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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O Cravo Bem Temperado

Ontem fui ouvir a genial Angela Hewitt tocar a primeira parte do Cravo Bem Temperado de Johann Sebastian Bach à Gulbenkian e amanhã irei ouvi-la de novo, tocar o segundo livro da mesma obra.
Duas ou três notas sobre o assunto. Quando andava a escrever "Em Silêncio, Amor", fartei-me de ouvir música em piano mas nunca cheguei a ir assistir a um concerto ao vivo. Consola-me que grande parte das sensações que me assaltaram ontem não tenham sido inesperadas ou desconcertantes em relação ao que escrevi. Consola-me que a música tenha embalado novas ideias para coisas que ando a escrever.
Segunda nota, o Grande Auditório não estava cheio. Será sinal de alguma coisa? Assinaturas não aproveitadas? Falta de paciência para uma obra extensa e estruturalmente repetitiva de Bach (duas horas e meia de concerto)? Ou só ignorância de uma das maiores pianistas da actualidade?
Terceira nota. Muita terceira idade. Pouca juventude. As tosses do costume e a irritação do costumo por elas gerada. Amanhã há mais.

Paulo de Carvalho - E Depois do Adeus

(Vencedora do Festival da Canção de 1974)

Música: José Calvário
Letra: José Niza

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos só

De onde vem um título?

Até agora, apenas duas pessoas me perguntaram, em jeito de confirmação, de onde vinha o título de "Em Silêncio, Amor". Diga-se que mais algumas não perguntaram por eu ter explicado.

Um ponto prévio.

Na versão cinematográfica de "High Fidelity" de Nick Hornby, Rob questiona-se:

What came first, the music or the misery? People worry about kids playing with guns or watching violent videos, like some kind of culture of violence will take them over. Nobody worries about kids listening to thousands, literally thousands of songs about heartbreak, rejection, pain, misery and loss.

Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?

Isto para dizer que sempre achei incrível como a canção de Paulo de Carvalho, "E Depois do Adeus" conseguia ter aquele tom épico e festivaleiro, sendo sobre uma despedida, uma separação. É a magia da pop, é verdade, mas o meu momento favorito dessa música continua a ser aquele em que, em mudança de tom, a voz diz "em silêncio, amor".

É claro que toda a letra da música e o facto simples de ter sido uma das senhas do 25 de Abril de 1974 me encantavam também.

A isto acrescente-se que, como muito bem disse em tempos o José Duarte, a versão jazz do Carlos Martins para este standard, traz-nos uma sensação de reconhecimento do familiar a uma nova luz que é provavelmente o que os americanos ouvem há anos, a cada cover do seu imenso songbook.

Quanto a "Os Adultos", é preciso dizer que teve um título alternativo durante muito tempo que era "Para Adultos", mas acho que teria de ser um romance diferente para ter esse título. "Os Adultos" acabou por ser o título ideal para a incomunicação, encontros e desencontros entre as várias personagens e idades presentes no livro.

Quanto a "Aquariofilia", apesar das dúvidas da editora, nunca teve na minha cabeça um título diferente, nem nunca pôde ter. A natureza equívoca do título, a sua sonoridade familiar e deslocada, a claustrofobia que acaba por invocar no contexto da história, tudo era ideal.

O que muda numa biografia.

Dizia na badana do "Aquariofilia": “Luís Soares nasceu em 1972 em Lisboa, o lugar onde ainda lhe apetece viver. Sempre trabalhou na área de comunicação e media, criando, produzindo, coordenando, gerindo, dando aulas. Gosta furiosamente de pessoas, de olhar, ouvir, livros, música, filmes, boas histórias e sentir--se vivo. Aquariofilia é o seu primeiro romance, mas escreve desde que se lembra de ter uma caneta ou um teclado na mão.”

Diz na badana de "Em Silêncio, Amor": "Luís Soares nasceu em Lisboa, algures nos anos 70. Sempre viveu nesta cidade, embora prefira considerar-se vagabundo, na imaginação e nos passos. Não é por isso que a trai. Escreve desde que se lembra, com lápis, canetas, em cadernos, blocos, guardanapos, nos computadores que lhe aparecem à frente e, quando não há mais nada, toma notas no telemóvel. Trabalha em Internet há doze anos, dá aulas e passa música de vez em quando, mas procura não se levar muito a sério."

Fui eu que escrevi este texto, em ambos os casos, mas achei curioso, quando o li mais tarde, "as coisas de que gosto" terem sido as que desaparecerem. Talvez tenha menos certezas hoje sobre aquilo de que realmente gosto. Talvez prefira afirmar-me menos seguro sobre aquilo que me move, mas talvez isso não seja uma coisa má.

Luís e as Luísas

Será coincidência, certamente, mas cruzei-me com duas Luísas recentemente e ambas fizeram leituras do meu livro que me souberam bem. Não tanto porque pudessem ser cegamente elogiosas, mas porque me soube bem saber-me lido com prazer e intencionalidade.

A primeira, evidentemente, foi a Luísa Castel-Branco. Já lhe agradeci devidamente as generosas palavras que teve para comigo no lançamento do livro e agradeci igualmente ter aceite o convite para apresentar o livro. Mais do que essas palavras, confesso que o que mais me agradou foi saber que a personagem do livro que ela própria está a escrever decidiu voltar, depois de ter terminado a leitura do meu. Por me ter já acontecido, por saber do prazer desses regressos, foi o melhor elogio que me fez.

A Luísa Mellid Franco escreveu no Actual do Expresso do último sábado:

"Em Silêncio, Amor é o terceiro romance de Luís Soares, depois de Aquariofilia, de 2003, e de Os Adultos, dois anos mais tarde. Parece ter a estrutura de um conjunto de contos, essencialmente urbanos, com uma forte carga intertextual e de interacção febril de histórias e ideias, próprias e adoptadas, deixando em carne viva a escrita e os seus processos. É, sobretudo, um romance feito de momentos decisivos sobre um fundo em que se destaca o livro que se leu, o quadro cuja superfície estremece em quem o olha, a música que permanece à flor da pele."

É pouco, mas é uma leitura que toca em (quase) todos os pontos em que me apetecia ver o que escrevi tocado.

O Nome da Cidade.

O título deste post é referência a uma música de Adriana Calcanhotto, onde ela canta "o Redentor, que horror, que lindo", o que me lembra logo o Corcovado do Tom Jobim, mas mais que isso, me pôs a pensar sobre as cidades e o que são.

Se alguma coisa já foi repetida em comentário aos meus livros, é que são urbanos. Pelo menos passam-se em cidades. Se isso transparece na própria escrita e faz dos livros urbanos, é outra questão. Seja como for, "Em Silêncio, Amor" é o primeiro que se passa numa cidade sem nome. "Aquariofilia" e "Os Adultos" tinham os pés bem assentes em Lisboa e arredores.

Se num primeiríssimo momento, esta ausência de nome para a cidade que serve de cenário à narrativa veio de uma certa ignorância sobre Nova Iorque (a cidade "onde" me apetecia escrever), em breve ganhou outra dimensão, por dois caminhos distintos.

O primeiro, como já referi algures neste blog, passa pela pintura de Edward Hopper e o tanto que ele pintou essa cidade, as suas solidões e actores, encenando-os em luz e escuridão, cores e silêncios.

O segundo levou-me a pensar o que teriam todas as cidades em comum, o que poderia eu escrever sobre uma cidade sem nome que fosse várias cidades. Aí os resultados foram mistos e acho que no fim, como alguém me disse, saiu uma Nova Iorque com traços mediterrânicos. Como em quase todas as cidades ocidentais, aqui há parques, avenidas, ruas, escolas, lojas, metro, livrarias, trânsito mal educado, árvores de que nos esforçamos para descobrir o nome.

Sobrevoei algumas dessas cidades no Google Earth e fiz esta imagem. Da esquerda para a direita: Barcelona, Londres, Nova Iorque, Lisboa e Budapeste. Já as visitei todas e de diferentes que são, todas são cidades em sentido próprio.

Cidades

Espécie de posfácio

Um posfácio não precisa de estar no livro, nem de imediatamente se lhe seguir. Mas costuma. Por isso isto é uma “espécie de”, com as palavras num ritmo incerto de brisa. Afinal de contas, é Outono.

Já falei aqui da poesia que se pode encontrar no livro ou do que podeia ser para ele uma banda sonora. São coisas que costumam constar de um posfácio, por isso falarei de outras.

Estou a ouvir “In Rainbows” dos Radiohead. Nas palavras de um grande amigo meu, eles são, de facto, “godlike”, percorrendo uma linha fina estendida entre uma boa canção e um ambiente claustrofóbico ou sonhador. A pureza do som é sempre um pouco suja ou reverberante, deixando na melodia um travo de perturbação.

Além do mais, com a mesma acuidade com que fazem música, estão a fazer mais um esforço por sacudir a indústria musical que aparentemente continua feliz na pose de avestruz. Interessante, para quem, como eu, tem passado os dias a ouvir falar do futuro da indústria do entretenimento.

“Serendipity” é uma palavra que, ao contrário da maioria, tem data de nascimento e autor conhecidos. Deriva de um velho conto de fadas persa (“Os Três Príncipes de Serendip”) e foi usada pela primeira vez por Horace Walpole, no dia 28 de Janeiro de 1754, numa carta ao seu amigo Horace Mann.

Deixei no avião “Divisadero” do escritor canadiano-cingalês Michael Ondaatje, por isso não posso citar algumas das suas frases brilhantes. Felizmente tinha já acabado de o ler. Posso dizer que o trabalho de minúcia sobre as frases e os sentimentos (sobretudo quando deles sabemos pouco falar) continua a ser o que me encanta em Ondaatje, nas suas personagens em busca de lugares e ligações que dêem sentido ao mundo.

O livro está composto no tipo de letra Sabon, que é também o usado em “Os Adultos” e “Em Silêncio, Amor”. Sabon é um tipo de letra de estilo clássico, com serif, desenhado pelo tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold (1902-1974) entre 1964 e 1967. É baseado na tipografia de Claude Garamond (c.1480-1561), particularmente um espécime impresso pelo tipógrafo de Frankfurt, Konrad Berner. Berner era casado com a viúva de um outro tipógrafo, de nome Jacques Sabon. Daí o nome.

O Sabon itálico (que podem apreciar no topo deste blog) é baseado na tipografia de um contemporâneo de Garamond, Robert Grandjon.

Comprei este tipo de letra no site da Adobe há uns anos, um outro outono. É estranho ser Outubro e sentir a mesma luz que desce, a mesma brisa que refresca. Custou uns 20 dólares.