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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Regresso a Barcelona.

"Regresso a Barcelona" foi editado em 2009 pela Oficina do Livro e pode ser comprado na wook.pt, clicando aqui, ou na Mediabooks, clicando aqui. Há muitos textos neste blog sobre o livro. Este aqui abaixo escrevi quando fechava a sua edição.

 

De onde veio este livro?

"Regresso a Barcelona" é o título do meu novo romance, já o tinha dito aqui. Quando o saboreio em voz baixa, com o prazer que sempre vem da edição, hesito sobre se este "regresso" é substantivo ou verbo. Regresso também eu a Barcelona, cidade que visitei já muitas vezes e de muitas maneiras, a primeira faz agora uns catorze anos.

Se para os eventuais leitores é o princípio, para mim, contudo, o título é o fim de um longo processo. Neste caso até, mais do que nos anteriores, o título chegou mesmo no final. Onde comecei eu então? Em vários sítios que me ocorrem de forma dispersa.

Há pontos de partida que já existiam noutros livros: a cidade, claro, neste caso duas cidades, Lisboa e Barcelona, palco por excelência de quase tudo o que escrevo; uma certa visão da sexualidade a que se calhar a Raquel Freire chamaria pan-sexual, com todas as questões de liberdade e coragem que tal visão do mundo coloca; a música, sempre a música, que desde as primeiras palavras acompanha a minha escrita - ainda não desisti de um dia ter uma banda sonora para um dos meus livros; por fim, a escrita propriamente dita, os seus processos em particular, os da criação em geral, os seus prazeres e as suas torturas.

Sobre as cidades, gostava de chamar a atenção uma vez mais para o belíssimo poema de Elizabeth Bishop, "One Art" que, na penúltima estrofe, usa a cidade como metáfora de todos os lugares, reais, imaginados, emocionais e de como os podemos perder e neles nos perder. Este poema estava na minha memória quando comecei a desenhar esta Lisboa e esta Barcelona.

Em relação à música, o tema daquilo a que podemos chamar a "diva de palco", a deusa da sociedade do espectáculo, interessava-me desde que lera "In America" da Susan Sontag. Dois albuns consecutivos de Cecilia Bartoli ("Opera Proibita" e "Maria") e um livro de Ann Patchett ("Bel Canto") fizeram-me interessar por essa figura no contexto específico da ópera.

Se "Maria" é um estudo/homenagem a uma das primeiras divas de ópera, Maria Malibran, "Opera Proibita" coloca questões mais complexas, sobre a natureza sensual da música em palco, o que lado quase licencioso que o Vaticano, precisamente, decidiu proibir no início do século que havia de ser o do iluminismo.

A epígrafe do livro é precisamente uma ária italiana de Handel, cujo texto foi escrito por um cardeal e o tema é o amor. Só o primeiro verso sugere um mundo - "por ti deixei a luz". Nada de mais apropriado para um livro em que um dos personagens principais é um escritor-fantasma, um escritor das sombras.

Acrescente-se que a ópera que tem presença dominante no livro, "La Traviata" é atravessada pelos temas da coragem e da liberdade, da fidelidade, do sacríficio.

A cereja no topo do bolo surgiu tarde, este verão, quando na praia de Água d'Alto em São Miguel, lia as "Viagens com Heródoto" do Ryszard Kapuscinski. Todo o livro é sobre viagens, todas as viagens de todos os tipos que passamos a vida a fazer, quer queiramos que não.

De tudo isto e de duas cidades, cidades onde me perco e onde me vou perdendo, não por me sentir desorientado, mas pelo prazer de nelas me encontrar, foi surgindo este livro.

Sim, há temas repetidos, retrabalhados, re-escritos, preocupações, obsessões se calhar até, biografia onde ninguem a vai encontrar. Não sei se a eles volto na consciência da imperfeição da minha escrita ou apenas porque tem de ser.

Faltou-me falar do Pedro Almodovar e no momento em que tive consciência da minha paixão por Barcelona, ao ver o "Todo Sobre Mi Madre". Da minha paixão pelo cinema, sabia desde pequenino. E como tudo está ligado, hoje tenho um amigo em Barcelona que tem a profissão da personagem de Cecilia Roth no princípio do filme.

Perdoem-me por fim, as ligações hipertextuais de que abusei neste post, mas por algum motivo este é o meu primeiro livro com agradecimentos no fim. Todas as palavras que escrevo, escrevo sozinho, mas sozinho é coisa que sei que nunca estou.

"Ah, eu rio de me ver tão bela neste espelho..."

Li há uns anos dois livros que me despertaram curiosidade em relação a uma figura que nunca me tinha chamado particular atenção, a da “diva” de palco. O primeiro livro foi “Bel Canto” de Ann Patchett, em que uma estrela da ópera é feita involuntária refém numa embaixada e a sua música acaba por servir de fio condutor dramático a um belo relato das relações humanas e dos seus limites. O segundo foi “In America”, de Susan Sontag, em que a personagem principal é actriz e não cantora, mas para todos os efeitos estamos a falar do mesmo universo.

Quando eu era criança, a imagem que tinha das estrelas de ópera era Bianca Castafiore cantando vezes sem conta a Ária das Jóias do Fausto de  Gounod para atormentar o Capitão Haddock nos livros de Tintin. Lembro-me de ver Elizabeth Schwarzkopf ensinar um jovem a cantar a ária do catálogo do Don Giovanni de Mozart na televisão por essa altura e a imagem parecia-me colar-se perfeitamente ao que tinha em mente: uma senhora de meia idade, nariz no ar e voz poderosa. Hoje a ideia da diva de ópera como matrona foi substituída por uma nova geração de estrelas que em nada ficam a dever às de cinema e televisão.

Um dos mitos sobre a vida de Maria Callas é que quando decidiu emagrecer, perdeu capacidade vocal e a sua carreira definhou. É contudo a imagem de uma Maria Callas elegante ao lado de Onassis que sobrevive nos media e na nossa memória. E parece-me apropriado, visto que a palavra Diva é italiano para Deusa e as Deusas que veneramos hoje em dia são necessariamente elegantes e belas, mais próximas de uma Mimi de La Bohème do que de uma Valquíria de Wagner.

Cecilia Bartoli, Angela Gheorghiu, Natalie Dessay são algumas das divas que hoje preenchem o imaginário e os ouvidos dos amantes de ópera no mundo todo. A Bartoli está frequentemente nos tops explorando a história do género nos seus CDs de luxo, como “Opera Proibita” e “Maria”, uma homenagem à primeira das divas, Maria Malibran. Angela Gheorghiu casou com o brilhante tenor Roberto Alagna e estou certo que fazem duetos maravilhosos em conjunto. Aliás, fiel à imagem da diva caprichosa, Angela foi despedida de uma produção de “La Bohème” por ter faltado a dez ensaios. A justificação? Queria ir a Nova Iorque ver o marido em “Romeu e Julieta“.

O caso que mais me fascina actualmente, contudo, é o de Natalie Dessay. Francesa de nascimento, iniciou a sua carreira antes dos vinte anos, novíssima, se pensarmos que a voz atinge o seu potencial máximo por volta dos trinta e tal anos. Não tem sido uma carreira fácil, contudo, e foi já operada às cordas vocais por duas vezes e por duas vezes regressou triunfalmente. Tem já concertos marcados até... 2014. Já tinha feito um post com a sua brilhante interpretação da ária da Rainha da Noite, da “Flauta Mágica” de Wolfgang Amadeus Mozart, mas podemos vê-la e ouvi-la aqui ao lado em “Glitter and Be Gay”, uma ária da ópera “Candide” de Leonard Bernstein, um dos mais brilhantes compositores do século XX.

Bernstein é dos meus compositores americanos favoritos por via do musical West Side Story, de que foi feita recentemente uma edição comemorativa com a histórica gravação de José Carreras e Kiri Te Kanawa (mais uma diva, neo-zelandesa).

“Candide” é uma ópera baseada no texto de Voltaire e “Glitter and be Gay” é uma ária que só uma virtuosa consegue cantar, pois além de exigir uma voz capaz de notas agudíssimas, exige igualmente técnica respiratória apurada (sobretudo para as gargalhadas) e uma coisa que costuma faltar a muitos cantores de ópera... capacidade para representar, entre a desilusão, o humor e o sarcasmo.
Curiosamente é uma espécie de “Material Girl” no tema e deve ser cantada no meio de jóias, um pouco como a ária com que Castafiore atormentava as restantes personagens de Hergé.