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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Rascunho para um amigo imaginário.

Um dia Art veio acordar-nos à sua cama que tomáramos como emprestada. Com um dedo cruzando os lábios pediu-me silêncio, lá fora ainda havia apenas a mais ténue das madrugadas. Saímos sorrateiros, pés descalços, calções. Embrulhámo-nos num par de cobertores velhos que cheiravam a naftalina e subimos as escadas. Art descobrira que a porta para o telhado não tinha fechadura e deitámo-nos a ver o nascer do sol vir do lado do rio.
- Não tinhas amigos antes de vires para Lisboa?
- Nem por isso.
A primeira luz toca-nos ao de leve, dedos pianíssimos, nuvens ainda na sombra.
- Tu também não tens amigos. - Diz ele.
- Tenho-te a ti, a vocês.
- Sim, mas antes.
O ar arrepia-nos, os dois semi-nus debaixo dos cobertores, as telhas marcando-nos as costas, desconfortáveis. E se um de nós escorrega? E se uma telha se solta? Não há mais que um parapeito raso antes da queda. A rua são cinco andares abaixo, uma poça de sangue lenta, esvaindo-se entre os paralelipípedos.
- Eu tinha dois amigos imaginários! O Bradley e a Stacey. Fartava-me de brincar com eles, fazíamos castelos na areia, dávamos passeios de bicicleta, comíamos fatias de bolo de chocolate a meias, de tudo um pouco.
- Que lhes aconteceu?
- Acho que se tornaram amigos um do outro e se foram embora. - Vira-se para mim e pisca-me o olho. - Nunca tenhas amigos imaginários aos pares, senão eles vão-se embora.

Plaça Sant Felip Neri (rascunho)

Estamos de pé na entrada da igreja barroca da Plaça Sant Felip Neri. A chuva cai continua há já uns quinze minutos sem aliviar e tudo parece cada vez mais cinzento, o céu, as paredes, as marcas nas paredes (da bomba de 1938), os fantasmas das crianças mortas, a pedra do chão, das fachadas. Arrefeceu ao fim da tarde e começou a chover. Estamos mal vestidos para aquele aguaceiro e o vento fustiga-nos com água. Não sempre, só de vez em quando, oblíquo para nos lembrar que existe. A roupa de Clara começa a ficar ensopada. Assim, como estamos, é ela que apanha mais chuva. Não me ocorre não abraçá-la por trás, não usar o meu abraço para a aquecer, não cheirar o perfume do seu cabelo.
Vamos chegar atrasados ao jantar em casa do professor Jaume. Arrepiamo-nos do frio e do silêncio, do som das gotas na pedra, na água da fonte, da madeira da porta fechada nas minhas costas. A chuva, o frio e o silêncio, não, o ruído, a água ruidosa, um muro de água. A igreja é de 1752, uma bomba em 30 de Janeiro de 1938 deixou as paredes violentamente marcadas de estilhaços. Vinte crianças que se abrigavam ali morreram. Gaudi foi atropelado por um eléctrico e morreu também quando vinha a caminho daqui em 1929. Algures na praça fica o Museu do Calçado, mas não o descortino. São coisas que aprendi nos últimos dias num guia de viagens.
Abraço Clara com mais força. Deixa cair um pouco a cabeça sobre o meu braço. Começa a cantar. Baixinho, na cadência do baixo contínuo da chuva, uma daquelas árias de Handel que ensaia obsessivamente naqueles dias da nossa primeira ida a Barcelona. Clara está em todos os momentos inundada de música. Tenho ciúmes da música, não sei quanto espaço sobra para mim.
É só um aguaceiro de Primavera, por um canto do céu estreito da praça consigo já ver uma nesga de azul entre duas nuvens. Noutros tempos seria considerado um augúrio, de tão inesperado e intenso, uma mensagem dos deuses. E a voz de Clara, seria também uma mensagem dos deuses? Podermos ficar sempre ali, tornarmo-nos estátuas da praça e esperar pelo Verão e sorrir para as crianças maltrapilhas jogando à bola.

Aquiles sobre Clara

Eu e ela, noite fria, há muitos anos, há quantos anos? (Fria como é por vezes fria na Primavera em Lisboa, muito pouco, a precisar de casaco apenas, pressa nenhuma.) Passeávamos entre carros e prédios, descendo do Rato para Santos, chão maltratado, aceleras e despistados, o que há em Lisboa; mas sentíamo-nos herdeiros do amor do mundo, todo o brilho do mundo; vinha entre as folhas jovens das árvores, candeeiros coados tremeluzentes, vinha de corações como os nossos, agitados como janelas abertas. Não interessava de onde vinha. No meio de todo esse brilho, o que eu lembro é a curva das suas pestanas, a cabeça sacudida para trás, de prazer, um prazer explosivo e infantil, nada de sexual. Não, não, nada disso, naquele momento só como se fosse Natal. Éramos crianças, aquecidos por aquele brilho naquela rua.
- Deixa-me dar-te um beijo na ponta do nariz.
- Na ponta do nariz?
- Gosto do teu nariz!
- Que falta de pontaria.
- Parvo.
- Parva.
- Tonto.
- Gosto das tuas pestanas.
- Frio, frio. Cada vez mais longe.
- Um beijo nas pestanas?
- Tonto mesmo.
Na boca.