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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Afinal era o João.

É provável que ninguém tenha reparado, mas naquele post ali atrás, enganei-me. Estava convencido que a Paixão de Bach que ia ouvir hoje era a Paixão Segundo São Mateus, mas afinal, Ton Koopman dirigiu um conjunto fantástico de músicos na Paixão Segundo São João, menos monumental, igualmente emocionante e com o brilhantismo próprio do velho Bach, desde o primeiro Herr até ao último Ewiglich (aqui ao lado, uma página do manuscrito). Que árias! Que coros! Que emoção naquele evangelista contando de novo essa história.

Mas não foi isso o mais impressionante, hoje. Como sucede por vezes no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, a parede de fundo era uma enorme janela sobre o jardim. E choveu quase do princípio ao fim. E relampejou. Apenas o excelente isolamento sonoro impediu os trovões, mas que interessa isso quando a música é sublime, os intérpretes se entregam a ela com paixão (perdoem-me o trocadilho) e o público vibra.

Bom, só falta então, pôr aqui o vídeo correcto, não? Não é a versão do Koopman, mas não sou eu que vou dizer mal do Harnoncourt e deste rapazinho.

 

Paixão.

Começa hoje a semana santa, a semana da Paixão.

Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:

 

paixão
s. f.
1. Impressão viva.
2. Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.
3. Grande inclinação ou predilecção.
4. Afecto violento, amor ardente.
5. O objecto desse amor.
6. Pena, cuidado, trabalho.
7. Grande desgosto, grande pesar.
8. Parcialidade.
9. Sofrimento ou martírio (falando-se de Cristo ou dos santos martirizados).
10. Parte do Evangelho que narra a Paixão de Cristo.
11. Filos. Impressão recebida de um agente.
12. Aveiro Cada uma das estacas em que se arma o botirão.

 

Doze definições. Se calhar deviam ser treze. E logo na Gulbenkian lá estarei para ouvir isto:

 

Via Crucis

Ao longo da Idade Média, a leitura da parte dos evangelhos dedicada à Paixão de Cristo, que acontecia durante a Semana Santa, foi evoluindo para uma interpretação, primeiro "entoada", depois "cantada", num processo que culminou já após a Reforma nos monumentos musicais protestantes que são as Paixões de Bach, segundo São Mateus e segundo São João.

Para além de todo o significado religioso da narração e interpretação dessa última semana de Cristo, a intensidade dessa Paixão prestou-se a ser colocada em música ao longo dos séculos de forma brilhante. Embora ateu, sou um devoto confesso da "Paixão segundo São Mateus" de Bach, não podia deixar de mencionar "As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz" de Haydn ou a "Passio" de Arvo Part que vai ter interpretação na Gulbenkian por estes dias. Para além destas formas eruditas, as representações musicais da Paixão contudo, tiveram também sempre presença popular na Páscoa. Tradições que ainda hoje subsistem em todo o planeta.

Christina Pluhar (na fotografia), alaudista, com o agrupamento L'Arpeggiata, o brilhante contratenor Philippe Jaroussky e a soprano Nuria Rial, juntou-se a um agrupamento corso de nome Barbara Fortuna, para apresentar o seu caminho da cruz, combinando música erudita do século XVII (composta por Sances e Merula) com música tradicional da Córsega. O resultado é uma Paixão "inventada" de nome "Via Crucis", de uma coerência absolutamente surpreendente, apesar da diversidade das fontes.

Aqui abaixo ficam em exemplo, "Maria (sopra La Carpinese)" pelas vozes corsas e uma canção de embalar napolitana, "Ninna nanna al bambino Gesù (Napoletana)" por Philipe Jaroussky.