democracia pop. O tempo longo dá trabalho e nunca se sabe bem onde vai dar. O tempo curto anda em círculos e vai sempre parar aos mesmo sítios, como um cão que persegue a sua cauda. E esses sítios são de preferência ecrãs.

Ecrãs! Chegamos finalmente aos ecrãs e, de vez em quando, até acontecem coisas interessantes nos ecrãs, até na nossa obscena televisão. Uma das coisas que anda a acontecer chama-se "Nada Tenho de Meu" e é uma série de Miguel Gonçalves Mendes, o realizador de "José e Pilar". Eu sei que são pessoas preguiçosas (ou talvez não - se chegaram até aqui neste post, mereciam um chocolate, pelo menos) e carregar no botão 2 do vosso comando é coisa de muito esforço. Mas já que estão na Internet, podem ir ver aqui os três primeiros episódios. Também estão no MEO Kanal, botão verde e 800009. E também há em tecnologias mais primitivas, livros e rodelas de plástico e essas coisas.

A série, ainda por cima, fecha este post em círculo para não sairmos do mesmo lugar, visto que anda pelo extremo oriente, essa terra de chineses, naquele estilo de vídeo impressionista e poético de que muito gosto no Miguel, sem deixar de ir ao fundo, de nos fazer pensar. É um documentário ficcionado ou uma ficção documental até porque ali, mais do que em qualquer outro lugar, a realidade parece que já não existe. E é um diário de viagem, esse sub-género que nos deixa sempre a sonhar com sair daqui.

E pronto, era isto.