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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A propósito da Amazon.

Amazon, Apple, Facebook, Google e (ainda) Microsoft são frequentemente dissecadas na imprensa económica e tecnológica anglófona pelo lugar que ocupam como gigantes no panorama digital do momento. Destes, ando a pensar mais na Amazon, por dois motivos: quem primeiro me pôs a pensar (de novo) no assunto foi Benedict Evans, na conferência Nave Especial; por outro lado estou à espera de uma encomenda e a Amazon decidiu aparentemente abandonar a MRW e voltar aos Correios, o que significa que a coisa está demorada e difícil.

O motivo da mudança do método de expedição para Portugal está provavelmente ligado ao controlo de custos ou, mais que isso, a relação entre custos, eficiência e satisfação dos utilizadores. Mas como diz a Slate, a Amazon não é uma empresa normal, é um caso muito particular: Amazon, as best I can tell, is a charitable organization being run by elements of the investment community for the benefit of consumers. The shareholders put up the equity, and instead of owning a claim on a steady stream of fat profits, they get a claim on a mighty engine of consumer surplus. Amazon sells things to people at prices that seem impossible because it actually is impossible to make money that way. And the competitive pressure of needing to square off against Amazon cuts profit margins at other companies, thus benefiting people who don't even buy anything from Amazon.

Para o cliente final, quando as encomendas chegam, são boas notícias, claro. Para autores, criadores, produtores, editores... nem por isso. O poder da distribuição tende a esmagar as margens o mais possível. Para os funcionários da Amazon podem ser ainda piores notícias, como conta o Financial Times nesta reportagem sobre um dos armazéns gigantes da empresa em Inglaterra: Many in the town, however, have mixed feelings. They are grateful for the jobs Amazon has created but they are also sad and angry about the quality of them. Ah as maravilhas do mundo global da precaridade.

Para a concorrência, as notícias são ainda piores. Veja-se o exemplo da HMV. Eugene Wei reforça a "beleza das margens baixas": Attacking the market with a low margin strategy has other benefits, though, ones often overlooked or undervalued. For one thing, it strongly deters others from entering your market. Study disruption in most businesses and it almost always comes from the low end. Some competitor grabs a foothold on the bottom rung of the ladder and pulls itself upstream. But if you're already sitting on that lowest rung as the incumbent, it's tough for a disruptor to cling to anything to gain traction.

É uma equação tramada, praticamente impossível de replicar e assente sobre a melhor tecnologia. Como consumidor, gostava que os Correios em Portugal funcionassem assim tão bem. Como cidadão do mundo, assusto-me.

O poder dos algoritmos.

Dois artigos chamaram a minha atenção recentemente para a crescente utilização de processos matemáticos e automatizados em contextos comerciais. Dito desta maneira, parece que estou a falar de máquinas registadoras, mas não, estou a falar de algoritmos que interpretam em tempo real sistemas simbólicos altamente complexos e que nunca poderiam ser observados e interpretados a um ritmo humano.

O primeiro artigo, no The Atlantic, chamava a atenção para a coincidência entre o acréscimo de volume de notícias nos media online (que hoje em dia, na verdade, são todos) sobre a actriz Anne Hathaway e a subida das acções da empresa Berkshire Hathaway, do milionário Warren Buffett. A correlação aparente entre os dois factos teria a ver com algoritmos de trading capazes de valorizar a presença do nome Hathaway nos media e traduzir essa valorização em compra de acções. Parece idiota, não?

O segundo artigo tem uma fonte menos respeitável (io9.com), mas inclui uma demonstração cabal de como dois vendedores de livros usados na Amazon usam algoritmos para estabelecer os seus preços e qual a lógica prevalente em cada um deles. Um deles pode até nem ter o livro, mas sabendo que ele existe... põe-lhe um preço na mesma.

Num e noutro caso, a falta de vigilância humana sobre os algoritmos permite que reparemos nestas pequenas (?) aberrações do "normal funcionamento dos mercados". O que me pôs a pensar no que raio é o normal funcionamento de um mercado que, em grande parte, se gere a si mesmo em correlações deste género em que algoritmos se alimentam de outros algoritmos, num equilíbrio ou desequilíbrio sem intervenção humana.

Tudo isto me perturba ainda mais depois de ver o "Inside Job" e assistir à crise dos últimos anos, primeiro do chamado subprime, depois generalizada aos mercados financeiros, às economias e agora à dívida soberana (cada vez que alguém fala no Cristiano Ronaldo, o que acontece aos nossos juros?).

Ah e também li o "Cosmopolis" do Don DeLillo, que o Cronenberg vai começar a filmar, produzido pelo Paulo Branco. Nesse livro, o personagem principal negoceia o futuro sob a forma de títulos financeiros. Já para não falar do "Zero History" do William Gibson, que tem como macguffin a hipótese de prevermos nem que seja os próximos cinco minutos dos mercados.

Existe, por cima do mundo real (?), uma camada que alguns crêem que documenta financeiramente o que esse mundo é e pode vir a ser. Acho cada vez mais que é só mais uma forma de ficção, uma ficção a que nós, humanos, ainda por cima, temos cada vez menos acesso.

Não me espanta que alguns banqueiros se achem deuses.

 

Na imagem está Hades, irmão de Zeus e Poseídon, deus grego do submundo, dos mortos e da riqueza (gosto da ligação). A seu lado, a sua consorte, Perséfone.

Crise global.

Ainda não me tinha ocorrido que o Dubai pudesse estar em crise. Para mim sempre me pareceu uma terra mirabolante assente sobre as areias do deserto. Neste blog, percebi que tinha razão. O Dubai é uma espécie de miragem, um paradigma de tudo aquilo de que falamos, quando assumimos que há uma economia que não é real, uma fama sem merecimento, um luxo sem justificação.

Três mil carros abandonados no aeroporto por imigrantes ocidentais em fuga? As areias estão cada vez mais movediças.

2009, o ano do pânico.

Neste artigo de Bruce Sterling - entre muitas coisas, escritor de ficção científica - achei interessante ele definir o século XX como o "século do comunismo", medindo-o entre 1914 e 1989. Entre 1989 e 2009, teríamos vinte anos de hiato, de preparação para o século seguinte.

Entrei na faculdade em 1990 e desde então, se pensar nos grandes temas do zeitgeist, começo a considerar a hipótese de dar razão a Sterling: na Europa vivemos em "crise" permanente e todos os intelectuais abordaram o tema; nos Estados Unidos falou-se do "Fim da História" até dois aviões serem atirados contra duas torres; na economia viveu-se um boom sem precedentes, até o edifício financeiro se desmoronar; finalmente, na tecnologia, fomos navegando à vista no barco da "Revolução Digital".

Para Sterling, neste outro artigo, 2009 vai ser um ano de muitos pânicos, da maneira como ele define pânicos. A própria pulsão de definir princípios e fins a quente, revela um estado de espírito bastante marcado pelo dito pânico. Os temas nem sequer são novos, apenas repisados e organizados como índice para um futuro próximo.

Como português, um pouco à margem, em decadência há séculos, em crise mais ou menos constante desde que me lembro, nenhuma destas questões me agita com intensidade particularmente notável.

Seja como for, tudo isto acaba por só me lembrar as letras e a música da Laurie Anderson. Motivo pelo qual ela está aqui ao lado a cantar.

Para quem gosta de cinema...

...mas também do negócio que lhe está associado, cheguei via Kottke a este gráfico fantástico do New York Times, que mostra a evolução das receitas em sala das principais estreias no mercado americano, desde o início de 1986 a Fevereiro do ano passado. É um tempo áureo que inclui recordes como o Titanic. Nota-se perfeitamente a sazonalidade do negócio e o tempo de vida médio de um filme, com as naturais excepções. Fascinante.

Efeitos secundários.

A crise financeira e económica tem efeitos secundários curiosos. Segundo o New York Times, os skaters americanos andam a descobrir as moradas de casas abandonadas pelos donos, incapazes de pagar as respectivas hipotecas. O objectivo? Re-utilizar as as piscinas para fazer umas manobras. No site Skate and Annoy, num post, diz um deles: “God bless Greenspan, patron saint of pool skatin’.” A reportagem fotográfica é mediana mas documenta bem o movimento: